Luiza Lima, Maria Clara Buchalla e Sofia Caldas
Em 2026, são celebrados os 50 anos de uma das maiores instituições de ensino superior da América Latina. A Unesp, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” foi criada em 1976 como resultado da incorporação dos Institutos Isolados de Ensino Superior do Estado de São Paulo, até então, unidades universitárias situadas em diferentes cidades do interior paulista.
O Nascimento da Unesp
Alguns anos antes, em 1969, foi instituída, a partir da Secretaria da Educação, a Coordenadoria do Ensino Superior do Estado de São Paulo (CESEP), para gerir a administração das escolas que compuseram a formação da UNESP.
Esse período de transição e reestruturação foi marcado por críticas e trabalhos incansáveis para aproximar os Institutos Isolados de uma identidade própria e unificada. Até 1975, foram apresentadas várias sugestões, que visavam a separação dos Institutos Isolados da esfera de ação da Secretaria da Educação e sua organização sob as novas bases de Federação ou Universidade.
Com o bom desenvolvimento, em 1976, por determinação do então governador Paulo Egydio Martins, e de comum acordo com o Secretário da Educação, os Institutos Isolados deixaram de ser geridos pelo CESEP para assumir uma direção própria, na forma de Universidade, que seria uma autarquia submetida ao governo do Estado de São Paulo.
Finalmente, em conformidade com a Lei Nº 952 de 30 de janeiro de 1976, nasce a Universidade Estadual Paulista, que recebeu do governador o nome de “Júlio de Mesquita Filho”, da qual pertenciam agora os Institutos Isolados.
Fragmentação e Unidade
A consolidação da Universidade Estadual Paulista não garantiu a identidade unificada entre os pólos envolvidos. A origem de excessiva fragmentação permitiu a aproximação e o relacionamento mais intenso com as comunidades interioranas, com o objetivo de democratizar o acesso a cursos de graduação.
Essa flexibilidade de territórios fez com que a UNESP incentivasse o desenvolvimento de um plano de criação de unidades auxiliares, unidades complementares e centro interunidades. Os planos de expansão continuaram sendo fomentados durante toda a década de 1990, na qual a UNESP ampliou seu raio de atuação e aumentou a oferta de vagas.
Em 2021, os últimos cinco Câmpus Experimentais (Itapeva, Ourinhos, Registro, Rosana e São João da Boa Vista) foram consolidados, e finalizaram um processo de 20 anos de expansão da Unesp.
Presente em 24 cidades do Estado de São Paulo, com 34 unidades universitárias, a UNESP desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão universitária em todas as grandes áreas do conhecimento.
Palavras como democratização, expansão, consolidação, possibilidades e integração descrevem esse processo de nascimento de uma das maiores universidades do país. Mas, em uma entidade de ensino, um grupo ganha importância no desenvolvimento e continuidade de atividades acadêmicas: os estudantes.
Os primeiros alunos
Na década de 70, com o início do movimento de reconhecimento da UNESP, os primeiros alunos tinham perfis privilegiados, com cursos preparatórios anteriores e estabilidade financeira familiar.
Os primeiros alunos da UNESP, eram, então, pertencentes às elites regionais e às classes médias tradicionais que conseguiam arcar com a preparação para os exames de admissão (o vestibular).
Esses estudantes se locomoviam por cidades do interior do estado de São Paulo, formados em faculdades isoladas de Filosofia, Agronomia, Veterinária ou Farmácia, ou cursos elitizados semelhantes, para ter acesso à UNESP. Atualmente, em 2026, é possível observar que esse cenário mudou.
Segundo a Assessoria de imprensa da Fundação Vunesp, em 2021, a instituição alcançou um marco importante para a inclusão e democratização do acesso ao ensino. “Com 54,8% de matriculados vindos de escolas públicas, o Vestibular 2021 da Universidade Estadual Paulista (Unesp) foi o quinto seguido da instituição com maioria de calouros vindos do ensino médio público.”
As políticas públicas
Como toda a história da UNESP, a transformação do perfil dos estudantes foi gradual e lenta. Antes compostos por membros da elite, o corpo discente da universidade passou a apresentar ampla diversidade socioeconômica decorrente das políticas de cotas e inclusão surgidas em 2014.
