Eshiley Lislaine Almeida da Silva Sousa, Isabela Paulino Assis, Pedro Santos Freire e Sophia Garcia Gonzaga

Um levantamento realizado pela Forbes aponta que, em 2023, aproximadamente 4,9 bilhões de pessoas ao redor do mundo utilizam redes sociais. A projeção é de que esse número continue em crescimento acelerado, podendo alcançar 5,85 bilhões de usuários até 2027.

O Brasil ocupa atualmente a quarta posição no ranking global de consumo de redes sociais, ficando atrás apenas da Índia, Estados Unidos e Indonésia. Os dados são da Comscore, que também revela quais plataformas dominam o cenário digital no país.

Segundo a pesquisa, o YouTube lidera entre as redes sociais mais acessadas pelos brasileiros, com um alcance de 96,4% dos usuários. Em seguida, aparecem o Facebook, com 85,1%, e o Instagram, com 81,4%, .O TikTok também se destaca no cenário nacional, aparecendo logo depois das três principais plataformas e registrando crescimento consistente em sua audiência +16%.

Fonte: Gráfico adaptado da pesquisa de Streaming e Redes Sociais da Comscore

Entre os principais usos das redes sociais, entretenimento, notícias, e serviços,  lideram o consumo. O Brasil se destaca como o país que mais consome notícias e informações na América Latina. O levantamento revelou que 96% dos consumidores brasileiros consideram importante estar bem informados sobre os acontecimentos, e 66% confiam na internet como principal fonte de informação. Esse comportamento se reflete diretamente na esfera política digital, onde as redes sociais passaram a exercer um papel central nos processos eleitorais.

A equipe desta reportagem realizou um levantamento de dados pelo formulário Fala, Povo “Políticos Influencers” que apresentou informações sobre as plataformas, conteúdos e influência. A pesquisa teve 125 respondentes e deste 86 responderam sobre as plataformas. Segundo o levantamento, a plataforma mais usada para consumir conteúdo político é o Instagram, 65,1%. E ainda que o Youtube seja a rede mais acessada pelos brasileiros, aparece atrás no Twitter/X (34,9%) com 33,7%. Já o TikTok é a fonte de conteúdo político para cerca de 25% dos respondentes, seguido do Facebook (12,8%). O Whatsapp apareceu em apenas 1,2% das respostas.

Créditos: Sophia Garcia Gonzaga

Sandra Henriques, doutora e pesquisadora em comunicação digital, mídias sociais, jornalismo digital e marketing digital afirma que “as redes sociais estão transformando a maneira como os políticos se comunicam com os jovens e com a população em geral, especialmente em um momento em que os jovens demonstram menor interesse pela política”.

De acordo com o apontamento da pesquisadora, o levantamento “Políticos Influencers” questionou os participantes se eles consideram que os políticos influenciam a opinião dos jovens pelas redes sociais e dos 87, que responderam essa pergunta, 52% concorda plenamente e 42,5% concorda que influenciam . Os que discordam somam apenas 3%. 

Créditos: Sophia Garcia Gonzaga

Dados do Interlab, publicados em 2023, apontam que parte expressiva da juventude brasileira vê políticos como influenciadores digitais. Segundo o levantamento, 27% dos jovens entrevistados consideram alguns políticos como influenciadores, sobretudo aqueles que utilizam ativamente redes como Instagram e TikTok para se comunicar de forma direta — caso do deputado Nikolas Ferreira. Entre os mais seguidos por esse público, destaca-se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Na pesquisa Fala, povo, 69,6% dos 125 respondentes afirmaram que consideram os políticos que usam muito as redes sociais como influencers digitais e apenas 30,4% não consideram.

Créditos: Sophia Garcia Gonzaga

A pesquisadora Sandra destaca, “é fundamental, políticos que usam as redes sociais de forma assertiva, com o apoio de boas assessorias de comunicação, conseguem se aproximar da juventude, especialmente daquele público que já não consome meios tradicionais como televisão e rádio, mas se informa por podcasts e mídias sociais.”

