Expansão do nicho no Brasil impulsiona leis de fomento e editais de incentivo à Cultura

Vitória Mendes
O Núcleo de Pesquisa de Teatro Musical – TRAMMA iniciou a produção de Meninas Malvadas – O Musical. Até o dia 03 de abril, os interessados puderam se inscrever e tirar dúvidas sobre a peça nos canais de comunicação do grupo. A montagem é inspirada no filme homônimo e acompanha a história de Cady no ensino médio estadunidense.
A apresentação faz parte do Curso de Prática de Montagem de 2026, que reúne artistas a partir de 16 anos, de todos os gêneros e etnias, com o objetivo de estudar a trama, desenvolver habilidades e, ao final do curso, realizar uma apresentação ao público bauruense. Como curso e núcleo de pesquisa, os participantes não precisam de experiência prévia em nenhuma das áreas de interesse.
Após as inscrições, os alunos têm o contato inicial com o texto, os personagens e o material para conhecer a obra e se preparar para a audição. Nessa etapa, a banca avaliadora estabelece e distribui os papéis de cada aluno, desde os personagens principais até o ensemble.
Após a definição, a montagem terá início. A jornada completa ocorre de abril de 2026 a março de 2027, com ensaios aos domingos de manhã. O valor de investimento é de R$ 180,00 mensais, sem taxa de matrícula.
Metodologia e equipe profissional
Apesar de produzir espetáculos, essa não é a função principal do projeto. Segundo Ryan Braite, Diretor do TRAMMA, o objetivo é proporcionar aos alunos do interior a oportunidade de estudar e vivenciar o processo de criação de um espetáculo de teatro musical com qualidade.
“Esse tipo de formação é muito comum em grandes metrópoles, especialmente no eixo Rio-São Paulo, e trazer essa experiência para o interior é um grande desafio. Ainda assim, acreditamos que é algo justo e necessário, pois artistas do interior também merecem acesso a projetos desse nível”, explicou o diretor.
A equipe do TRAMMA conta com 7 profissionais, entre professores de teatro, dança e canto, além de arquiteto responsável pela cenografia e um membro para publicidade. Hoje, Ryan atua na parte administrativa e acompanha o período de criação com o olhar artístico para alinhar expectativas e ideias entre todos.

Histórico de montagens
O núcleo apresentou o musical Anastasia em 14 de março e reuniu mais de 400 espectadores no Teatro Municipal de Bauru. A peça foi o objeto de estudo do curso de 2025. Já em 2024, High School, O Musical foi o foco. Para Braite, também responsável pela Direção Artística, Anastasia foi o projeto mais desafiador que participou.
“É uma história densa, cheia de detalhes e ambientada em um contexto histórico de época. Como buscamos nos inspirar na montagem oficial, tivemos o desafio de manter uma alta qualidade de apresentação dentro das limitações de uma escola do interior. Ao mesmo tempo, essa experiência nos trouxe muito aprendizado técnico e ampliou nossa rede de contatos para as próximas produções”, relatou.
Com temáticas diferentes, a escolha de Meninas Malvadas marca uma nova etapa para a organização. Clássico dos anos 2000, a produção promete uma montagem de forte impacto visual e com referências à cultura pop nacional, segundo o diretor.

Fomento e impacto econômico
No cenário do teatro no Brasil, em especial do teatro musical, a maior parte das peças produzidas se concentram nas capitais. Cidades interioranas como Bauru, mesmo com uma população de 391 mil habitantes, não recebem espetáculos regularmente, apesar do interesse do público.
Companhias teatrais enfrentam dificuldades em reunir fundos para realizar montagens de alto nível técnico, cenográfico e capacitação do elenco. Muitas utilizam recursos próprios, leis de incentivo e editais de fomento, em nível nacional, municipal e estadual, para cobrir os custos e contribuir para a difusão da arte no território brasileiro.
Em Bauru, há o Programa Municipal de Estímulo à Cultura (PEC), criado pela Lei Municipal nº 5.578 de 2008 e mantido pela Secretaria Municipal de Cultura. Os editais selecionam projetos culturais para fortalecer a identidade local através do incentivo e auxílio financeiro nos valores de R$ 15.650 a R$ 31.300 em 2025.
No âmbito federal, há a Lei Rouanet, que analisa projetos e permite a captação de recursos pelo produtor e a renúncia fiscal do Imposto de Renda (IRPF). Através de análises técnicas, execução e monitoramento constante, projetos de diversas áreas são viabilizados ao redor do país.
Segundo dados do Salic, Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura, R$ 3,44 bilhões foram captados em 2025, o maior número desde 1992, sendo cerca de 885 milhões de reais voltados para as artes cênicas. Deste valor, apresentações e performances de teatro receberam 313 milhões de reais, enquanto teatro musical movimentou mais de 218 milhões de reais.
Com milhares de projetos aprovados, a Lei influenciou e aumentou a movimentação econômica em municípios e estados, ultrapassando os R$ 25,7 bilhões nos últimos 10 anos, segundo o Relatório de Impacto Econômico da Lei Rouanet, organizado pelo Ministério da Cultura e FGV.

Arte e acesso regional
No território bauruense, existem grupos que atuam na expansão do teatro na região. Na última década, o nicho vem sendo mais explorado no município e os membros das companhias relatam sentir o impacto e o maior espaço para desenvolvimento da arte.
A Arte em Cena, produtora artística e escola livre de teatro e teatro musical na cidade, segue o mesmo passo e se prepara para o musical de O Auto da Compadecida, com apresentação prevista para abril. Nos últimos 3 anos, a escola produziu mais de 20 peças e recebe o apoio do público local.
O Teatro Municipal da cidade, após dois anos de reforma, permite a reserva do espaço por meio de aluguel correspondente aos dias de uso e ao valor proporcional das arrecadações. Com aumento na capacidade de pessoas e na qualidade dos equipamentos, se consolida como uma opção viável para a realização de espetáculos.
Além disso, as equipes contam com o apoio de instituições públicas e privadas para o maior alcance do espetáculo. Para Braite, é muito significativo quando empresas locais apoiam iniciativas culturais, pois fortalece a cena artística e mostra que o interior também possui grande valor cultural.
Na visão de Ana Luiza de Oliveira, espectadora assídua de teatro musical, grupos locais facilitam o contato com o teatro. Segundo ela, o acesso às montagens na capital é dificultado pela distância e torna a atuação no interior uma oportunidade para que muitos tenham o primeiro contato com o teatro.
Para ela, assistir espetáculos ao vivo é uma experiência única. “Sou apaixonada por como os artistas se entregam e se desdobram para cantar, atuar e dançar ao mesmo tempo e, ainda assim, fazer tudo muito bem”, revelou a jovem.
Com um retorno positivo do público nas últimas apresentações, o TRAMMA se prepara para uma nova montagem e conta com as inscrições dos alunos no Curso de Prática de Montagem de 2026.
“O TRAMMA nasce de um sonho e do propósito de incentivar artistas locais. Acreditamos que o teatro musical de qualidade em Bauru deve ser valorizado e reconhecido. Meninas Malvadas chega para trazer mais uma vez um espetáculo marcante para nossa cidade. Apoiar e consumir teatro também é uma forma de fortalecer a cultura local”, refletiu Ryan.




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