Nesse ano, a UNESP reservou 1.134 vagas no primeiro vestibular do Estado de São Paulo com sistema de cotas para alunos de escola pública, negros e indígena. O sistema de cotas iniciou a construção de políticas públicas voltadas ao ensino superior nas universidades do Estado de São Paulo.
Essas políticas foram comportamentos propositais, intencionais e planejados, com objetivo de ampliar o acesso e aumentar significativamente a disposição de vagas em instituições públicas e privadas, atingindo um público antes excluído por fragilidades no processo de permanência estudantil.
A relevância das políticas públicas ganha destaque à medida que o perfil caracterizado pela vulnerabilidade se transforma em instituições nas quais mais da metade dos estudantes foram aprovados no vestibular com cotas de acesso e se encontram em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
E, em uma sociedade em que o acesso à educação determina quem é contemplado com melhores oportunidades de trabalho, bem-estar, lazer, saúde e remuneração, a democratização do ensino superior mantém-se como um debate crucial para alcançar a cidadania plena e reduzir as desigualdades no Brasil.
O cotidiano da instituição
Quando se pensa em permanência estudantil, muitos relatos se parecem com o de Murilo Breviglieri, estudante de Comunicação Audiovisual. Ele garante que “sem a política de permanência da Unesp, não conseguiria estar aqui [na universidade], estudando”.
Na Unesp, as políticas públicas se traduzem em esforços para o ingresso, a permanência estudantil e o cuidado com os cidadãos a serem formados.
O primeiro fator é o Sistema de Reserva de Vagas, que garante cotas para estudantes oriundos de escolas públicas, pretos, pardos e indígenas (PPI).
O Segundo fator que compõe as políticas públicas da UNESP são os programas de auxílio socioeconômico (moradia estudantil, auxílio-alimentação e auxílio financeiro) para garantir o acesso e a permanência de alunos de baixa renda.
Conversamos com o ex-aluno de Design, Ian Melo, sobre o impacto desse segundo tipo de políticas de permanência da Unesp durante toda sua formação. Sobre sua trajetória acadêmica, ele considera que, ter tido acesso aos auxílios socioeconômicos, foi um processo essencial para concluir a graduação.
Antes mesmo de ser aprovado na faculdade, Ian já entendia que, sem o auxílio da instituição não seria possível fazer o curso.
“E formado há uns 2 anos, eu vejo o quão essenciais elas [políticas públicas de permanência] são, porque não é brincadeira não. Mesmo eu ganhando auxílio, tinha que trampar”, explica.
Com o objetivo de garantir os direitos humanos, as políticas de permanência contribuem para as vivências na cidade. “Com o meu trabalho, eu pagava aluguel. Aí sobrava um pouco, né? Pagava uma ou outra conta, então o auxílio misturava ali, e dava essa segurança de você viver com mais dignidade”, complementa o ex-aluno.
Por fim, o cuidado com os cidadãos e a politização dos indivíduos envolvidos no funcionamento da Universidade ficam sob as responsabilidades das ouvidorias e comissões voltadas à diversidade, acessibilidade e ao combate a qualquer forma de discriminação no âmbito universitário, a partir de ações de Inclusão e valorização dos Direitos Humanos.
Para entender melhor sobre os impactos das políticas de permanência da Unesp, ouça o episódio do nosso podcast que conta a trajetória de Ian Melo:
Nem tudo são flores: a realidade das políticas de Permanência na Unesp
“Sem a política de permanência da Unesp, eu não ia conseguir estar aqui, na Unesp, estudando”, desabafa Murilo Breviglieri.
Com a ampliação do número de vagas na Unesp a partir da políticas de cotas e inclusão e uma consequente mudança no perfil dos alunos da universidade, as ações de permanência estudantil se fazem cada vez mais necessárias. Não basta que as portas da universidade sejam abertas, mas também é preciso que os estudantes consigam permanecer neste ambiente.
Atualmente, as medidas de permanência estudantil estão divididas em nove categorias e variam entre auxílios e serviços fornecidos pela universidade.
A contribuição financeira ocorre por meio de auxílios:
- Auxílio socioeconômico 1: R$ 575,00.
Destinado a alunos em alta vulnerabilidade; - Auxílio socioeconômico 2: R$460,00.
Atribuído a alunos em situação de vulnerabilidade; - Subsídio Alimentação: R$ 355,00.
Concedido a estudantes contemplados com qualquer outra modalidade de auxílio permanência estudantil
Além disso, a Unesp também dispõe da Moradia Estudantil, que consiste em locais onde os estudantes contemplados podem residir para que permaneçam na universidade.