Gilmar Lopes analista de sistemas e fundador do E-farsas — o site de fact-checking mais antigo do Brasil — comenta que “atualmente existem dois caminhos distintos para a comunicação política nas redes sociais: um é o estilo “estridente”, em que o político se apresenta de forma combativa e autoritária, sempre denunciando algo e se posicionando de maneira agressiva; o outro é o estilo “brincalhão”, onde o político usa humor e memes para chamar atenção, muitas vezes exagerando em gestos ou situações para destacar suas ações. Ambos os estilos buscam se conectar com o público, pois um discurso mais formal geralmente não atrai a atenção dos usuários da internet“.

Políticos Influencers

Nikolas Ferreira, eleito em 2022 como o deputado mais votado do Brasil, com  1,47 milhão de votos, aos 26 anos, ganhou visibilidade na sua atuação política através das suas redes sociais, onde publica conteúdos que frequentemente geram polêmica. Seus conteúdos abordam questões como cristianismo, conservadorismo, “defensor da família”, além do movimento Direita Minas.

Deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Foto: Câmara dos Deputados

Sua militância começou ainda em 2016, com a produção de vídeos em apoio à família Bolsonaro, especialmente por meio do YouTube, mas depois migrou sua concentração ao Instagram e Tiktok. Em seu perfil no Instagram, já acumulou mais de 1 milhão de visualizações em mais de 500 publicações.

Após o episódio do “pix”, Nikolas ultrapassou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em número de seguidores no Instagram, atingindo 15,6 milhões, frente aos 13,3 milhões do chefe do Executivo.

Caso do Pix

No começo de 2025, surgiram polêmicas sobre o pix quando o Governo Federal fez uma proposta de as fintechs e operadoras de máquina de cartão também deveriam informar as movimentações do pix e cartão de crédito para valores acima de R$5 mil, de pessoa física, e R$15 mil, para pessoa jurídica, no mês. Essa medida não seria uma novidade, já que os bancos e instituições financeiras tradicionais apresentam essas informações desde 2020 para a Receita Federal. 

Entretanto, o deputado federal Nikolas Ferreira divulgou um vídeo que dizia que essa obrigatoriedade era na verdade uma “quebra de sigilo” e também mencionando que o pix poderia ser taxado. Devido a polêmica causada pelo vídeo e o grande alcance de público, a medida foi revogada pelo Governo Federal.

Segundo Gilmar Lopes, “os políticos viram nas redes sociais uma vantagem estratégica: alcançar milhões de pessoas em poucos segundos e a um custo muito baixo, divulgando conteúdos ou críticas a adversários de forma rápida e eficaz”.

Após o episódio, o deputado reúne 17,2 milhões de seguidores no Instagram e 7,8 milhões no TikTok. De acordo com a tabela de engajamento de conteúdo referente ao TikTok, o político apresenta uma média de engajamento de 9,20%.  No caso do Instagram, embora a plataforma tenha sido analisada, os resultados não foram considerados conclusivos, uma vez que apenas a quantidade de comentários por publicação estava disponível para  os perfis analisados.

Créditos: Pedro Santos Freire

Erika Hilton (PSOL) foi eleita em 2022 como a primeira deputada federal trans do Brasil, com 254.592 votos, ficando entre os dez candidatos mais votados em São Paulo. Sua atuação política e produção de conteúdo digital são voltadas para a defesa dos direitos das minorias, o combate à violência de gênero, o enfrentamento ao racismo e a promoção de políticas públicas para populações vulneráveis. Além disso, a deputada compartilha conteúdos mais orgânicos sobre moda, desfiles e eventos dos quais participa, mantendo uma comunicação próxima com a comunidade.

Deputada Federal Erika Hilton (PSOL) Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados/ Reprodução: PSOL

“Os políticos e influenciadores, em geral, utilizam essa aproximação por meio do debate, do discurso e da conversa com o público, apresentando características e conteúdos que sejam próximos das pessoas. As redes sociais, de maneira geral, estimulam essa sensação de pertencimento, pois o público gosta de se sentir parte”, explica Sandra Henriques.

A deputada foi eleita uma das “100 mulheres mais inspiradoras e influentes do mundo em 2022” pela BBC, no “Next Generation Leaders” da revista Time e entre os negros mais influentes do mundo pela ONU. Em 2025, no Dia da Visibilidade Trans, uma pesquisa da Croma Consultoria destacou seu desempenho digital. 

