Breno Batista, Clara Camara, Geovana Menussi, Marcela Calarezi e Rodrigo Matias
O Estatuto da Juventude do Brasil, responsável por assegurar os direitos e princípios dessa faixa etária, define a categoria de jovens como aqueles indivíduos com idade entre 15 e 29 anos. A geração Z, formada por pessoas nascidas entre os anos de 1997 e 2010, atinge em 2026 o marco de preencher por completo toda a faixa que representa a juventude no país.
Por ser o primeiro grupo de nativos digitais, esses jovens cresceram em contato com as redes sociais, sendo expostos tanto pelos benefícios quanto pelos malefícios da dinâmica virtual. Agora, no momento de passagem para a vida adulta, seus costumes e valores se chocam com os padrões estabelecidos pelas gerações anteriores.
Para além do estigma de “preguiçosos”, esses jovens também enfrentam contradições. As mudanças nos métodos de trabalho, o contraste de estabelecer conexões na internet e a dificuldade de formar vínculos reais são exemplos disso. Assim, os “zoomers” tentam se adaptar às estruturas sociais ao mesmo tempo em que as transformam.
Consumo de mídia
Conforme as redes foram crescendo, elas se tornaram um mosaico em que o usuário tem acesso a públicos, ritmos, conteúdos, realidades e assuntos distintos. Essa multiplicidade de redes permitiu que a informação chegasse de forma cada vez mais rápida ao público, desconcentrando o fluxo de veículos tradicionais de mídia, como jornais oficiais, emissoras de televisão e rádio, para um sistema mais ágil e participativo. Nesse cenário, a Geração Z passou a ser não apenas mera consumidora, mas também produtora e influenciadora do fluxo de informações.
Sofia Franco Guilherme, jornalista e doutora em Meios e Processos Audiovisuais na ECA-USP, diz que a popularização da internet transformou as modalidades da comunicação. “Uma das principais mudanças que a gente vai ver […] são as mudanças que dizem respeito a uma cultura mais participativa, quando a gente fala principalmente do comportamento do público”, diz.
“A produção já não fica mais tão presa àquelas instituições de referência mais tradicionais, grandes empresas de comunicação. Elas continuam existindo, mas vão se reconfigurar nesse processo”, completa. Ela afirma que a partir desse momento, também existe um outro tipo de produtor que está fora dessa centralidade, que pode participar de forma mais ativa desse circuito cultural e da comunicação.
Excesso de estímulos e consequências
No cenário atual das redes sociais, o conteúdo é fragmentado em vídeos curtos, as narrativas são compartilhadas por criadores de conteúdo e as redes contém excesso de estímulos. O contato constante da Gen Z com as telas e as mídias digitais desde a infância, fez com que esse grupo passasse a ser mais dependente das telas.
O Relatório Global de Atualização Semestral da Digital 2026, publicado em parceria entre a We Are Social e a Manochi, constata que o tempo médio de tela entre pessoas de 16 a 30 anos passa cerca de 7 horas por dia online.

Os estímulos visuais e auditivos contidos nas redes são os responsáveis por desenvolver essa dependência a partir do momento em que liberam a dopamina no cérebro, hormônio responsável por causar sensações de prazer e satisfação. A facilidade de alcançar esses sentimentos ao simplesmente rolar o feed incessantemente contribuiu para o desenvolvimento do vício nos jovens.
Mari Galindo, fundadora e CEO da Nice House e autora do livro “Gen Z: A Geração Não Óbvia”, explica que as empresas que comandam as redes investem na criação de mecanismos de retenção para manter o usuário online, de forma quase que viciante.
“Cria-se toda uma mecânica que segura a pessoa que, de certa forma, vicia ela naquilo e depois você culpa o usuário por isso. Hoje as pessoas falam ‘ah, o meu filho passa muito tempo no Tik Tok’, mas dificilmente você vê pessoas falando ‘o Tik Tok fez com que o meu filho passasse muito tempo nele’”, relata.
A expressão “dopamina barata” explica bem esse fenômeno. Ela se refere ao sentimento de prazer adquirido de forma imediata e fácil obtido por meio de atividades que exigem pouco esforço físico e/ou mental.
Essa recompensa imediata por meio de estímulos excessivos e um design projetado para uma rolagem infinita colabora para um cansaço mental com diminuição da capacidade de atenção, queda de motivação, e substituição de interações sociais.
Sobre a fragmentação da atenção, Galindo destaca que antes das redes sociais e dos conteúdos curtos, existiu um processo de digitalização da vida. Esse processo, por sua vez, gerou um bombardeamento de informações, predispondo a geração Z aos problemas de foco.
“As gerações anteriores, principalmente a geração X e os millenials, foram os principais responsáveis pela pela digitalização praticamente da vida. O banco está no celular, a comida está no celular, pedir carro está no celular, assistir aula, trabalhar, consumir conteúdo, enfim, houve toda essa centralização dentro do smartphone”, conta.
De acordo com Fernanda Elouise Budag, doutora em Comunicação, professora da FECAP e do POSCOM UFSM, acredita que um fenômeno social e/ou comunicacional nunca é simples, linear e unilateral, mas sim multifatorial.
“Penso que o TikTok encontra um terreno já fértil para seus vídeos porque já tem um perfil de juventude com essa atenção já reduzida – em função de um processo de digitalização da vida que é anterior ao TikTok. Mas o TikTok pode acabar, sim, por alimentar ainda mais esse perfil, esses hábitos e essa percepção acelerada e atenção reduzida”, afirma Fernanda.
Ela ainda diz que a sociedade e a tecnologia estão sempre em processo e se retroalimentam. “Não é somente a sociedade que altera a tecnologia e não é somente a tecnologia que altera a sociedade”, constata.
O cansaço mental em questão está relacionado à fadiga cognitiva e à dificuldade de foco, que está ligada à ascensão de vídeos curtos nas plataformas, de 30 segundos a 1 minuto, geralmente. Foi por meio desse tipo de conteúdo e da dependência em telas que nasceram expressões como doomscrolling e bedrotting, que descrevem ações realizadas pelos usuários que refletem o vício citado anteriormente.

