Matheus Santos

Do outro lado do mundo, o barulho dos ataques ecoa para além das fronteiras do Oriente Médio. As investidas de Estados Unidos e Israel contra alvos militares e estratégicos no Irã ampliaram as tensões em uma região marcada por conflitos e instabilidade.

Os efeitos dessa crise, porém, não se restringem ao campo militar. Eles também alcançam o mercado de energia, pressionam cadeias produtivas e podem repercutir na indústria têxtil.

Uma das principais rotas dessa tensão passa pelo mar. O Estreito de Ormuz, passagem entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, concentra uma parcela expressiva do transporte mundial de petróleo.

O Estreito de Ormuz é a única passagem marítima que conecta o Golfo Pérsico aos oceanos. Por essa rota estratégica circula o tráfego marítimo de petróleo dos principais países exportadores da região, tornando-a fundamental para o abastecimento energético global (Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE)

Apesar de parecer apenas um risco no mapa, o estreito é uma via estratégica para o abastecimento energético global. De acordo com estimativas da Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA), o fluxo diário de petróleo pela região oscilou entre 19,2 milhões e 20,9 milhões de barris entre 2020 e 2025, volume equivalente a aproximadamente um quinto da oferta mundial de petróleo.

No primeiro semestre de 2025, o volume de petróleo transportado pelo Estreito de Ormuz alcançou a média de 20,9 milhões de barris por dia. Esse fluxo correspondeu a aproximadamente 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo e a cerca de um quarto de todo o petróleo comercializado por via marítima no mundo (Gráfico: Matheus Santos)

Quando o tráfego marítimo é afetado e cresce o temor de interrupções no abastecimento, os preços do petróleo ficam mais expostos às incertezas geopolíticas.

Em setembro, o barril do Brent chegou a US$107,63, em meio à intensificação dos ataques e aos temores de interrupções na oferta. A instabilidade também reacende preocupações com os custos de transporte e com os insumos derivados do petróleo.

É nesse ponto que a crise pode repercutir na indústria têxtil. De acordo com Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT), o poliéster registrou alta de 40%.

Produzida a partir de derivados do petróleo, a fibra sintética está sujeita às oscilações do mercado petroquímico, de modo que o aumento dos custos dessas matérias-primas pode pressionar seu preço e afetar a competitividade em relação ao algodão.

E, quando o sintético encarece, o natural volta a ganhar valor.

Além do petróleo, o clima pressiona a produção

No campo, a oferta de fibras naturais como o algodão também está sujeita a uma variável que nenhuma bolsa de valores consegue controlar completamente: o clima.

As principais regiões produtoras da fibra enfrentam, em diferentes momentos, os efeitos de temperaturas extremas, períodos de seca e alterações nas condições de cultivo. Esses fenômenos podem afetar a produtividade, a qualidade da pluma e o volume disponível para abastecer a indústria.

No Texas, principal estado produtor de algodão dos Estados Unidos, ondas de calor e estiagens representam riscos para as lavouras. Na China, as condições climáticas também impõem desafios à produção. Em Xinjiang, principal região produtora do país, as enchentes aumentaram a pressão sobre as plantações.

A estiagem e as altas temperaturas castigam as lavouras de algodão no Texas, nos Estados Unidos. A escassez de água compromete a produção agrícola e evidencia os impactos das mudanças climáticas sobre a cadeia global do algodão (Foto: Jordan Vonderhaar / The New York Times).

Ao mesmo tempo, a demanda chinesa por algodão permanece relevante. Nos primeiros sete meses de 2026, o país importou 1,02 milhão de toneladas da fibra, volume próximo ao total adquirido ao longo de todo o ano passado, de acordo com dados divulgados pelo Ministério da Agricultura do país.

De um lado, estão as lavouras tentando entregar a próxima safra. Do outro, as indústrias que precisam de algodão para continuar produzindo fios, tecidos e roupas. Entre os dois, existe uma variável decisiva: o estoque.

Quando a oferta disponível se torna mais restrita em relação ao consumo, o mercado tende a ficar mais sensível a problemas de produção. Mas a relação entre oferta, demanda e preços não é automática.

A disponibilidade de estoques, o ritmo das compras industriais e as perspectivas para as próximas safras também influenciam as cotações.

O sintético que virou concorrente

Devido à sua versatilidade e resistência, o poliéster conquistou espaço na indústria da moda, inclusive entre grandes marcas de fast fashion, como Zara e Shein.

O uso de poliéster e de outras fibras sintéticas é recorrente nas coleções de roupas e acessórios da Zara, embora a presença desses materiais gere debates sobre a qualidade, a durabilidade e o apelo estético das peças (Foto: Divulgação)

A fibra apresenta características que contribuem para a produção de peças em ciclos curtos, além de secar rapidamente e oferecer diferentes possibilidades de acabamento. Essas vantagens ajudaram a ampliar seu uso em um mercado que valoriza velocidade, variedade e custos competitivos.