Entre os marcos recentes, Hilton conquistou mais de meio milhão de novos seguidores e ultrapassou 104 milhões de visualizações em vídeos relacionados à defesa da escala de trabalho 6×1. Durante a disputa digital conhecida como “briga do Pix”, Erika também se destacou, embora não tenha superado seus opositores em número de visualizações, consolidou sua presença online como um dos principais nomes da esquerda nas redes sociais.

Atualmente ela possui 3,6 milhões de seguidores no instagram, 1,3 milhões no TikTok, com uma média de engajamento no Tiktok de 4,26%.

Créditos: Eshiley Lislaine Almeida da Silva Sousa

Suéllen Rosim (PSD), jornalista de formação, foi eleita prefeita de Bauru em 2020 com 55,98% dos votos válidos, tornando-se a primeira mulher e pessoa negra a ocupar o cargo em 124 anos. Reeleita em 2024 com 53,73%, passou pelo Patriota e PSC antes de se filiar ao PSD. Com forte atuação nas redes sociais, reúne mais de 208 mil seguidores no Instagram e 159 mil curtidas no Facebook, onde divulga ações da gestão e interage com a população.

Prefeita de Bauru Suéllen Rosim (PSD)/ Foto: Reprodução

Em seus perfis, ela compartilha conteúdos de inspiração cristã — influência de sua mãe, Lúcia Rosim, pastora da Igreja MIPE Bauru — e valores ligados ao conservadorismo. A prefeita mantém uma participação ativa nas redes sociais, divulgando conteúdos de defesa pessoal diante de críticas que, muitas vezes, extrapolam o campo político, incluindo ataques de cunho racista, machista e o uso de deep fakes, como ocorreu nas eleições de 2023, o que trouxe mais visibilidade à prefeita.

A prefeita possui 208 mil seguidores no instagram, 24,8 mil seguidores no Tiktok, com uma média de engajamento de 3,41%

Gilmar exemplifica: Um prefeito de cidade pequena consegue, pelas redes, falar para milhões de pessoas, até fora do país. Depois que descobriram essa ferramenta, o alcance aumentou de forma exponencial.” 

Créditos: Pedro Santos Freire

Rodrigo Manga, prefeito de Sorocaba pelo Republicanos, consolidou sua imagem como o “prefeito TikTok” e, em abril, ampliou ainda mais sua presença nas redes sociais após se tornar alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga desvios de verbas na saúde.

Operação da Polícia Federal – Copia e Cola

A operação “ Copia e Cola” realizada pela polícia federal, é uma investigação policial que visa desarticular  uma organização criminosa suspeita de desviar recursos públicos, fraudes em contratos e lavagem de dinheiro. O prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga, é alvo da operação que apura desvios na saúde.

Formado em Marketing, iniciou sua carreira no comércio de automóveis, destacando-se com vídeos de marketing no YouTube. Sua popularidade o levou a ser eleito vereador de Sorocaba em 2012 pelo PP e reeleito em 2016, tornando-se o vereador mais votado da cidade na época, com 11,4 mil votos.

Em 2020, Manga venceu a eleição para a Prefeitura de Sorocaba, derrotando a então prefeita Jaqueline Coutinho (PSL) no segundo turno, com 52,5% dos votos válidos. Em 2024, ele foi reeleito no primeiro turno com 73,7% dos votos válidos, marcando a maior votação da história da cidade, atrás apenas de Vitor Lippi, que obteve 80% dos votos em 2008.

Prefeito de Sorocaba Rodrigo Manga/ Foto: Divulgação/Rodrigo Manga (Republicanos)

Rodrigo Manga se destaca pelo estilo de conteúdo baseado em vídeos curtos e situações inusitadas, que ampliaram sua popularidade e geram memes sobre Sorocaba como uma cidade futurista, a pesquisadora Sandra indica: “Essa comunicação retira a formalidade, tanto do candidato quanto de alguém que já está no poder, aproximando essa pessoa ou candidato do seu eleitor.”

O Fala, Povo apontou que 49,4% não gostam quando os políticos fazem memes na internet, mas outros 31% disseram gostar dependendo do político. Apenas 8% dos respondentes afirmaram com certeza que gostam de memes que os políticos fazem nas redes.

