Ações como campanhas de agasalho e doação de sangue reforçam o papel do esporte como agente de mobilização e apoio às causas sociais

Ingrid Martins

O futebol não é apenas o que acontece dentro do campo e não dura apenas 90 minutos, dividido em dois tempos. Através da visibilidade e audiência dos jogos, o futebol é capaz de reunir pessoas em prol de causas que ultrapassam o limite das quatro linhas brancas. Isto pode ser provado pelas campanhas e ações sociais promovidas pelos clubes ao redor do Brasil. 

A jornalista Érika Alfaro de Araújo defende que o esporte representa “um espaço social, cultural, político, histórico e midiático”. Doutoranda no Programa no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unesp, no qual realiza pesquisa com foco no jornalismo esportivo e suas relações com a questão de gênero, ela reforça a importância do envolvimento de atletas, clubes e federações em campanhas voltadas ao bem-estar social e considera “primordial” que a visibilidade que possuem seja utilizada para causas coletivas. 

“O impacto dessas ações, que alcançam públicos diversos, não está apenas na conscientização, mas também no potencial do engajamento concreto”, reitera Érika em relação à possibilidade dos esportes ultrapassarem os limites do entretenimento para atuarem como agentes de transformação social.

No último domingo (15), no confronto entre São José E.C. e o E.C. Taubaté pela primeira rodada da Copa Paulista da série A2, uma campanha de combate à paralisia infantil entrou em campo antes do início da partida. Em parceria- ou em ‘união’- entre o clube joseense, JM Assessoria Contábil e o Rotary, uma faixa foi exibida com a seguinte mensagem: “Juntos combatemos a paralisia infantil”. A hashtag #EndPolioNow também foi mencionada na publicação de divulgação da ação. 

“O esporte tem um papel fundamental na transformação social. Além do entretenimento, ele é uma poderosa ferramenta de inclusão, educação e conscientização. Por meio do esporte, é possível promover valores como respeito, solidariedade, disciplina e empatia, servindo como plataforma de influência positiva em diferentes causas sociais”, defende a assessoria do clube em entrevista exclusiva à Agência Trilhos. 

Desde 2022 como uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol), o grupo gestor busca fortalecer o São José E.C.- SAF como um “agente ativo de responsabilidade social”, através de um alinhamento entre os valores do time e iniciativas que façam a diferença. 

Entre outras ações realizadas pelo time, destacam-se a campanha “meia solidária”, na qual o torcedor garante desconto no ingresso ao doar alimentos ou itens de higiene e a campanha “Marque Esse Gol”, em parceria com a FPF, oferecendo exames gratuitos de mamografia.

O clube joseense promoveu ainda parceria com o GAIA (Grupo de Apoio ao Indivíduo com Autismo): entrada de crianças em campo com os atletas, adaptações no sistema de som do estádio e uma festa junina solidária em benefício do GAIA e do GACC (Grupo de Assistência à Criança com Câncer). 

Outros times e campanhas

Neste inverno,  o E.C. Taubaté formou uma rede de solidariedade ao apoiar a iniciativa da torcida “Dragões Alvi Azuis” para a arrecadação de agasalhos e cobertores. Em dias de jogos do time taubateano, caixas foram posicionadas no Estádio Joaquim de Morais Filho para receber as doações e, assim como está na publicação da campanha, “aquecer o inverno de quem precisa”.

Em entrevista para a Trilhos, a assessoria reforçou a importância da comunidade estar integrada no dia a dia do time e do impacto que este contato gera. “As ações sociais são fundamentais para o desenvolvimento local, e é um tipo de atividade que agrega e agrada a todos”. 

Em comemoração à data 14 de junho, no Dia Mundial do Doador de Sangue, o E.C. Noroeste publicou, em conjunto com seu patrocinador Unicessumar, uma mensagem para alcançar possíveis doadores de sangue: “Quem é craque de verdade também brilha fora de campo!”

Isso é uma novidade? 

Não. Essa movimentação e união entre futebol e diferentes causas sociais não é uma novidade. Em 30 de junho de 2012, a campanha “Meu Sangue é Rubro-Negro”, criada por Leo Brunett, foi iniciada pelo time do E.C. Vitória. Com a entrada do mascote e dos jogadores sem a camisa vermelha tradicional do clube, a ação buscou incentivar e ampliar a doação de sangue. À medida que o número de doações aumentava, o vermelho voltou, ao longo dos jogos, a estampar as camisas dos integrantes do time. Ao analisar a repercussão no meio televisivo, somaram-se mais de 900 minutos de menção à ação. 

Nas universidades

A solidariedade atrelada ao esporte também está no âmbito universitário. A Associação Atlética da Unesp de Bauru, junto com outros quatro projetos, organizou uma “Grande Campanha do Agasalho Unesp Bauru”. Em quatro pontos de arrecadação ao redor do câmpus, as doações incluíam agasalhos, cobertores ou acessórios como toucas, luvas, meias e cachecóis.

Sofia Riquenna, vice-presidente da Instituição, explica que as ações organizadas variam de acordo com a gestão e com base no cenário social e da universidade. Mas também há campanhas fixas, que acontecem todo ano: o ‘Doa, Unesp’ incentiva a doação de sangue, a ‘Tesoura Unespiana’ promove a doação de cabelo para a produção de perucas e o ‘Lacre sobre rodas’, que arrecada lacres para uma instituição que produz cadeiras de rodas.

Ela ainda reforça que as campanhas são formas de retribuir o investimento das comunidades, a partir dos impostos, nas universidades públicas. “A gente tem muita vontade. Sempre estamos em contato com outros projetos e com a própria universidade, procurando formas de fortalecer a nossa atuação, devolver para a sociedade e ampliar nossos projetos”.

Seja arrecadando alimentos, doando sangue ou promovendo ações de inclusão, essas iniciativas tornam o esporte uma ferramenta poderosa de transformação social. 

Leia o que a Trilhos já produziu sobre esportes alinhados com a sociedade: 

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