Com mais de 5 milhões de visualizações, evento “furou a bolha” tanto na internet quanto na vida real

Livia Maria Campesato 

Em 22 de março, na cidade de Mauá (SP), o estúdio The House Tattoo organizou sessões gratuitas de tatuagem para mulheres, com o objetivo de promover uma ação contra o movimento Red Pill

Foram 40 mulheres tatuadas gratuitamente e outras 100 que participaram da ação, elas também fizeram a tatuagem por um valor de R$100,00. Indo além das fronteiras territoriais, as participantes vieram de diferentes cidades para participar da campanha.     

O símbolo escolhido pelos idealizadores foi a borboleta, apontada pelos adeptos ao movimento como uma red flag em mulheres, termo utilizado na internet para representar uma característica negativa. Na visão deles, ter o animal tatuado simboliza uma relação ruim com os pais, não qualificadas para se relacionar e promiscuidade

A ideia partiu do dono do estúdio, Rodrigo Marques, em parceria com o influenciador Pablo Loyo. De início, foram disponibilizadas 30 tatuagens, mas com a demanda, Felipe Gini doou mais dez tatuagens para serem “distribuídas”. Eles também contaram com o apoio das tatuadoras Nádia Marques, Camila Caris e Gabrielle Ferreira.

Reprodução: Pablo Loyo/Instagram

Repercussão na internet

Antes do dia do evento, a divulgação dele já foi realizada por meio das redes sociais, visto o envolvimento de influenciadores na ação. Um vídeo “convite” publicado por Pablo Loyo no Tiktok em 16 de março, ultrapassou dois milhões de visualizações.  

As mulheres que participaram da campanha de vacinação também gravaram conteúdos, uma delas foi a publicitária Drielle Sá. “Eu gravei o evento como um todo, fiz a cobertura sobre o meu olhar, sobre a minha experiência”, relata a moradora de Mauá.

@driellesa

Já tomou sua vacina amiga? 🦋 Rolou uma campanha muito legal contra o movimento Redpill da @house.tattooink. As primeiras 40 mulheres a ir ao estúdio nesse domingo, ganharia uma flash tatoo de borboleta na faixa. Agora estou vacinadissima! #tattoo #butterfly #borboleta #mulheres

♬ som original – Drielle Sá

No ano passado, Drielle começou a gravar conteúdos para o próprio perfil, além das postagens profissionais. “Tenho experiência de trabalho em empresas na área de Marketing e em agências de publicidade, mas sempre nos bastidores”, comenta. 

“Primeiro, eu postei no Instagram. Depois de uns dois dias, eu publiquei no TikTok e alguém postou no Twitter [atual X], eu fiquei sabendo que já tinha mais de 600 mil visualizações lá”, ela detalha. “Eu fiquei muito feliz com toda essa repercussão, acho que a tendência é repercutir mais”, continua. 

Sobre os comentários nas publicações, a publicitária conta que “as mensagens positivas sobressaem as negativas”. “Muita gente até viu o vídeo e falou: ‘Ah, nossa, eu achei que era brincadeira’, ‘não acredito que teve mesmo e eu perdi’ ou ‘caramba, quantas mulheres!’. E as negativas são 100% de homens, para variar”, disse. 

Reprodução: Arquivo Pessoal/Drielle Sá

Movimento Red Pill e o incentivo ao ódio contra mulheres

Uma pesquisa realizada pelo Datasenado revela que 8,8 milhões de brasileiras foram vítimas de algum tipo de violência digital em 2025, o número corresponde a 10% da população feminina de 16 anos ou mais. 

Segundo o estudo, esse tipo de agressão foi normalizada e incentivada pela sociedade, o que afeta o número de denúncias feitas.

De acordo com um mapeamento realizado por Ergon Cugler, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), somente no Telegram, as comunidades virtuais do Brasil produziram mais de 2 milhões de conteúdos anti-woke (movimento internacional contra questões sociais) e anti gênero em um ano.

Esses grupos oferecem “novidades” para os integrantes, como um novo vocabulário, status social e reconhecimento. Eles acabam participando do grupo por conta de memes, vídeos curtos e fóruns de discussão. 

Aos poucos, os jovens se tornam  reprodutores de discursos misóginos e supremacistas disfarçados de liberdade de expressão, conforme apontado pelo estudioso em artigo do Jornal USP.

“Talvez, esses caras não se conformam que estejamos tomando à frente das nossas vidas. Então, eles começam a querer invalidar as mulheres, como pessoas e indivíduos, descredibilizando completamente tudo que fazemos”, fala Drielle sobre o movimento. 

Ela classifica a campanha de vacinação como uma forma de resistir contra a nova onda opressora. 

Vacinação anti Red Pill em Bauru

No último sábado (18/04), o estúdio de tatuagem Vinthage, localizado no Centro de Bauru (SP), reproduziu a ação realizada por Rodrigo Marques e Pablo Loyo. As responsáveis foram Thai Hunzecher e Isabela Lamouche, elas doaram dez tatuagens de borboleta e ofereceram descontos para as mulheres que participaram da campanha. 

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