Créditos: Sophia Garcia Gonzaga

Entretanto, 49 dos 86 respondentes desta pergunta concordaram que os políticos que fazem memes e usam linguagem jovem nas redes sociais são mais bem recebidos pelo público. Apenas 8 discordam dessa afirmação e 1 discorda plenamente.

Apesar dos projetos divulgados pelo prefeito, como passe livre estudantil e distribuição de guarda-chuvas, sua gestão enfrenta críticas pela falta de avanços em áreas como educação, saúde e infraestrutura, especialmente após as fortes chuvas de 2024. Ainda assim, parte do público valoriza sua atuação e o contato direto nas redes sociais.

Nos bastidores da política, Manga já demonstrou interesse em candidatar-se ao governo do estado de São Paulo ou até à presidência da República, dependendo das movimentações de seu colega de partido, o governador Tarcísio de Freitas. Sua presença nas redes sociais segue sendo uma ferramenta central em sua estratégia política, com o engajamento nas plataformas sendo um reflexo da polarização de opiniões sobre sua gestão.

Rodrigo Manga possui 3,8 milhões de seguidores no instagram, 3,1 milhões no tiktok, com uma média de engajamento de 4,75%.

Créditos: Eshiley Lislaine Almeida da Silva Sousa

Do analógico ao digital

Nos últimos 30 anos a internet possibilitou uma revolução na esfera pública de debate que progressivamente mostra-se mais democrática. Simultaneamente, múltiplas dinâmicas decorrem da implementação da web no contexto político. Não somente a polarização como a desinformação se espalham. Neste contexto, políticos tentam ganhar seguidores, votos e influência.

Segundo o artigo Marketing político na era digital: perspectivas e possibilidades de Claudio Luis de Camargo Penteado, o  marketing político pode ser entendido em três fases. No caso do Brasil a primeira permeia os anos de 1945 a 1984, a segunda, de 1985 a 2002, e a terceira, de 2003 até a atualidade.

O primeiro momento do marketing político pode ser entendido como um período em que não havia a profissionalização dos participantes das campanhas. As campanhas eram guiadas pelos instintos dos candidatos e  nas suas redes de relações sociais. Sendo que os principais recursos de campanha eram os discursos no rádio e o contato corpo a corpo em comícios.

A próxima fase, a moderna, é marcada pela profissionalização da atividade do marketing político. Profissionais das áreas de comunicação começam a dominar os núcleos das campanhas. Assim, táticas de comunicação mais complexas começaram a ser implementadas não somente no rádio como também na televisão de forma a remeter o estilo americano de propaganda.

A terceira fase (pós-moderna) é marcada pelo uso da internet que faz sua primeira aparição na política na disputa entre Bill Clinton e George Bush em 1992. Todavia, o que pode ser considerado o ponto de virada do uso ferramenta  nas campanhas presidenciais é a corrida eleitoral de Barack Obama à Casa Branca em 2008. Nela foram implementados elementos da evolução da web 1.0 para a 2.0. Ou seja, a campanha do presidenciável usou recursos interativos para se destacar e mudar o cenário. Ela contou com o desenvolvimento de uma rede social para seus apoiadores o My.Barack.Obama (MyBO). Além disso, a página de campanha também serviu para aumentar a arrecadação de fundos para a disputa presidencial.

No Brasil, o uso da web começa gradualmente devido a fatores como a dificuldade de acesso ao ambiente digital. As primeiras interações da política brasileira são limitadas a websites oficiais das campanhas dos candidatos, em que os usuários poderiam encontrar conteúdos relacionados ao elegível.

A chegada de plataformas como o Orkut (2004), o Youtube (2005) e o Twitter/X (2006), dentre outras, se torna um marco para o país e o mundo quanto ao uso da web na política. Mesmo que o acesso à internet e por consequência às plataformas fosse restrito, apesar do acesso limitado, o crescimento rápido de usuários despertou o interesse dos políticos.

Políticos progressivamente ingressaram no meio fazendo postagens de vídeos e criando blogs na intenção de ter uma conexão melhor com o público. Todavia, o maior destaque da chegada das plataformas foi a possibilidade da criação de comunidades virtuais. Essas poderiam compartilhar e debater suas ideias no que pode ser entendido como o desenvolvimento de uma esfera pública digital. 