As vagas, porém, são muito reduzidas: de acordo com o guia de acolhimento PROPG (Pró-Reitoria de Pós Graduação), das 24 cidades do estado de São Paulo onde se localizam os campi da Unesp, apenas 13 contam com esse apoio.

A Unesp ainda oferece o auxílio especial, destinado a discentes com deficiência, mobilidade reduzida e/ou doenças graves; auxílio maternagem/paternagem e auxílio estágio, todos, até janeiro de 2026, no valor de R$550,00, de acordo com a COPE.
O Restaurante Universitário (RU) também faz parte das medidas de permanência estudantil. A iniciativa consiste no oferecimento de refeições subsidiadas parcialmente pela Unesp, o que faz com que seus valores sejam reduzidos.
O campus de Marília, por exemplo, oferece café da manhã, almoço e jantar por R$2,50 cada refeição, de acordo com o site da Faculdade de Filosofia e Ciências.
“A qualidade da formação é claramente afetada”
Apesar de serem cruciais para a continuação dos estudantes na Universidade Pública, as políticas de permanência estudantil da Unesp ainda enfrentam diversos desafios. Estes, vão desde os valores dos auxílios, problemas com as moradias estudantis até a organização dos processos seletivos.
O acesso a informações sobre as políticas de permanência é uma questão para os estudantes.
Murilo conta que diversos amigos o acionam para pedir informações sobre o processo seletivo da permanência estudantil, porque têm dificuldades em encontrá-las nos canais oficiais de comunicação da Unesp.
De acordo com o Breviglieri, o envio dos documentos, etapa que pode levar ao indeferimento (desclassificação) da inscrição, é o que gera mais dúvidas entre os discentes e se torna um grande dificultador no acesso a essas políticas.
Ele ainda relata que a dificuldade de encontrar informações também o prejudicou. Em 2025, ano em que entrou na universidade, não solicitou o auxílio provisório: “na época eu não entendia direito”.
O estudante conta que, se não fosse por uma amiga que deixou que ele se instalasse em sua casa nos primeiros meses, a adaptação na cidade teria sido bem mais difícil. “Se tivesse uma palestra na primeira semana de aula explicando como a permanência funciona e como pode auxiliar as pessoas que precisam dela, isso já iria reduzir mil problemas que todo o processo tem”, afirma.
Valores insuficientes
Murilo planeja encontrar um trabalho no próximo semestre. Ele afirma que, apesar da ajuda dos pais e dos auxílios, ele ainda precisa arcar com as despesas que o próprio curso demanda, como materiais para gravações, que tiveram seu fornecimento interrompido pela faculdade, fato que mereceria outra reportagem para ser explorado.
O estudante recebe auxílio socioeconômico 1, mas relata que, mesmo assim, ainda precisa que a família complemente sua renda. “É um valor muito mísero. Se pelo menos quem fosse da permanência não precisasse comprar R.U., ok”.
Ele ainda prossegue “faz uma diferença grande para quem precisa de todo o dinheiro no final do mês, já tiveram vezes que eu não comi no R.U. porque não podia gastar, sabe, mesmo sendo R$2,50”.
Além das questões com os auxílios, as moradias estudantis também passam por problemas.
Em Bauru, por exemplo, o prédio foi construído em 2013 para atender 32 estudantes e 13 anos depois a quantidade de vagas continua inalterada, mesmo com o aumento de discentes que entram na universidade por meio do sistema de cotas.
Ainda, um segundo prédio, que estava em construção desde 2018, foi inaugurado em 2024, mas sua utilização continua não permitida.
Quem constrói a Universidade Estadual Paulista?
A Universidade Estadual Paulista, como toda universidade, é formada por três categorias: Docentes, Servidores Técnico-Administrativos e Discentes. As relações que se estabelecem entre elas constroem a dinâmica da comunidade universitária.
Cada categoria da comunidade universitária tem uma entidade representativa: no caso dos trabalhadores, os Sindicatos. No caso dos estudantes, os Diretórios.
- Docentes: Associação dos Docentes da Unesp. Acesse o site aqui.
- Servidores Técnico-Administrativos: Sindicato dos Trabalhadores da Unesp. Acesse o site aqui.
