Graziela Aguiar 

Cena do filme Corrida dos Bichos. (Foto: Laura Campanella) 

Em um Rio de Janeiro distópico, 45 anos após uma grande catástrofe, ambienta-se o novo longa brasileiro “Corrida dos Bichos”. Dirigido por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, o filme retrata um universo em que pessoas vulneráveis correm em busca de ascensão social.

Na trama, os “bichos” são pessoas reais tratadas como marionetes por “jogadores” ricos. A disputa começa com 20 competidores e, a cada rodada, os últimos cinco a cruzar a linha de chegada são eliminados , perdendo seus “seguros”, que são entes queridos mantidos como reféns. Na rodada final, apenas os dois primeiros colocados ganham o prêmio em dinheiro e conseguem salvar suas famílias.

O especialista em cinema e produção audiovisual nacional, Prof. Dr. Gustavo Soranz, aponta que a obra escancara a realidade brasileira:” O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, e o filme apresenta uma visão distópica de um futuro onde o valor de uma vida é definido pelas posses, e não pelo essencialmente humano.

A crítica social conversa diretamente com o nosso cotidiano ao mostrar como o sujeito despossuído se sujeita a uma exploração extrema ,na qual pode inclusive morrer ,para tentar sobreviver ou acessar bens que lhe são negados de outra forma. É uma metáfora sobre a sociedade moderna e o modo de produção capitalista levados ao limite: em um cenário onde não há regulações éticas ou institucionais, a única saída enxergada pelo indivíduo para sair da miséria é se submeter à exploração daqueles que detêm o capital.”

O protagonista Mano, vivido por Matheus Abreu, viu a mãe ser levada como seguro ainda na infância e cresceu sendo um crítico ferrenho do sistema. No entanto, uma reviravolta o força contrariar seus próprios princípios, e entra na competição para resgatar a própria irmã.

A favela como polo de resistência 

Em meio a essa estrutura opressora, surge o Perímetro, uma área retratada como uma favela que funciona como um pólo de resistência contra a desumanização do jogo , enquanto o restante da sociedade segue apostando em seus corredores favoritos. Apesar de ambientado em um futuro distópico, o longa traz uma crítica social extremamente atual sobre a mercantilização da vida no Brasil.   

Segundo o professor Gustavo, a favela se consolida como o principal bastião de resistência contra a lógica individualista da exploração contínua, na qual a sobrevivência pessoal se sobrepõe ao bem comum. Para ele, o verdadeiro sentido de comunidade reside na coletividade, lugar onde surgem as utopias de transformação social e onde as relações humanas são estruturadas pelo afeto e pelo vínculo mútuo, resgatando a essência da convivência comunitária para além das saídas individuais. 

Com um elenco de destaque que inclui Isis Valverde, Bruno Gagliasso e Rodrigo Santoro, Corrida dos Bichos é uma das principais apostas do audiovisual brasileiro. A premissa dialoga com produções internacionais do subgênero de sobrevivência, como Jogos Vorazes (2012)  e  Round 6 (2021), que também retratam populações vulneráveis em disputas letais promovidas por elites abastadas.

Sobre essas comparações, o co-diretor Fernando Meirelles,cineasta indicado ao Oscar por Cidade de Deus ,  ressaltou em uma entrevista de divulgação para o portal Omelete que a ideia da obra nasceu há mais de 15 anos a partir do roteiro de Ernesto Solis. Para o diretor, o filme utiliza a linguagem do exagero e da ação futurista não para copiar modelos estrangeiros, mas para alertar sobre um presente marcado pela desigualdade social e pela naturalização do absurdo no cotidiano.

Nova maneira de consumir audiovisual

A obra estreou no dia 07 de agosto, mundialmente, e a escolha de lançar o filme  direto em plataformas de streaming também surge de uma nova onda global que vem se tornando popular, que é o lançamento, sem passar pelas salas de cinema e diz muito sobre a maneira como estamos consumindo filmes no geral. “O streaming é hoje a janela mais importante de consumo audiovisual no mundo. Lançar o filme direto na plataforma permite atingir instantaneamente um público potencial transnacional de centenas de milhões de pessoas, algo inalcançável para o circuito tradicional de salas de cinema no Brasil. Por outro lado, essa escolha reflete o imenso poder dessas empresas estrangeiras, que dominam a cadeia de consumo e operam no país à revelia das regulamentações e tributações locais”, avalia o Prof. Dr. Gustavo Soranz.

Apesar de possuir diretores e atores brasileiros, o filme não é considerado um filme nacional, por fazer parte de uma produtora estrangeira que não fiscalizada pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE).

“Pelas regras da Agência Nacional do Cinema (Ancine), ele efetivamente nem é um filme nacional, mas sim um ‘Amazon Original’. O detentor dos direitos patrimoniais é a plataforma estrangeira, enquanto a produtora brasileira foi apenas contratada. As plataformas de streaming operam sem passar pelas regulações do audiovisual no país, não pagam os tributos do setor e fazem um lobby pesadíssimo para não se sujeitarem às leis nacionais. Contudo, quando lançam uma produção desse tipo, o interesse é fazer parecer ao grande público que se trata de uma obra brasileira. ‘

Ao conectar os códigos internacionais do cinema de sobrevivência às particularidades de um Rio de Janeiro desigual, Corrida dos Bichos marca uma aposta ousada no audiovisual nacional. Seja consumido na tela do streaming ou debatido pelas suas camadas políticas, o filme entrega um recado claro: quando a lógica da posse e do espetáculo se sobrepõe ao humano, o desespero deixa de ser ficção para se tornar o retrato de uma sociedade em constante disputa.

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