Ana Luiza Oliveira

Já faz tempo que a alimentação deixou de ser apenas um ato de satisfação das necessidades fisiológicas e nutricionais. Hoje, é uma atividade complexa, que carrega significados e valores econômicos, sociais, culturais e políticos. Escolher o que comer é também se associar a um estilo de vida, a uma ideologia e, acima de tudo, a uma perspectiva cultural.

É nesse cenário que o vegetarianismo e o veganismo se destacam. A opção pelo não consumo de carne ou pela retirada total de alimentos de origem animal da dieta é um caminho seguido por diversas motivações. Tem os que desejam se alimentar melhor, os que buscam cuidar da saúde, e também aqueles que levantam a bandeira antiespecista e os que são contrários aos modelos de produção.

Kamila Feldenheimer é fundadora da Happig, empresa de hambúrgueres vegetais em Bauru. Parou de consumir carne aos 12 anos e, desde 2014, leva a iniciativa com o propósito de garantir mais alternativas que respeitem as outras formas de vida para o mercado. Para ela, o veganismo alinha outras lutas e causas importantes.

“É um posicionamento político, é contra o que explora os animais, as pessoas, o que acaba com a terra, a monocultura, enfim. É, para mim, 100% político, e eu, pessoalmente, gostaria que todo mundo enxergasse dessa forma”, contou em entrevista.

Como estilo de vida, o veganismo parte da retirada dos produtos de origem animal do consumo, incluindo alimentos, roupas e produtos. Foto: Reprodução/Freepik

Para entender a mudança no ato da alimentação e a visão política do movimento vegano, deve-se olhar para o sentido oposto. Afinal, quais são os valores que o consumo da carne carrega?

Segundo Kamila, a carne é um dos pilares do sistema vivido hoje e é um reforçador da masculinidade. “Não é um consumo necessário, mas continua sendo desenfreado, porque está ligado a fatores que as pessoas não querem abrir mão”.

Para o professor Paulo Niederle, docente do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o consumo de alimentos de origem animal está ligado ao que hoje é o ideário do agro contemporâneo. “Inclusive com cantores de música sertaneja fazendo apologia à carne, a carne se tornou o centro de uma batalha político-cultural que está muito forte, muito presente no Brasil hoje em dia, e que contrapõe esse imaginário de um agro masculino, masculinizado”, explicou.

“Historicamente, o consumo de carne sempre foi associado a uma espécie de masculinidade, sobretudo no meio rural, o trabalho árduo associado principalmente à figura do agricultor, do homem, ou de quem trabalha com a pecuária”.

Em meio a essa batalha político-cultural, o agro precisa se adaptar. O que está em jogo agora para a tomada de decisão sobre o que comer é mais complexo do que apenas a qualidade nutricional: é o ativismo e a luta pessoal de quem se dedica pela igualdade de todos os indivíduos sencientes, ou seja, seres capazes de ter experiências positivas e negativas, ou, então, de quem é contra a forma como os alimentos são produzidos.

Não por acaso, a busca pela alimentação vegetal está em ascensão. Em 2025, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) divulgou um levantamento realizado pelo Instituto Datafolha que apontou que 7% da população brasileira é vegana. O número equivale a cerca de 15 milhões de pessoas.

No mesmo estudo, também foram perguntados os fatores que poderiam levar os brasileiros a deixarem de comer carne. Entre as principais respostas, estavam os motivos de saúde (74%), o meio ambiente (43%) e o bem-estar animal (42%). Para algumas pessoas, todas ou mais de uma das opções eram válidas.

Já para o vegetarianismo, a mesma organização também publicou, em 2018, uma pesquisa conduzida pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) que revelou que 14% dos brasileiros se declaravam vegetarianos. Nas regiões metropolitanas de São Paulo, Curitiba, Recife e Rio de Janeiro, o percentual alcançou 16%, um aumento em relação a mesma pesquisa realizada em 2012, quando a proporção da população brasileira nas regiões metropolitanas que se declarava vegetariana era de 8%.

Segundo consulta na ferramenta Google Trends, o termo de pesquisa “Plant Based” teve crescimento de 100% nos últimos cinco anos, e o termo “Plant Based Protein” cresceu 450% no mesmo período.

Como se adaptar?

A agricultura passa por profundas transformações que ocorrem em alta velocidade e impactam o mundo rural brasileiro. No movimento de mudança, o consumidor não é mais um indivíduo passivo e tem participação e influência no mercado.

Com a adoção de dietas sem carne, por exemplo, os consumidores pressionam o agro para que outras alternativas sejam produzidas. Entre elas, estão os alimentos Plant Based, ou à base de plantas, que são parte de uma dieta formada por comidas de origem vegetal.

Segundo a consultoria Bloomberg Intelligence, na pesquisa “Plant Based Foods Poised for Explosive Growth”, divulgada em 2021, os alimentos Plant Based devem ocupar 7,7% do mercado mundial de proteínas até 2030.