- Discentes: Diretório Central dos Estudantes da Unesp “Helenira Resende”. Acesse o perfil do Instagram aqui.
A distinção de categorias se explicita nos espaços de decisão dos rumos da Unesp: os órgãos colegiados são onde cada plano, edital e calendário é submetido à discussão e votação. Ou seja, toda alteração no sistema da Universidade é feita em reuniões de representantes das três categorias.
Conheça aqui o perfil do Instagram dos Órgãos Colegiados da Unesp
Nos colegiados, as votações funcionam a partir do seguinte sistema:
- Docentes: 70% do peso dos votos
- Servidores Técnico-Administrativos: 15% do peso dos votos
- Discentes: 15% do peso dos votos
Sobre o atual sistema de votos, o Sindicato dos Trabalhadores se manifesta favorável a uma nova alternativa: “Queremos uma composição democrática nos órgãos colegiados centrais, ou seja, um terço de representação para cada um dos três segmentos, todos igualmente importantes na vida da Universidade. Também queremos paridade nas consultas para as eleições nas unidades e na reitoria. Universidade pública democrática se constrói com paridade e respeito aos segmentos!”, diz o trecho retirado deste boletim do Sintunesp, de abril de 2024.
O Fórum das Seis
Dado que as Universidades Estaduais Paulistas (USP, Unesp, Unicamp) são como irmãs — isto é, funcionam no território de São Paulo, seu orçamento vem do mesmo imposto (ICMS) e seus rumos são definidos por reuniões regulares entre os três Reitores (o CRUESP) —, os sindicatos e entidades representativas das categorias também se reúnem, em uma organização chamada Fórum das Seis.
Inicialmente, abarcava apenas os segmentos de trabalhadores (categorias Docente e Servidor) das três universidades, o que explica o uso do número ‘seis’ no nome. Hoje, as reuniões do Fórum das Seis organizam:
- STU: Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp
- Sintusp: Sindicato dos Trabalhadores da USP
- Sintunesp: Sindicato dos Trabalhadores da Unesp
- Sinteps: Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paula Souza
- Adunicamp: Associação dos Docentes da Unicamp
- Adusp: Associação dos Docentes da USP
- Adunesp: Associação dos Docentes da Unesp
- DCE Unicamp: Diretório Central dos Estudantes da Unicamp
- DCE Livre da USP: Diretório Central dos Estudantes “Alexandre Vannucchi Leme” da USP
- DCE Unesp: Diretório Central dos Estudantes “Helenira Resende” da Unesp
O CRUESP
A entidade de máxima deliberação sobre as Estaduais é o CRUESP, o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais de São Paulo. Por meio desse espaço, os três reitores se reúnem com o Governo do Estado de São Paulo para decidir os rumos do orçamento, por exemplo.
Os atuais membros do CRUESP
- Reitora da Unesp e atual presidente do Cruesp: Maysa Furlan
- Reitor da USP: Aluísio Segurado
- Reitor da Unicamp: Paulo Cesar Montagner
Na greve de 2026, que abrangeu as Universidades Estaduais Paulistas, as negociações a nível estadual eram feitas entre o Fórum das Seis e o CRUESP. Pela dificuldade de estabelecimento do diálogo no início do processo de mobilização, as representações das categorias se manifestaram por meios físicos e digitais a fim de pressionar por respostas.
O Diretório Central dos Estudantes
O Diretório Central dos Estudantes é o órgão político de representação máxima de todos os estudantes de uma instituição de ensino superior. A função do DCE é de organizar, coordenar e unificar os estudantes na luta por seus direitos.
Considerando que a Universidade Estadual Paulista tem caráter multicampi, presente em 24 cidades pelo estado de São Paulo, existe certa dificuldade na mobilização intermunicipal. Nesses termos, o DCE Helenira Resende pode se tornar importante ferramenta para a superação de tal barreira e organização do movimento estudantil.
É o DCE que ajuda a desenvolver os interesses da categoria Discente, organizando atividades, promovendo debates e deliberando calendários de mobilização a nível estadual.
Helenira “Preta” Resende
Quem nomeia o Diretório Central dos Estudantes da Unesp é Helenira Resende, guerrilheira brasileira na época da Ditadura Militar, militante do PCdoB e integrante da Guerrilha do Araguaia.
Helenira foi estudante de Letras e Filosofia na USP, tornou-se líder estudantil e foi vice-presidente da União Nacional dos Estudantes nos anos 80, durante sua atuação no movimento estudantil.

