Com atrações internacionais e ativações exclusivas, festival repercute reclamações na 13ª edição 

Luiza Lima

O Lollapalooza, um dos eventos mais esperados pelos fãs de música, aconteceu nos dias 20, 21 e 22 de março de 2026. Com a participação de aproximadamente 285 mil pessoas, o festival de origem estadunidense tem se mostrado cada vez mais adepto da pluralidade musical. 

Nascido da valorização do rock alternativo, o Lollapalooza ganha, a cada ano, mais notoriedade de fãs de outros estilos musicais, como o pop, ao promover shows de artistas mundialmente conhecidos. 

Nomes como Tyler, The Creator, Lorde, Chappell Roan, Deftones e Turnstile ajudaram a atrair públicos com diferentes gostos musicais.

Toda a movimentação do Lolla – incluindo site, campanhas e peças publicitárias – destaca a pluralidade, não apenas de gêneros musicais, mas também de pessoas. “O Lollapalooza Brasil é um festival plural, em que todas as pessoas têm oportunidades iguais e são representadas”, afirma o site oficial do festival. 

No mesmo espaço, o evento também ressalta a valorização de profissionais comprometidos com a realização de um evento acessível: “Temos uma equipe especializada e preparada para atendimento ao público com alguma deficiência ou necessidades especiais

Site do festival com as iniciativas para acessibilidade e inclusão.

A Acessibilidade no Lolla

Nos dias seguintes ao evento, as redes sociais foram palco para relatos de experiências positivas e negativas. Entre eles, destacam-se os depoimentos da influenciadora digital Leticia Fabbri e da educadora parental Mariana Ferreira. 

As duas, pessoas com deficiência, relataram insuficiência de espaços adaptados e de funcionários capacitados para atender às necessidades específicas desse público. O que contraria o posicionamento oficial do festival.

  • O público atendido pelas iniciativas de acessibilidade, segundo site oficial Lollapalooza:

Deficientes auditivos, deficientes físicos, deficientes visuais, gestantes, lactantes, idosos, neurodivergentes, pessoas com comorbidades, pessoas com mobilidade reduzida, pessoas com síndromes variadas e pessoas obesas.

Mais relatos como esse! 

Foi muito pior do que eu esperava. O discurso é de inclusão mas, na prática, falta estrutura, preparo e espaço, declarou Mariana Ferreira. 

O mapa dos palcos disponibilizado indicava instalações voltadas para atender o público PCD e para que esse público tivesse acesso preferencial aos shows. 

No entanto, segundo os relatos, não houve adaptação ou estratégias de locomoção efetivas e ágeis para pessoas com mobilidade reduzida ou com cadeira de rodas, por exemplo, terem acesso ilimitado às atrações. Os shows principais ocorreram no Palco Budweiser, que fica no centro da área do Autódromo de Interlagos. Veja: 

Mapa disponibilizado pela organização do evento.

Sobre isso, Leticia Fabbri afirmou: “O palco da Budweiser foi numa localização extremamente ruim. Foi num lugar que era descida, tinha um morro. O acesso era muito complicado, ainda mais para chegar na plataforma PCD”. 

Leticia Fabbri e Stephanie Marques no primeiro dia de Lolla. Foto: redes sociais.

Com quase 300 mil pessoas presentes, a precariedade da estrutura e do planejamento comprometeu a experiência de quem dependia dos recursos de acessibilidade. 

No show da Sabrina Carpenter, eu tava com o kit livre para chegar até a plataforma PCD, só que tava abarrotado de gente, não tinha como passar”, complementou a influenciadora.

Recursos de Acessibilidade

Embora o festival disponibilizasse recursos de acessibilidade, participantes do evento, como Letícia e Mariana, relataram dificuldades relacionadas ao grande público, ao solo irregular e à localização das áreas adaptadas.

Site do festival com as iniciativas para acessibilidade e inclusão.

O festival exige pré-cadastro obrigatório no site oficial, garantindo meia-entrada para o beneficiário, acesso aos recursos de acessibilidade e direito a um acompanhante. Dessa forma, a empresa organizadora possuía dados quantitativos concretos de ingressos vendidos e pré-cadastros realizados por pessoas com necessidades específicas.

Não era necessário se apegar a estimativas da presença de PCD’s por dia de festival. Ainda assim, segundo Mariana, o espaço reservado era insuficiente: “O espaço acessível [próximo aos palcos e elevado em relação ao solo] comportava por volta de 50 pessoas, o que daria cerca de 0,05% do festival. Isso não é inclusão. Isso é simbólico para falar que segue a lei.

Ela também critica o modelo das plataformas elevadas: “Além disso, para mim, a área elevada deveria ser destinada apenas a cadeirantes e seus acompanhantes, e a área PCD geral não precisaria ser elevada”.

O perfil oficial do festival divulgou recursos de acessibilidade.

A prefeitura de São Paulo ofereceu orientações à organização do evento reforçando a importância de medidas como central de acessibilidade , áreas reservadas, plataformas elevadas, banheiros adaptados e, principalmente, rotas acessíveis. 

Apesar disso, Mariana Ferreira afirma que não havia filas preferenciais bem sinalizadas. “Normalmente, quando você tem que fazer esse pedido [pelo direito de filas preferenciais], se o staff não é hostil com você, as pessoas que estão na fila acabam sendo. Eu não quis me desgastar”, finaliza.

A estrutura milionária do festival poderia, segundo as críticas, prever um espaço reservado para pessoas com deficiência e garantir a ocupação segura do espaço para esse público, assim como ocorre nas áreas de Lounge e Vip.

Sobre a equipe de acolhimento, Mariana também relata experiência negativa com alguns colaboradores. “Uma das pessoas estava falando como autistas de nível mais baixo não deveria ter acesso a essa plataforma e que se passasse uma ressonância magnética nas pessoas que estavam dentro dessa área de acessibilidade não ficaria nem metade” desabafa.

PCD’s no Brasil

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência. O que representa 7,3% da população com dois anos ou mais. 

O levantamento também identificou 2,4 milhões de pessoas com autismo no país. Um número expressivo que exige atenção das organizações dos grandes eventos que pretendem construir um espaço plural.

Fonte: Censo 2022. Luiza Lima/Agência Trilhos.

Com base nesses dados, em um único dia de Lollapalooza, com aproximadamente 100 mil pessoas, cerca de 7 mil podem ter alguma deficiência. 

Mesmo ao reivindicarem seus direitos, pessoas que denunciam falhas na acessibilidade frequentemente enfrentam críticas e ataques nas redes sociais, muitas vezes sem um posicionamento oficial dos organizadores.

A educadora parental Mariana recebeu centenas de comentários negativos após publicar seu relato. “O que me manteve firme foi saber que eu não fiz o vídeo por mim e sim para realmente tentar trazer a atenção para o que nós precisamos nesses lugares, tentar dar voz para esse tema e para todas as pessoas que não tiveram seu direito atendido no evento”, afirmou.

Alguns comentários no vídeo de Mariana criticavam a influencer sobre a real necessidade de precisar de recursos de acessibilidade.

Leticia Fabbri também destacou como seus privilégios como influenciadora digital evitaram que a experiência fosse ainda mais decepcionante. “Eu tenho contato com pessoas da área da acessibilidade. Eu penso: se eu, com esses privilégios, passei pelo o que passei, imagina quem não tem esse suporte”, finaliza.

O recorde de público mostra a relevância do Lollapalooza. No entanto, o compromisso com a inclusão é fundamental para validar o discurso de representatividade e pluralidade.

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