Esses espaços permitiram que pessoas pudessem debater diversos temas. Comunidades conservadores, neoliberais e associadas a figuras como Olavo de Carvalho foram algumas das mais relevantes comunidades do gênero e levaram à formação de grupos como o MBL (Movimento Brasil Livre) e ao florescimento de ideários antigoverno que se alastram até hoje.

Progressivamente, com o passar dos anos 2000, os usuários das plataformas crescia e a importância dada a elas também. Já em junho de 2013, ocorreram as manifestações que foram provadas pela relevância, em especial, das redes sociais. As manifestações ocorridas em junho de 2013 iniciaram-se pela indignação relacionada ao aumento da passagem dos ônibus na cidade de São Paulo, porém, rapidamente os protestos se alastraram e começaram a incluir diferentes vozes que reivindicavam desde mais investimentos na Saúde e Educação até a volta da ditadura militar. A maioria dos envolvidos era jovem e se articulou pela web.

O sentimento anti sistema, anti governo e em especial anti-pt levou a uma progressiva queda na popularidade no governo de Dilma Rousseff, quem com dificuldade se reelegeu em 2014 para ser impeachmada em 2016, parte por causa da vocalização da insatisfação da população em relação ao modelo da democracia liberal.

10.jul.2013 – Manifestantes recrutados pela OCC (Organização de Combate à Corrupção) pedem a volta dos militares ao poder durante protesto contra o governo da presidente Dilma Rousseff, no vão livre do Masp, na avenida Paulista. Imagem: J. Duran Machfee/Futura Press Reprodução: UOL

Um dos elementos que se tornou parte da política a partir desse período foram os memes. Conteúdos de cunho humorístico, como os da página “Liberalismo da Zoeira” criada em 2013 pelo deputado Kim Kataguiri, são exemplos do que pode ser entendido como memética, o uso de memes como forma de transmitir mensagens, ideias ou valores.

Outro exemplo disso é a campanha de Paulo Batista de 2014, candidato a deputado estadual. Ela teve fama internacional pelo uso inconvencional no que foi chamado pela sua equipe de campanha de “estética da zoeira”. Nas propagandas do político ele voava e usava poderes, dentre os quais, o “raio privatizador”.

Essa estética foi parte até das propagandas usadas na campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro. Durante sua campanha de 2018, imagens o mostravam como um outsider que se negava a aceitar as convenções propostas pela esquerda em “mitadas” o renderam a alcunha de “bolsomito”.

Reprodução: Redes Sociais

A campanha do ex-presidente traz à tona alguns aspectos de risco da política no meio digital. Dentre eles, o potencial de polarização e de desinformação das redes. Essa capacidade no momento da eleição de Bolsonaro já era explorada por uma das empresas mais proeminentes no setor, que foi fundada em 2013 e recebe o nome de Cambridge Analytica, mesmo nome dado ao escândalo em que ela participa.

No caso, a empresa desenvolveu tecnologias capazes de pela primeira vez pegar os dados de usuários das redes sociais, interpretá-los e usá-los para manipulação política. Tanto a eleição de Donald Trump em 2016 quanto o referendo do Brexit em 2019 foram influenciados pela tecnologia desenvolvida pela empresa no que hoje é entendido como Big Data. 

Big Data nada mais é do que a coleta de dados de usuários para sua perfilação com o objetivo de entender seus interesses, padrões de consumo e outros dados que compõem sua personalidade a fim de lucrar com essas informações. Seja a partir da veiculação de anúncios direcionados, seja pela destinação de mensagens políticas ou fake news que irão surtir maior efeito em certos grupos.

Esses fenômenos são dois conceitos chaves para o tema: o data marketing e o microtargeting. O data marketing é o nome dado ao mercado de venda de dados. Por meio dos cookies e de outras formas de obtenção de informações  dos usuários, as companhias vendem essas informações para anunciantes. Esses podem ser desde companhias do ramo da moda até thinktanks.

O microtargeting é a destinação de conteúdos específicos a um usuário baseado nos dados que ele fornece ao sistema. Por exemplo: se uma pessoa está precisando de uma bolsa e ela falar sobre o tema e procurar sobre, anúncios sobre o produto vão aparecer com mais frequência. O mesmo vale para ideologias, se alguém mostra comportamento conservador, conteúdos relacionados a isso serão mostrados.