A militante Helenira Resende foi tema do segundo ato “Sem memória, sem história” do episódio Tempo Negro, do podcast Rádio Novelo Apresenta. Confira a história contada por sua sobrinha, Marta Costa, na reportagem de Natália Silva, Flora Thomson-DeVeaux e Lucas Pedretti.
A refundação do DCE
A entidade representativa da categoria Discente foi reconstruída em 2024, após 17 anos desativada, a partir de grandes congressos que reuniram alunos dos mais diversos espaços da Unesp. O Congresso dos Estudantes da Unesp é o maior evento de todo o movimento estudantil unespiano, onde delegados de todos os campi se unem para deliberar sobre os rumos da organização da categoria. É lugar de debate e decisão.
XXI CEU, Campus de Araraquara
O 21º Congresso Estudantil da UNESP (CEU) aconteceu no segundo semestre de 2024, com sede em Araraquara, e teve como pauta única a reconstrução do Diretório Central dos Estudantes, entendendo ele como um órgão estudantil importante para a mobilização discente unespiana.
Das resoluções do congresso, foram destaque o documento parcial do Estatuto de refundação do DCE, junto ao planejamento do período eleitoral para a definição da primeira gestão do Diretório refundado. O processo se constituiu, no ano de 2025, da seguinte forma:
Confira o processo de refundação do Diretório Central dos Estudantes da Unesp
- Abril: Inscrição de chapas
- 04 de maio: Publicação das chapas
- Chapa 1: É Tempo de Retomada. Forças componentes: Movimento Correnteza, UJR/UP-PCR; União da Juventude Comunista, PCBR; Ocupe! Fortalecer/PSOL; Movimento dos Estudantes Independentes.
- Chapa 2: Unesp por Todos os Campus. Forças componentes: Afronte, Resistência/PSOL (atual Revide, Semear/PSOL); Enfrente, PT; ParaTodos, PT; Juventude Pátria Livre, PCdoB.
- 05 a 16 de maio: Campanha eleitoral
- 12 de maio: Debate entre chapas
- 14 a 16 de maio: Votação aberta com urnas presenciais nos 24 campi da Unesp
- 18 de maio: Resultado da eleição
- Chapa 1, É Tempo de Retomada: 3579 votos
- Chapa 2, Unesp por Todos os Campus: 3555 votos
- Nulos: 166 votos
XXII CEU, Campus de Bauru
Considerando que o último CEU, em Araraquara, fora um esforço de reconstrução do DCE Helenira Resende, onde os delegados votaram um Estatuto parcial e tiraram a comissão eleitoral, o 22º CEU teve a função de finalizar o Estatuto e finalizar o processo de eleição, dando a posse para a primeira gestão do DCE, a Chapa É Tempo de Retomada.
O Congresso Estudantil da Unesp foi marco simbólico por refundar uma entidade há anos desativada e que se tornaria central na condução da greve estadual de 2026.
Visando preservar a memória do acontecido os estudantes realizaram uma manifestação artística nos corredores do Campus da Unesp Bauru.
Confira a galeria de imagens por Maria Clara Buchalla:
Greve das Universidades Estaduais Paulistas
Com o pano de fundo da atualização dos impostos brasileiros pela Reforma Tributária, na qual o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) deixará de existir, as Universidades Estaduais Paulistas (USP, Unesp e Unicamp) entraram em estado de alerta para defender que o Estado dê alguma garantia do financiamento do Ensino Público nos próximos anos.
A discussão gira em torno do fato de que todo o orçamento das Estaduais vem de uma porcentagem (9,57%) do ICMS de São Paulo.

Sobre a crise orçamentária da Unesp, confira mais informações nesse post do jornal independente estudantil O Campus de Bauru.
Greve na Unesp
A mobilização estudantil na Unesp começou em um cenário onde já haviam intensas movimentações na Universidade de São Paulo por melhores condições de permanência, estudo e trabalho: os estudantes da USP entravam em alerta por uma minuta da Reitoria que regulava a permanência nos espaços estudantis e o Sintusp estava em greve devido à falta de isonomia quando a Reitoria anunciou benefício salarial exclusivo aos docentes.
