Dusk Maiden, quadrinho de Ricardo Mango, chegou ao 3º lugar de obras mais acessadas nos últimos 30 dias em plataforma da gigante do mercado editoral japonês
Pedro Domênico
Ler quadrinhos não é novidade no Brasil, clássicos nacionais como ‘Turma da Mônica’ e ‘O Menino Maluquinho’ marcaram gerações e fizeram presença no cotidiano do brasileiro desde os anos 70 e 80. Contudo, a circulação de gibis tem visto ao longo dos últimos anos uma predominância de obras de origem japonesa. Levantamento realizado pela startup Bookinfo constatou que os mangás concentraram cerca de 46,7% das vendas de mercado em 2025.
Origens
A influência da cultura japonesa no território nacional remonta às primeiras imigrações no início do século XX, tão numerosas que tornaram o Brasil o país com o maior número de japoneses fora do Japão (aproximadamente 2 milhões entre nativos e descendentes). Apesar do contato intercultural centenário, a cultura pop japonesa começa a chegar nos anos 60 e a ganhar expressividade nos anos 80, com a popularização dos Tokusatsus (filmes ou séries live-action que fazem forte uso de efeitos especiais) como Godzilla, Jaspion e Ultraman.
Chamada de Estreia do Jaspion e Changeman no Clube da Criança 1988 – Rede Manchete
Sucesso
A principal responsável pela transmissão de películas e animações vindas do oriente à época foi a extinta Rede Manchete, que viu suas apostas atingirem o auge com o lançamento de Cavaleiros do Zodíaco no Brasil. Seu sucesso meteórico foi uma sinalização de que os chamados animes (as animações de origem japonesa)teriam seu espaço na programação da televisão dos brasileiros, levando grandes emissoras (Globo, SBT e Band) a investirem em títulos como Dragon Ball e Pokémon no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000.
Programação da Rede Manchete na estreia dos Cavaleiros do Zodíaco em 1994
Ao mesmo tempo, as editoras JBC e Panini mudaram suas estruturas editoriais para trazerem as obras originais das quais derivaram as animações cada vez mais populares. Desde então, o mercado de quadrinhos japoneses no Brasil já ultrapassou duas décadas e formou leitores que hoje passaram essas influências para suas próprias produções.
O Mangá Brasileiro
Esse é o fenômeno do Mangá brasileiro, gibis que influenciados pelos grandes clássicos da editora, agora incorporam seus estilos narrativos e estéticos para produzirem histórias originais. Dusk Maiden é um desses que tem conquistado leitores no mundo inteiro, tendo uma edição física anunciada pela editora MPEG em julho e tendo negociações firmadas para publicação impressa em edição paquistanesa, como afirmou o editor da obra Pedro Gomes (dono do canal do youtube Narrativando), em vídeo publicado no dia quatro de julho, dois dias após o anúncio da edição brasileira impressa.
Dusk Maiden e Sense Life possuem capítulos disponíveis gratuitamente no site da MangaPlus Creators Japão
O grande destaque dessa geração é Sense Life, mangá brasileiro que, atualmente, ocupa o segundo lugar no mesmo ranking. Em 2025 ele recebeu uma edição física também lançada pela editora MPEG e vendeu logo em seus dois primeiros volumes uma média de 60 mil cópias no Brasil, um volume de vendas tão significativo que o colocaria entre os 10% mais vendidos do mercado japonês.
Perspectivas e Futuro
Fernando Costa, quadrinista e responsável pelo perfil de divulgação de quadrinhos nacionais hqsbrasileiras, analisa o cenário dessas publicações e compartilha expectativas otimistas. “O que a gente tem visto ultimamente é o cada vez mais produções nacionais diversificadas aparecerem. E o público gosta disso! […] Fora Dusk Maiden e Sense Life tem o Hata [Hataaoh] com o Betiger que ta aí na MPEG, o Pirates do Yuri saindo pela NEWPOP. […] Isso só mostra a força criativa que a gente tem para produzir para nós mesmos, e isso é muito bom […] é uma força criativa gigantesca.”
Apesar das expectativas otimistas, a dependência de um único segmento levanta alertas. Carlos Pedroso, fundador e editor-geral do portal de notícias de cultura pop YellowTalk, interpreta os dados sob uma outra ótica. “O discurso otimista costuma dizer que ‘os quadrinhos nunca estiveram tão populares’. Na prática, o que se vê é o oposto: os quadrinhos, enquanto campo diverso, estão perdendo espaço e se fragmentando até virar nicho do nicho. Fora do mangá e de alguns produtos infantis, o restante do setor sobrevive em tiragens pequenas, circulação limitada e visibilidade cada vez menor.”
Conforme escreve em artigo publicado no portal, a expansão dos mangás significa o crescimento de um setor emergente sob um outro que não soube se reinventar e continuar relevante no mercado editorial “Se nada mudar, o futuro não será um mercado de quadrinhos diverso e vibrante, mas um arquipélago de micro-nichos orbitando um único bloco dominante. […] E, nesse cenário, não adianta culpar o mangá. Ele apenas ocupou o espaço que os quadrinhos deixaram vazio.”





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