Esse mecanismo contribui para um outro conceito, o de câmera de eco. Além disso, as mídias sociais têm o potencial de formar as bolhas ou câmeras de eco. Esse fenômeno ocorre quando uma pessoa começa a se distanciar da realidade devido a perfilação que o conteúdo faz a ela. As informações que esse indivíduo recebe se assemelha ao que ela já consome. Não somente, o que ela vê é semelhante ao conteúdo de um outro grupo de indivíduos que compartilha da mesma ideia, o que reafirma o indivíduo.

No Brasil, essas potencialidades das redes sociais podem ser observadas em seu auge na disputa eleitoral de 2018. Nela ocorreu o escândalo chamado “gabinete do ódio”. Neste caso, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro contribuíram para sua eleição e imagem depois de eleito por meio da disseminação de fake news, espalhadas por envio em massa de mensagens em redes como o Whatsapp e Facebook e ampliadas por bots, trolls e simpatizantes do bolsonarismo.

Múltiplas dessas práticas são ilegais, ainda mais em período eleitoral, pois ferem o Código Eleitoral que diz respeito à disseminação de mensagens. Algo que foi elemento chave para o julgamento em curso do caso.

Atualmente, há táticas utilizadas por governos como de Donald Trump e Jair Bolsonaro para criar caos midiático. Ambos os políticos atacavam a imprensa enquanto bombardeavam a população com diferentes informações, sejam elas verdadeiras ou falsas, essas que seriam replicadas por seus seguidores. 

Políticos do polo conservador têm compreendido o funcionamento das redes sociais melhor que a esquerda, tendo maior sucesso em emplacar campanhas, postagens e movimentos. Algo que pôde ser observado nas manifestações em abril de 2025 ou no impacto do vídeo de Nikolas Ferreira a respeito do PIX, como dito anteriormente, algo que analistas entenderam como um dos motivos da queda de popularidade do governo Lula.

Desinformação e Regulação

Desde o surgimento da internet, a circulação de conteúdo se tornou muito mais rápida e dinâmica. Hoje, grande parte da população mundial pode acessar atualizações sobre os principais acontecimentos com apenas alguns cliques. No entanto, essa agilidade na transmissão de dados muitas vezes vem acompanhada da ausência de uma verificação adequada sobre sua veracidade.

Em 2016, durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos, o termo “fake news” ganhou destaque. Mesmo quase uma década depois, ele continua sendo utilizado quando se fala em redes sociais, mídia digital e desinformação. Mas o fenômeno vai além das chamadas notícias falsas: envolve a propagação deliberada de conteúdos manipulados, distorcidos ou fora de contexto, com o objetivo de influenciar a percepção pública.

No ambiente online, esse tipo de desinformação se intensifica, impulsionado pela velocidade com que as mensagens se espalham. Conforme dados da empresa de segurança digital PSafe, um em cada dois brasileiros já compartilhou uma notícia falsa sem saber. O Instituto Locomotiva  revela que quase 90% da população brasileira já acreditou em conteúdos falsos, embora 62% afirmaram confiar na própria capacidade de distinguir o que é verdadeiro e o que não é.

Em especial, as redes sociais se destacam pela propagação de conteúdos falsos; conforme levantamento da PSafe, mais de 39% das notícias falsas chegam aos usuários através do WhatsApp, e 40,48% através do Facebook.  

“As plataformas também alegam limitações técnicas para identificar rapidamente conteúdos enganosos em tempo real. Em uma eleição, por exemplo, um vídeo falso pode circular milhões de vezes antes que alguém consiga barrá-lo“, afirma Carlo Napolitano, pós-doutor em Direito pela USP e professor associado da UNESP.

Como regulamentar a internet?

Para controlar o número de notícias falsas, o Projeto de Lei 2.630/2020, mais conhecido como PL das Fake News foi criado. Com o intuito de regulamentar as plataformas digitais, principalmente as redes sociais, ele busca trazer mais transparência e responsabilização das big techs sobre os conteúdos publicados pelos usuários.

