Alinhado às ideias de líderes de extrema-direita, o novo presidente do Chile inicia seu mandato de forma violenta e polêmica
Livia Queiroz

O Chile empossou José Antonio Kast Rist como novo presidente no dia 11 de março. Desde então, sua gestão é apontada como a mais violenta e radical desde a ditadura de Augusto Pinochet, acumulando decretos rigorosos e políticas de repressão militar que preocupam a população.
Após quatro anos do governo de esquerda de Gabriel Boric, o republicano venceu as eleições. Como primeira medida, nomeou os 24 ministros do gabinete, incluindo dois advogados de Pinochet. Desde sua campanha, Kast reafirma a necessidade de “mão de ferro” para a segurança nacional em conjunto com a política anti-imigração.
“Durante a campanha, Kast prometeu combater a criminalidade; no entanto, anunciou que irá proceder a um corte de 72 mil milhões de pesos (cerca de 77,6 milhões de dólares) no orçamento da Segurança Pública, área que, durante a campanha, descreveu como uma crise “fora de controle” e parte de uma emergência nacional” – Javiera Dinamarca
O fantasma da ditadura
Em 1973, um golpe militar que culminou no assassinato do presidente Salvador Allende, instituiu a repressão mais violenta do país. A violação aos direitos e à integridade das mulheres foi uma de suas marcas. Segundo a Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura (Comissão Valech), das 3.621 mulheres detidas, 3.399 foram torturadas e vítimas de violência sexual por militares.
Ainda sob a análise documental, o relatório da Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação (Comissão Rettig), entregue em 1991, declarou que mais de 40 mil civis foram presos e torturados, 3.216 desaparecidos e assassinados e 100 mortos e desaparecidos pela Caravana da Morte, operação clandestina contratada para executar integrantes das resistências.

Além dos direitos humanos, Pinochet manteve sua herança com a Constituição de 1980 – que segue em vigor. Apesar das poucas mudanças na legislação, sendo a mais significativa em 2005, a população rejeitou novas propostas apresentadas nos plebiscitos de 2022 e 2023, mantendo o texto atual.
A semelhança com as práticas da ditadura acende um alerta aos chilenos. “A extrema-direita tem o poder de convencer e manipular os seus seguidores, o que pode dar origem a uma série de reformas que marcam um antes e um depois na política chilena”, afirma Matias Silva, estudante da Universidade de Santiago (USACH).
A resistência estudantil
Mesmo sob repressão, os estudantes lideram os protestos contra os cortes na educação pública e a diminuição na qualidade de vida. A estudante de jornalismo, Javiera Dinamarca, revela temer que o acesso ao ensino possa regredir graças às mudanças na política de gratuidade nas universidades, visando uma necessidade de poder econômico muito maior para frequentá-las a partir da era Kast.
“Acho que ficaram muitas sequelas daqueles tempos autoritários; quem mais se manifesta são os jovens que não viveram as consequências dessa repressão. Pela minha parte, tenho medo de me manifestar, porque o perigo é muito maior: podem acabar com a minha vida” – Javiera Dinamarca

Alerta continental
O cenário chileno não é isolado. Além dele, existem outros países na América Latina que promovem o terror do autoritarismo. Javier Milei, presidente da Argentina, promove cortes drásticos em instituições sociais e verbaliza discursos racistas e nazistas. Em El Salvador, Nayib Bukele ostenta o sistema de segurança mais rígido da história, com a maior taxa de encarceramento do mundo.
Segundo discursos da ONU e opiniões de acadêmicos da área internacional, a qualidade da democracia na América do Sul está em crise e manter-se atento aos elementos autoritários cada vez mais banalizados quando se manifestam em ambas as posições governamentais envolvendo especialmente a polarização de opiniões, é de suma importância para o equilíbrio mundial.





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