A mesma cadeia produtiva, entretanto, pode ficar exposta às oscilações do setor petroquímico. Se os custos das matérias-primas aumentam, parte dessa pressão pode chegar ao preço das fibras sintéticas.

Nesse contexto, o algodão pode se tornar relativamente mais atraente para determinados usos industriais.

Para Marcella Guerreiro Wehrle, diretora e engenheira agrônoma da Associação Paulista de Produtores de Algodão (APPA), a concorrência entre as duas fibras faz parte dos desafios enfrentados pela cotonicultura.

Ela explica que existe também uma disputa menos visível: a percepção do consumidor sobre aquilo que veste.

“É muito difícil conscientizar o consumidor de que uma fibra natural, que vem de uma planta, é muito mais favorável do que o poliéster, que às vezes ninguém nem entende o que é. Ambas as fibras são branquinhas, fofinhas, mas, na hora que você pega, vê a diferença. Uma realmente é plástico.”

A Ásia quer algodão

Em grandes parques industriais da China, da Índia e do Paquistão, toneladas de fibras atravessam máquinas de fiação, transformam-se em fios e tecidos e, pouco depois, chegam às vitrines de diferentes partes do planeta.

Esses mercados representam uma oportunidade para o algodão brasileiro, especialmente pela dimensão de suas indústrias têxteis. No ano comercial de 2025/2026, entre agosto de 2025 e julho de 2026, o Brasil exportou um recorde de 3,37 milhões de toneladas de algodão, segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

O volume consolidou a posição brasileira de destaque no comércio internacional da fibra e colocou o país na liderança mundial das exportações.

A China aparece entre os principais destinos do algodão brasileiro. Para Marcella, a demanda chinesa deve continuar sendo importante, mesmo diante do avanço das fibras sintéticas.

“A China, principalmente, precisa muito do nosso algodão. Eles não conseguem ser autossuficientes. E, por mais que o poliéster tenha uma dominância, o algodão sempre vai ser importante”, afirmou.

(Fonte: ComexStat – ME, agosto de 2026)

O comportamento recente das cotações reforça essa cautela. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), os preços do algodão em pluma recuaram em setembro e continuaram em baixa no início de outubro de 2026, pressionados pelas cotações internacionais e pelo menor interesse por novas aquisições.

O básico do brasileiros

Enquanto uma parcela significativa da produção brasileira de algodão abastece o mercado internacional, a fibra também desempenha um papel importante no fornecimento de matéria-prima para a indústria têxtil nacional.

No sudoeste paulista, municípios como Paranapanema e Itaí participam dessa cadeia produtiva. Ainda segundo a diretora da APPA, o plantio na região começa em novembro, e a colheita ocorre entre o fim de abril e o início de maio. Por estar entre as primeiras regiões paulistas a iniciar a colheita, a produção local contribui para o abastecimento do mercado interno.

Em Santo Antônio de Posse, no interior paulista, fazendas experimentais desenvolvem sementes com maior resistência a insetos e às variações das condições climáticas (Foto: Matheus Santos)

Mas a relação entre o algodão e o consumidor não se resume à disponibilidade da matéria-prima ou ao preço das peças. A origem das fibras e os impactos de sua produção também vêm ganhando espaço nas discussões sobre o futuro da indústria têxtil.

Conforme Marcella, as novas gerações demonstram interesse crescente pela procedência dos produtos e pelas informações disponíveis nas etiquetas.

“A gente sente que essas novas gerações que estão vindo têm uma consciência de sustentabilidade, uma consciência de escolha. Eles gostam de ver uma etiqueta, ver uma rastreabilidade que a gente traz ali da fibra. As marcas sentem isso, elas investem nisso”.

A rastreabilidade permite acompanhar a origem da matéria-prima e seu percurso ao longo da cadeia produtiva. Para as marcas, oferecer essas informações é uma forma de dar mais transparência ao processo de fabricação e atender a consumidores que desejam conhecer melhor a composição e a procedência das roupas que compram.

Ao mesmo tempo, a escolha do consumidor é influenciada por outro fator decisivo: o preço.

A indústria do vestuário precisa conciliar qualidade, custo e competitividade para atender a diferentes públicos. Nesse cenário, a Hering anunciou uma estratégia para recuperar espaço entre consumidores das classes B e C, com uma camiseta básica vendida por R$49,99, cerca de 30% abaixo do preço anterior.

No Brasil, marcas como Hering, Renner e Riachuelo têm buscado implementar iniciativas mais sustentáveis relacionadas ao uso do algodão na produção de suas peças (Foto: Divulgação)

Fernando Porto, diretor criativo da marca, afirmou que, a cada redução de 1% no preço da camiseta, a base de clientes aumenta 2%. A empresa também declarou esperar crescimento de dois dígitos no volume de vendas da categoria.

A iniciativa evidencia um dos desafios do setor: tornar as roupas acessíveis sem abrir mão da qualidade e das características das matérias-primas, mesmo diante das incertezas provocadas por tensões geopolíticas do outro lado do mundo.

Deixe um comentário

Trending