“O grande desafio é encontrar o equilíbrio: combater a desinformação sem ferir a liberdade de expressão. Toda regulação precisa ser muito bem calibrada para não abrir margem para abusos”, diz o pós-doutor em direito. 

A regularização das redes sociais é pauta global; na União Europeia, a Lei de Serviços Digitais  e a Lei de Mercados Digitais, vigentes em 27 países, aborda a divulgação de conteúdos nocivos na internet e força grandes plataformas a fazerem relatórios de impactos de riscos. Na Alemanha, a NetzDG (Lei de Fiscalização da Rede) pede a exclusão de informações “claramente ilegais” dentro de 24 horas, e visa combater discursos de ódio vindos de grupos extremistas.  “No Brasil, ainda temos uma legislação muito frágil para responsabilizar quem produz e distribui desinformação. Muitas vezes nem se consegue identificar o autor, e mesmo quando se consegue, os processos são lentos e pouco efetivos”, pontua o professor.

Big Techs e seu papel na propagação de fake news

Reprodução: Redes Sociais

As big techs são as grandes empresas de tecnologia, como a Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp) e Microsoft, Alphabet (Google), Amazon e Apple, e, mais recentemente, a X Corp (Twitter/X). Além de operarem as principais plataformas digitais do mundo, concentram também o controle sobre os fluxos de informação que circulam online.

Napolitano ressalta: “Historicamente, as big techs só tomaram medidas mais duras contra a desinformação quando pressionadas por governos, sociedade civil e, claro, anunciantes preocupados com a imagem”. Ainda segundo ele, a mudança na política interna do Twitter após sua aquisição por Elon Musk contribuiu para a flexibilização das regras de moderação e gerou tensões com autoridades brasileiras, especialmente em temas como desinformação eleitoral.

Caso STF e Twitter/X

No dia 30 de agosto de 2024, por ordem do Ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal (STF) o Twitter/X foi suspenso no Brasil. O proprietário da rede se recusou a bloquear perfis de investigados em inquéritos sobre atos antidemocráticos, e deixar o X sem representante legal no país. O aplicativo apenas voltou ao funcionamento no dia 8 de outubro do mesmo ano, após o pagamento da multa de 28,6 milhões de reais e nomear uma representação.

O debate se intensificou em 2023, quando Google e Meta foram acusadas de usar seus próprios serviços de busca e anúncios para promover campanhas contrárias ao Projeto de Lei 2.630/2020. As ações das empresas levaram à abertura de investigações por parte do Ministério Público Federal e da Secretaria Nacional do Consumidor, que apontaram possível abuso de poder econômico e tentativa de interferência no processo legislativo.

A indústria da manipulação digital

Nas redes sociais, os conteúdos falsos não se prendem a política ou economia, e podem estar presentes nas falas dos influencers do cotidiano; que muitas vezes assumem o papel de formadores de opinião sem qualquer compromisso com a verificação dos fatos.  

Conforme explica Napolitano, “existem verdadeiras estruturas industriais de desinformação: fazendas de cliques, bots programados para espalhar determinados conteúdos, e mecanismos que criam bolhas informacionais onde só circulam opiniões semelhantes, reforçando preconceitos e radicalizando o debate.”

Essas estruturas se valem de influenciadores digitais como peças-chave: “Uma estratégia comum é utilizar influenciadores para disseminar narrativas falsas ou distorcidas. Muitas vezes, eles se apresentam como ‘fontes alternativas’ de informação, atacando a mídia tradicional para ganhar a confiança do público”, disse o especialista.

A situação é agravada pelo fato de que muitos influenciadores priorizam o engajamento em detrimento da veracidade das informações. Apenas 36,9% dos influenciadores digitais se informam pela imprensa, enquanto 41,7% consideram curtidas e visualizações como o principal critério de credibilidade de suas fontes, conforme revela o estudo “Por trás das telas”, publicado pela Unesco.

Uma resposta para “Do Palanque à Timeline: Como os políticos encontraram um novo meio de conquistar o público”.

  1. Avatar de Vilma Govefice
    Vilma Govefice

    Ótimo artigo, muito bem detalhado e importante informação pra quem ja conhece o assunto mas mais relevante pra muitos q não conseguem nem “grasp” essas ideias.

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