Previsão é de que o crescimento do mercado Plant Based alcance 126,3 bilhões de dólares. Fonte: Bloomberg Intelligence. Elaboração: Ana Luiza Oliveira

“A Sadia lançou linha, a Seara lançou linha. É um crescimento bonito de se ver. Além dos alimentos artesanais, [como os hambúrgueres da Happig], também explodiu o mercado de processados veganos nos supermercados”, contou Kamila Feldenheimer.

No caso das proteínas industrializadas, o processo envolve a extração e a texturização de fontes vegetais, que transforma grãos e leguminosas em análogos de carne, leite ou ovos. O destaque vai para a soja, que, em sua composição quando crua, possui 38% de proteína.

“Celeiro do mundo”, o Brasil é o país com a maior produção e exportação de soja. Além de ser matéria-prima para rações animais, ela também é base para produtos como o leite de soja, o tofu e a Proteína Texturizada de Soja (PTS).

Produção de soja brasileira foi de 166.879 mil toneladas em 2025. Fonte: Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). Elaboração: Ana Luiza Oliveira

Outros alimentos, como os grãos de ervilha e de feijão, por exemplo, também apresentam potencial na extração de proteína. Segundo Eloísa Garcia, coordenadora do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital/Apta/SAA), é possível até misturar os materiais.

“Existe uma busca dos consumidores por outras fontes de proteína. A soja é a que tem a proteína de melhor qualidade, com os teores de aminoácidos essenciais mais próximos das proteínas de carne e de leite. As outras têm vários aminoácidos essenciais, mas faltam alguns. Então, se eu usar só proteína de ervilha, por exemplo, vai faltar alguns aminoácidos. Por isso, nas formulações de alimentos Plant Based, proteicos, é comum misturar fontes de proteína”.

O instituto, vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, estuda o potencial das alternativas de alimentação vegetal desde 2019, quando criou o Centro de Inovação em Proteína Vegetal (PRO-VEG).

O futuro é Plant Based?

A relação que as pessoas têm com a alimentação mudou. A preocupação com os animais, com os meios de produção e com a saúde já é contemporânea. Resta saber: o agro vai mudar também?

O professor Paulo Niederle, que também é membro do Grupo de Pesquisa em Sociologia das Práticas Alimentares da UFRGS, esclareceu em entrevista que, apesar das expectativas para o mercado, o caminho ainda é longo.

“Se esperava que esse mercado de proteínas tipo carne tivesse uma expansão mais significativa. Elas não avançaram nos últimos anos tanto quanto inicialmente se imaginava. Ainda assim, o que tem chamado mais atenção são as bebidas, os chamados leites vegetais. Esses têm crescido consideravelmente”.

No nicho das bebidas vegetais, destaca-se a empresa A Tal da Castanha, marca brasileira de bebidas e alimentos de origem vegetal, fundada em 2014 e criada pelo grupo Amêndoas do Brasil. Em 2026, divulgou um relatório de impactos referente ao ano de 2025.

A marca possui o Selo SVB, da Sociedade Vegetariana Brasileira, que certifica mais de 5.300 produtos veganos no país. Além disso, fortalece a cajucultura brasileira, tendo beneficiado, em 2024, 91 agricultores familiares nos estados do Ceará, Bahia, Maranhão e Piauí, com 7.940 hectares de área produtiva, conforme dados do relatório.

Com produtos à base de amêndoas, aveia, castanha de caju e outros, A Tal da Castanha se posiciona no mercado vegano. Foto: Reprodução/Positive Co

Como a empresa A Tal da Castanha, o Selo SVB também estampa rótulos veganos como Vida Veg e Tnuva. São, portanto, as linhas de origem vegetal em marcas que não são 100% veganas que abrem espaço para uma oportunidade.

Para Niederle, não é mais possível ignorar o movimento. “As empresas, sobretudo os grandes conglomerados, JBS e MBRF, já não só aceitaram, como estão se posicionando nesse novo mercado. A JBS já diz, ela própria, que não é a maior produtora de carnes do mundo, é a maior produtora de proteínas”.

Ao observar as ações do conglomerado JBS na última década, é possível entender a mudança. Sob a marca Seara, lançou em 2020 uma linha de hambúrgueres e proteínas vegetais, que posteriormente evoluiu para a marca independente “Incrível!”, hoje uma das maiores líderes no mercado Plant Based no Brasil.

Na mesma época, em 2021, adquiriu por 341 milhões de euros a Vivera, terceira maior produtora europeia de alimentos Plant Based, com fábricas e centro de pesquisa na Holanda. E, em 2025, comprou por meio dela a The Vegetarian Butcher, da Unilever, que possui uma linha de produtos que inclui hambúrgueres, salsichas, nuggets e substitutos moídos à base de plantas.

O investimento no mercado de origem vegetal abre espaço para que as empresas e produtores se adaptem aos novos hábitos de consumo da população.

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