Em consonância com a USP, as motivações iniciais do processo unespiano foram relacionadas às políticas de Permanência Estudantil: o atraso dos Auxílios Socioeconômicos, a insegurança alimentar nos campi, os frequentes casos de objetos estranhos encontrados nas refeições dos Restaurantes Universitários privatizados e a falta de vagas nas Moradias Estudantis.
O estopim, contudo, aconteceu no Instituto de Artes da Unesp de São Paulo: em uma palestra no período noturno, a professora Sandra Regina Campos sofreu de um mal súbito e veio a falecimento dentro do campus. Por falta de equipe médica presente no espaço, os próprios estudantes conduziram a situação.
Instituto de Artes: Saúde e Segurança
Em postagem no Instagram, as entidades estudantis do Instituto de Artes da Unesp manifestaram “o profundo pesar de toda nossa comunidade pela trágica partida da professora Sandra Regina Campos no último dia 07/04 […] Nos solidarizamos com sua família, amigos e afetos, bem como às pessoas que de prontidão prestaram os primeiros socorros e testemunharam sua partida”.
Nos dias subsequentes, o Diretório Acadêmico Manuel Bandeira iniciou, junto aos estudantes da capital, uma greve de ocupação no Instituto de Artes, explicitando que a Seção Técnica de Saúde (STS) da unidade não funciona no período noturno.
Segundo os estudantes, “a greve discente busca equalização dos serviços ofertados pelo Instituto durante o seu funcionamento. Após o trágico ocorrido no dia 07/04, ficou mais do que claro o descaso com o período noturno […] Visamos a plena convivência, estudo, bem estar e dignidade de todes es estudantes do Instituto de Artes”. A declaração é desse post no Instagram.
O Diretório Acadêmico cita a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que afirma, no 4º parágrafo do Artigo 47, que “as instituições de educação superior oferecerão, no período noturno, cursos de graduação nos mesmos padrões de qualidade mantidos no período diurno, sendo obrigatória a oferta noturna nas instituições públicas, garantida a necessária previsão orçamentária”.
O caso ganhou notoriedade dos estudantes de diversos outros campi da Unesp, onde as condições de estudo e permanência estudantil eram questões centrais e movimentavam a vida política universitária.
A greve de 2026 da Unesp chegou a estudantes de 97 cursos de 11 cidades, bem como docentes e servidores dos campi de Araraquara, Botucatu, Franca, Bauru, Marília, Assis, Guaratinguetá, São José do Rio Preto e São Paulo.
Bauru: Auxílios Socioeconômicos
No campus de Bauru, local onde a greve se instaurou devido à insuficiência das políticas de permanência estudantil, o atraso dos Auxílios Socioeconômicos já era tradição: há anos, o Conselho Estudantil da Unesp Bauru organiza assembleias e atos pautando a insuficiência na oferta do auxílio e a dificuldade no processo seletivo, que, por falta de servidores capacitados, leva a meses de atraso no pagamento aos estudantes.
No ano de 2026, o primeiro pagamento do Auxílio aconteceu no mês de junho, aproximando-se do segundo semestre letivo. A esta altura, alguns estudantes calouros que requerem ajuda da universidade já abriram mão de suas vagas.
O processo seletivo do Auxílio Socioeconômico da Unesp funciona por meio de inscrição no sistema da COPE, a Coordenadoria de Permanência Estudantil, e pela análise de Assistentes Sociais, que organizam a documentação e entrevistam o aluno.
O atraso no processo, segundo a Administração Geral da Unesp de Bauru, se dá pela confusão na entrega de documentos por parte dos alunos, o que demanda uma devolutiva do sistema ao estudante para que este reenvie a documentação.
O repasse de verba aos alunos só pode ser iniciado após fim do processo seletivo, razão pela qual existe o tradicional atraso. Os estudantes, por outro lado, defendem a contratação de novos servidores na Assistência Social, pois o campus atualmente conta com duas servidoras para mais de 6.000 alunos.
Em reunião com os estudantes durante a greve de 2026, os Vice-Diretores das três unidades de Bauru (FAAC, FEB, FC) propuseram um diálogo aberto sobre permanência, que teve como encaminhamento a criação de um Grupo de Trabalho conjunto aos estudantes que analise os gargalos físicos e digitais do processo seletivo.
A proposta do GT Permanência de Bauru é organizar aulas magnas e palestras de alto alcance com os Assistentes Sociais para que os estudantes tenham a instrução de como enviar os documentos corretamente.
