A importância do jornalismo local, o cenário atual, as dificuldades e oportunidades
Guilherme Siqueira
As sociedades não podem ficar no escuro. Quando pensamos na importância do jornalismo, pensamos em como ele é fundamental para países e continentes. Mas a real importância dele pode estar bem mais próxima, nas unidades básicas das civilizações: cidades, bairros, aldeias, comunidades, na sua rua… A importância da mensagem é dada por aquele que a recebe.
O pesquisador do Projor e jornalista pela Universidade Federal de Santa Catarina, Dubes Sônego, explica que o diferencial entre o jornalismo local para o jornalismo de grande escala: “A grande força do jornalismo local é a possibilidade de produzir uma informação que não é commodity.
As informações de uma cidade grande costumam ser cobertas por diversos jornais e, por vezes, replicadas de forma sensacionalista por outras páginas. O jornalismo local, no entanto, pode cobrir assuntos que o jornalismo da cidade grande não abordará, e “isso tem um valor muito grande”
Dubes explica que embora assistir a um telejornal nacional possa criar a impressão de que a pessoa está informada, isso é uma ilusão, porque uma decisão tomada em Brasília, por exemplo, irá reverberar de forma diferente em várias partes do país.
“Uma lei que libere o aumento do uso de biodiesel no combustível pode ter um efeito positivo na economia de cidades produtoras, gerando aumento de emprego”.
Mas coletar as informações de regiões próximas das pessoas proporciona diversos desafios, de questões éticas, como o relacionamento com o poder público e lideranças locais a questões mais práticas como financiamento, estrutura e logística.
Por mais que o cenário nacional tenha diversas dificuldades a mais que países como os Estados Unidos, país que originou o termo ‘Desertos de Notícias’, a adaptabilidade e resistência de iniciativas brasileiras têm conseguido encontrar alternativas à esses empecilhos.

As Questões Éticas
Começando pelas dificuldades éticas, a primeira delas é definir o que é ou não jornalismo. Para o atlas da notícia há uma separação clara entre sites que divulgam informações variadas mas sem teor jornalístico, como as centenas de páginas na web que surgiram nos últimos anos e veículos jornalísticos organizados.
O que divide essas duas categorias é a produção de conteúdo próprio, não apenas republicação e curadoria, é preciso ter notícias e reportagens autorais. “Por exemplo, um veículo como o Choquei, não se encaixa.” explica Dubes.
Essa separação entre jornalismo e não-jornalismo não se restringe ao debate entre profissionais e amadores. A independência desses veículos em relação a agentes políticos também é bastante relevante.
“A gente também não considera veículos de comunicação, que estão ligados a partidos políticos, aos sindicatos patronais ou de trabalhadores, a partidos políticos, ou a igrejas. Outro vínculo que é eliminatório é a relação com as prefeituras.”
E é claro que essa independência tem um preço, literalmente. O financiamento é de longe o maior problema para os veículos jornalísticos locais. ”Os veículos locais sempre sofreram muito, já quando eram impressos, a questão da possibilidade de depender de anúncios da prefeitura ou anúncios de algumas outras entidades locais os levou a sempre sofrerem mais interferência política em geral” explica o pesquisador.
Se a nível global a crise econômica do jornalismo tem, ano após ano, desidratado as redações a níveis nunca antes vistos, com cortes de centenas de empregos, a nível regional o impacto é muito maior.
A Questão Econômica
O Professor do departamento de jornalismo da Unesp, Universidade Estadual Paulista, Francisco Rolfsen Belda explica a situação. “O jornalismo, sobretudo em âmbito local, atravessa uma crise do seu modelo tradicional de negócio, na medida em que as publicidades migram para as grandes plataformas digitais e, com isso, esses veículos se fragilizam” , explica o professor.
Esse panorama explica os dados sobre os fechamentos de sites de notícias revelados pelo Atlas, fator que afetou significativamente a redução dos desertos pelo país.
“Muitas vezes o fechamento do veículo é justamente o reflexo das dificuldades econômicas de sustentação. Então, os veículos fecham geralmente porque não foram capazes de desenvolver um modelo de negócios fiável naquele contexto em que eles atuam.”

Os problemas financeiros tem muitas origens, uma delas se dá no meio das empresas. Jornalistas são pessoas muito boas em investigar e se comunicar, mas nas universidades, muitas vezes uma habilidade fundamental não é muito desenvolvida, a administração.
Belda aponta questões inerentes à administração dessas empresas: muitas vezes, as organizações jornalísticas são administradas por pessoas sem formação ou experiência adequada.
Por isso, defende a necessidade de os cursos de jornalismo incorporarem disciplinas sobre modelos de negócio, práticas de administração, economia, e conhecimentos burocráticos, jurídicos e de contabilidade, visando preencher a lacuna da formação dos jornalistas em relação aos aspectos econômicos da sua atividade profissional.
O Professor Belda explica que o jornalismo, sobretudo em âmbito local, atravessa uma crise do seu modelo tradicional de negócio, pois as publicidades migram para as plataformas digitais, fragilizando esses veículos. “Muitos veículos jornalísticos, especialmente os online, têm uma vida muito curta.” revela o professor.
É importante notar que os veículos de pequeno porte, em muitas ocasiões, operam sem uma pretensão comercial estritamente voltada ao lucro. Muitas dessas iniciativas, como rádios educativas, comunitárias e emissoras de TV universitárias, buscam uma inserção de base popular.

