Eleição de Érika Hilton ampliou divergências já existentes sobre o lugar da mulher trans na política e no movimento feminista
Alice Burégio

Foto: Ana Clara Gonçalves/Câmara dos Deputados
No dia 11 de março de 2026, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados elegeu a deputada Érika Hilton (PSOL-SP) como presidente. É a primeira vez que uma mulher trans assume o cargo na história da comissão. Ela recebeu 11 votos, além de 10 votos em branco e substitui Célia Xakriabá (PSOL-MG).
O marco histórico evidenciou o cenário de polarização política no país, especialmente entre esquerda e direita. Essa polarização impacta não apenas a forma como os campos políticos são reconhecidos, mas também na compreensão de movimentos sociais, como o feminismo.
Ao assumir a presidência da comissão, Érika Hilton ampliou o debate sobre o lugar das mulheres trans no movimento feminista e na política. Por parte de parlamentares, sua eleição gerou críticas e acentuou divergências.
Em meio a esse cenário de tensões, sete dias após a eleição, no dia 18 de março, a deputada Fabiana Bolsonaro (PL) foi criticada após utilizar blackface na Tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Em seu discurso, Fabiana fez uma analogia sobre pessoas brancas pintadas de preto e que, segundo ela, nunca seriam pretos “reais”, comparando esse raciocínio às mulheres trans.

Foto: Reprodução/Alesp
Apesar das críticas, sua ação levantou pautas que já eram discutidas dentro do feminismo brasileiro: Mulheres trans podem ser consideradas parte do movimento feminista? A polêmica ampliou a visibilidade do debate em diferentes vertentes do feminismo.
Feminismo radical e exclusão
Gabriela Jacques de Moraes, psicóloga clínica, estudante de filosofia e autora do texto “Porque o ‘Feminismo Radical’ é reacionário”, explica o que seria o feminismo radical e como ele afeta diretamente mulheres trans:
“O feminismo radical é uma vertente do feminismo que se esforça a vincular, muito estritamente, o conceito de gênero ao sexo biológico […] como se não existissem fenômenos diversos e complexos de gênero em que as pessoas experienciam, inclusive misoginia e violência de gênero, sem serem reconhecidas ao nascimento como do sexo feminino”.
Confira trecho no áudio:

Segundo a autora, o perigo dessa definição está na exclusão das mulheres trans. A negação do reconhecimento de gênero pode levar ao afastamento dessas pessoas de espaços públicos e da vida social.
Uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) evidencia essa desigualdade no mercado formal de trabalho brasileiro. Entre 38,7 mil pessoas analisadas no estudo, apenas um quarto das pessoas trans possuem emprego formal.
Para mulheres trans, a desigualdade é ainda mais visível. A taxa de participação é de 20,7%, comparado com a de 31,1% entre homens trans.
Além disso, a renda também é afetada: em média, pessoas trans no mercado formal recebem R$2.707 por mês, valor 32% inferior à média nacional de R$3.987. Mesmo com alta escolaridade, ganham 27,6% a menos que profissionais não trans no mesmo nível educacional.

Movimento e controvérsias
No Brasil, no campo político e social, a transfobia é considerada crime, equiparando-se ao racismo por decisão do Supremo Tribunal Federal, com base na Lei nº 7.716/1989. Ainda assim, debates sobre identidade de gênero seguem presentes no cenário político.
Foi resgatado recentemente o episódio do dia 8 de março de 2023, Dia Internacional da Mulher, em que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) afirmou: “Hoje eu me sinto mulher. Deputada Nikole”, enquanto vestia uma peruca amarela durante discurso na Câmara.
Sua ação e a ação da Deputada Fabiana Bolsonaro baseiam-se na ideia de que, independentemente da peruca ou da pintura, eles não teriam sua identidade mudada, assim como, na visão deles, mulheres trans.
Suas declarações geraram discussões nas redes sociais. Ao mesmo tempo que foram amplamente criticados, também obtiveram apoio por parcela da população, que dizem entender seus argumentos.





Foto: Comentários do G1
Debate teórico
Em contraposição a essas perspectivas, parte do movimento feminista recorre às ideias da filósofa francesa Simone de Beauvoir. Em sua obra O Segundo Sexo (1949), a filósofa afirma: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, defendendo a ideia de que a feminilidade é uma construção social e não uma condição natural.
Essa perspectiva molda os argumentos que a Gabriela Jacques apresenta. Segundo ela, ao mesmo tempo que comentários críticos abrem margem para mais ódio, também abrem espaço para pessoas trans ocuparem um lugar que antes não seria possível, como no caso de Érika Hilton.
“Ocupar o espaço que ela ocupa [Érika Hilton] é um incentivo para acreditar que o espaço público e o espaço do poder público é um espaço para mulheres trans também e que mulheres trans podem representar as mulheres e representar o Brasil”.
Confira trecho no áudio:

O principal desafio, de acordo com a psicóloga, é a disputa por espaço político e social, principalmente com a ascensão de movimentos conservadores, como o chamado “redpill”, e a influência dos algoritmos influenciados por figuras públicas como Elon Musk.
“Essas coisas estão em disputa e o que a gente pode fazer é tentar puxar para um lado de emancipação e não para um lado de opressão”.
Confira trecho no áudio:

Embora seja defendida por alguns como liberdade de expressão, a transfobia ainda configura-se como crime no Brasil. Segundo Gabriela, a combinação entre discursos excludentes, como o feminismo radical, e movimentos conservadores, como redpill, pode intensificar a discriminação e aprofundar divisões já existentes no feminismo e na sociedade.




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