Além disso, o GT fará uma reformulação na interface digital do sistema de requerimento do auxílio. Dessa forma, espera-se que nos próximos anos o campus de Bauru tenha uma melhor performance na aplicação das políticas públicas.
As principais reivindicações dos estudantes em greve
Em uma análise geral do cenário da greve das Estaduais Paulistas, o debate central é sobre o orçamento da universidade pública no estado de São Paulo. Por consequência, a atenção da categoria discente também acompanha o destino do apertado orçamento: qual a prioridade da Reitoria e do Conselho Universitário e por que não é o estudante?
Em uma série de postagens no Instagram, o Diretório Central dos Estudantes “Helenira Resende” da Unesp publicou uma carta aberta que contém a síntese das mobilizações que tomaram a Unesp e as reivindicações para a condução das lutas a nível estadual.
No início da carta, destaca-se o centro do debate orçamentário: a porcentagem de 9,57% do ICMS para as estaduais paulistas é a mesma desde 1995, salientando que, desde então, a Unesp aumentou de 12 para 24 campi.
Em uma análise dos dias de hoje, a carta discorre sobre a conjuntura que levou à greve. “Desde o começo de 2026, acompanhamos diversos processos de lutas e mobilização dos estudantes, desde as ingressadas marcadas pela falta de auxílios permanência, moradias não entregues desde a reforma e sem nenhum sinal de contratação de docentes ou servidores, com o objetivo de reverter o quadro extremamente reduzido”.
O DCE também acende um alerta para a autarquização do hospital de Botucatu como alternativa para enfrentar uma crise orçamentária, “diante de um governo de orientação privatista como o de Tarcísio de Freitas, esses caminhos abrem brechas preocupantes”, destaca.
“Os compromissos de Tarcísio não são com a educação e muito menos com o povo, mas sim com a burguesia paulista. E este é um dos inimigos que devemos vencer rumo à construção de uma universidade popular”, defende a entidade estudantil.
Finalizando a introdução da carta, o DCE da Unesp amarra: “olhamos para essas lutas e vemos a necessidade de articulação e unificação das pautas que apontam pelo fim da precarização da universidade pública”. Convoca, então, os estudantes de todos os campi para uma paralisação geral nos dias de negociação com o CRUESP, elegendo pautas unificadas como norteadoras da luta no processo de greve:
- Por R.U., Permanência e Moradia
- Por contratação, pelo fim da precarização
- Por Paridade, Cotas Trans Já e mais orçamento para a Unesp
A segunda parte da carta, que discorre sobre a reivindicação de melhores políticas de Permanência Estudantil, pode ser acessada aqui.
A terceira parte, que aborda a necessidade de Cotas Trans Já e pelo fim do sistema de votos desigual entre as categorias, na modalidade 70-15-15, pode ser acessada aqui.
Galeria de imagens: atos de greve
A mobilização estudantil da greve unificada das estaduais paulistas de 2026 se fez efetiva na pressão física ao Conselho de Reitores das Universidades Estaduais de São Paulo, o CRUESP.
Os alunos da Unesp, USP e Unicamp se organizaram para, em dias de reunião dos Reitores, estarem presentes em atos de manifestação no local das reuniões.
Como a presidência do CRUESP se encontra na figura de Maysa Furlan, reitora da Unesp, a maioria das manifestações estudantis se deu no local da Reitoria da Unesp, na Praça da República, em São Paulo.
Confira a cobertura dos fatos pelo fotógrafo e estudante de Comunicação Audiovisual pela Unesp, Arthur Macedo.
Três grandes atos unificaram a manifestação por direitos estudantis: em 4 de maio, primeiro grande ato da greve geral, estudantes de todo o estado de São Paulo se uniram em manifestação na Reitoria da Unesp, mas os reitores não pautaram as reivindicações estudantis.




Em 11 de maio, segundo ato das estaduais paulistas, a reunião foi cancelada em cima da hora, o que gerou manifestação da Adunesp, a Associação Docente da Unesp, que também esperava ser contemplada na pauta de reajuste salarial.
Em 20 de maio, ocorreu a Marcha ao Palácio dos Bandeirantes, manifestação organizada pelos Diretórios Centrais das três Universidades Estaduais Paulistas rumo à residência de Tarcísio de Freitas, ato político contra o projeto de precarização do ensino público do atual governador do estado de São Paulo.