Essa característica acaba por afastá-las das modalidades tradicionais de financiamento, como a publicidade, o patrocínio e a organização de eventos. Contudo, ao desconsiderarmos esses veículos sem fins lucrativos que orbitam grandes organizações, ainda encontramos iniciativas que visam o lucro e tentam se sustentar por meio de anúncios e, eventualmente, de assinaturas.
Diante da realidade dos desertos de notícias, o professor destaca a possibilidade de implementar políticas públicas que estimulem e deem suporte financeiro para que novas organizações jornalísticas possam prosperar nessas regiões.
Esse fomento pode ocorrer por meio de projetos universitários ou da expansão de veículos regionais vizinhos que decidam ampliar sua cobertura para essas áreas desassistidas. Além disso, o fortalecimento da mídia pública é um caminho viável, seja via redes de rádio e TV educativas ou por agências de comunicação voltadas ao abastecimento local, estabelecendo parcerias estratégicas com indústrias, instituições educacionais e o próprio setor público.
Mas Dubes traz um porém ao financiamento público: “No investimento público, sempre vai ter um calcanhar de Aquiles, que é a possibilidade de influência política.” Essa vulnerabilidade é uma realidade palpável, mesmo em escala nacional, tais interferências ocorrem.
É complexo estabelecer um modelo de excelência e isento comparável ao da BBC, por exemplo. No entanto, mesmo no caso da emissora britânica, surgem relatos frequentes de tentativas governamentais de influenciar sua linha editorial. “Esse embate é uma constante no horizonte do jornalismo” , nota o pesquisador.
Internacionalmente, já se discutiu a produção de notícias como uma “infraestrutura”, um tema que estava em pauta no governo Biden. No entanto, o investimento público nesse setor enfrenta o “calcanhar de Aquiles” da possibilidade de influência política.
Alternativas e sustentabilidade
Para Dubes, a sustentabilidade do jornalismo no futuro depende mais do que encontrar um modelo de negócio viável. Segundo o pesquisador, o setor também enfrenta uma crise de credibilidade e uma disputa crescente pela atenção do público, cada vez mais atraído pela dinâmica das redes sociais. “A gente é viciado na dopamina do celular”, afirma.
Nesse cenário, ele destaca a importância de formar novas gerações interessadas em notícias e fortalecer o letramento midiático da população. Para Dubes, somente com uma base consistente de leitores será possível consolidar audiência suficiente para sustentar iniciativas jornalísticas a longo prazo.
O pesquisador também observa uma tendência de diversificação das fontes de receita e de adaptação dos veículos locais às limitações financeiras. Segundo ele, muitos projetos jornalísticos de pequeno porte têm reduzido custos operacionais ao abandonar sites próprios e concentrar sua atuação em plataformas gratuitas.

“A gente vê alguns abandonando o online”, afirma, referindo-se à manutenção de portais que, mesmo com custos relativamente baixos, podem se tornar inviáveis para redações com orçamento limitado. Nesse contexto, redes sociais como o Instagram ganham espaço por permitirem alcançar grandes públicos sem a necessidade de investimentos significativos em infraestrutura digital.
Belda argumenta que o fechamento de veículos tradicionais frequentemente abre espaço para o surgimento de novas iniciativas jornalísticas, estruturadas a partir de estratégias diferentes das utilizadas por seus predecessores.
Em vez de representar necessariamente o desaparecimento definitivo da cobertura local, esse processo pode indicar uma reorganização do ecossistema de mídia, marcada pela busca de formatos mais adequados às condições atuais do mercado e aos hábitos de consumo de informação da população.
Na avaliação do professor universitário, o jornalismo local atravessa um período de transição, no qual coexistem a crise dos modelos tradicionais e a emergência de novas experiências. “Então, nós vivemos numa espécie de entre safra da atividade jornalística local em muitas localidades”, ele conclui. Uma fase em que antigas organizações deixam de existir enquanto outras começam a ocupar esse espaço com propostas inovadoras e estruturas mais adaptadas ao contexto contemporâneo.
Leia também:
Olhar Interior: Os Desertos de Notícias e as oportunidades para o jornalismo brasileiro – Parte III
Apresentação do Autor
Meu nome é Guilherme Dias Siqueira e sou jornalista em formação pela Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC) da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP).
Este projeto nasceu do interesse em compreender como as desigualdades geográficas influenciam a produção e o acesso ao jornalismo no Brasil, com atenção especial ao estado de São Paulo. A proposta é reunir reportagens multimídia que investigam temas relacionados ao território, à comunicação e ao direito à informação.
A primeira reportagem especial, desenvolvida como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), aborda o fenômeno dos desertos de notícias no Brasil. Dividida em três partes principais, a produção apresenta diferentes perspectivas sobre o tema, combinando dados, entrevistas e recursos multimídia para discutir os desafios e as consequências da ausência de cobertura jornalística em diversas regiões do país.




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