Marcha ao Palácio dos Bandeirantes, Greve das Estaduais Paulistas, 20 de maio de 2026. Imagens: Arthur Macedo
O ato contou com dezenas de milhares de pessoas em marcha do Largo da Batata até o Palácio dos Bandeirantes, e contou com a cobertura de grandes perfis como o Mídia Ninja.

Foto: Arthur Macedo
Em 17 de junho, uma quarta manifestação teve lugar na capital paulista. Em explícita declaração, o DCE da Unesp comemorou a unidade do estudante com o trabalhador na marcha de 20 de maio e promoveu novo ato: Marcha do MASP à Assembleia Legislativa de São Paulo, por Fora Tarcísio.





Marcha à Alesp por Fora Tarcísio de Freitas, 17 de junho de 2026. Imagens: Arthur Macedo
Principais conquistas
O processo de greve unificada nas Estaduais Paulistas foi como um acelerador de lutas: levou a resultados que, pela burocracia institucional, demorariam anos para serem colocados em pauta.
Em 19, 22 e 23 de junho de 2026, ocorreram as negociações entre Diretório Central dos Estudantes, representantes discentes dos campi em greve e representantes da Reitoria da Unesp visando um acordo para que a greve se finalizasse em troca de algumas conquistas para a categoria discente.
Das conquistas que a classe estudantil Universidade Estadual Paulista arrancou, após quase três meses em paralisação das atividades acadêmicas para dedicar o pensamento à política da universidade, as mais expressivas foram:
- O compromisso da Reitoria com a apresentação da minuta para aprovação nos Órgãos Colegiados e implementação das Cotas Trans na Unesp no ano de 2027:

Confira o texto de Lê Magalhães, Lê Sato, Ali Teixeira e Rio Braga, membros da Frente por Cotas Trans “Carmen de Oliveira Alves”, que participaram da mesa de negociação de greve por Cotas Trans com a Reitoria da Unesp.
- O aumento do valor do Auxìlio Socioeconômico em 5%, a partir do mês de julho
- O planejamento e implementação de Restaurante Universitário no período noturno nos campi de Presidente Prudente e Assis
- O compromisso com a contratação de servidores emergenciais de Assistência Social para os campi de Presidente Prudente e Bauru
- O planejamento para a unificação dos dois tipos de Auxílio Socioeconômico, em que não haja distinção de valores (baseando-se no ASE 1, que possui o valor mais alto).
- Auxílio Socioeconômico emergencial aos membros de Moradia Estudantil que se encontram em reforma ou incapacidade de moradia, nas cidades de Assis, Presidente Prudente, rio Claro, Marília e Guaratinguetá
- O compromisso em fornecer cestas básicas para estudantes da Permanência Estudantil em unidades que não possuem Restaurante Universitário
- A expansão progressiva do programa de alimentação na Unesp
- A criação de Grupos de Trabalho para execução e acompanhamento das políticas públicas, visando ampliação dos já existentes em Permanência estudantil (CPPE) e Segurança Alimentar (CPSANS)
Edital Unesp 50+
“O Unesp 50+ vai representar o avanço das atividades acadêmicas para que possamos promover o desenvolvimento sustentável da nossa universidade e caminhar juntos”, declarou a Reitora Maysa Furlan, no lançamento do projeto.
O edital do programa foi pensado para modernizar a infraestrutura existente e fomentar a inovação pedagógica e à articulação entre ensino, pesquisa e extensão nas 34 unidades universitárias, em alinhamento ao desenvolvimento sustentável e aos desafios do cenário atual do ensino superior público brasileiro.
A submissão das propostas foi feita em novembro de 2025 e, na formulação da proposta, devem constar a justificativa, metas, cronograma físico-financeiro, orçamento atualizado e detalhado e encaminhamento pela direção da(s) unidade(s) universitária(s) envolvida(s), com manifestação da congregação correspondente.
Sobre os preparativos para a submissão ao projeto, o professor Paulo Noronha, vice-reitor da Faculdade de Ciências de Bauru, falou com a Agência Trilhos sobre os objetivos da unidade. Ouça aqui:
Ainda que muito aguardado, o Programa Unesp 50+, que previa investimentos de R$ 150 milhões para fortalecer a excelência acadêmica no início do cinquentenário da universidade, foi suspenso em 2026 pela reitoria.














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