Enquanto doomscrolling se refere ao ato compulsivo de rolar a tela sem absorver nada do que está sendo exposto, bedrotting – ou “apodrecer na cama” em português – é a atividade de passar tempo acordado na cama, comendo, usando o celular sem levantar para realizar nenhuma outra tarefa. Muitas vezes confundidas com descanso, essas práticas substituem o que deveria ser um momento para recuperar as energias, criando um ciclo de rolagem infinita.
Eduardo Campos Pellanda, professor Titular e membro do programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS, diz que as informações que as redes sociais oferecem surgem de forma muito rápida e que, por conta disso, as pessoas não conseguem absorvê-las na mesma intensidade.
“Muitas vezes a gente acaba fazendo vários tipos de consumos paralelos. Enquanto estou vendo uma rede aqui, já estou chegando a uma mensagem de um outro amigo no WhatsApp. Então, é muita coisa paralela e nosso cérebro não consegue realmente processar por uma defesa do próprio cérebro, que acaba expelindo aquela informação”, explica. O professor afirma que esse consumo é viciante e realizado de maneira robótica.
Como as redes afetaram as relações sociais?
O uso contínuo e frequente das redes sociais moldou o comportamento e formou a identidade e as opiniões da Geração Z. Por crescerem em meio a esse contato, esse grupo se tornou dependente da internet, onde tudo tem de ser esteticamente bonito para caber em um story, com uma busca constante por validação e pertencimento por meio de seguidores, curtidas e compartilhamentos.
Essa busca incessante e exposição a padrões estéticos, na maioria das vezes inalcançáveis, tornou as redes sociais um espaço de julgamento e análise, o que causa problemas de autoestima, confiança e autocrítica e, até mesmo, desenvolvimento de transtornos psicológicos como depressão e ansiedade, por exemplo.
A fundadora da Nice House explica a diferença entre o ambiente de desenvolvimento das relações da Geração Z para as anteriores. A autora afirma que “existe essa extensão de que o mundo habitual da geração Z é uma coisa só, o on e o off, e eu acredito que por conta dos eventos globais que essa geração foi impactada, principalmente a pandemia, também se tornou uma geração mais reclusa, que tem tido alguns desafios de se conectar externamente, de ampliar as relações que ela tem. […] é o mundo no qual cresceu”.
“Nos grandes centros, [existe a questão] do aumento da violência, de feminicídio, então nesse ambiente, mal e mal na sua casa você se sente seguro, e o digital aparece como essa possibilidade de se expandir sem se expor. […] o ambiente e o contexto no qual essa geração tem se desenvolvido faz com que ela tenha diferentes tipos de relações.”, completa.
Para além dessas adversidades, os espaços virtuais trouxeram a possibilidade de uma comunicação mais fácil e ágil. No entanto, há uma certa ironia contida nessa facilidade à medida em que a comunicação virtual também pode causar dificuldades nas relações sociais.
Em um mundo pós-pandêmico, as pessoas passaram a preferir manter relações sociais por meio de uma tela a criarem conexões na realidade que os cerca. Depois de um longo período em que os indivíduos foram obrigados a manter suas relações sociais apenas através de uma tela, é perceptível que essa rotina ocasionou certa dificuldade em manter relações no mundo real.
A Geração Z passou a preferir manter relacionamentos no mundo digital, pela facilidade que esse universo oferece, ao criar a possibilidade de apenas desligar a tela para evitar um assunto, não manter uma conversa “olho no olho”, ter tempo para pensar antes de responder algo, por exemplo. Tudo isso contribui para que não haja desenvolvimento de ferramentas sociais por parte desses jovens.

Fernanda confirma a facilidade integrada na pandemia do Covid-19, por conta da digitalização da vida. “Para os que tiveram o privilégio de trabalhar de casa, a partir do momento que se retirou os deslocamentos pela cidade, por exemplo, otimizou-se o tempo de reuniões, porque a gente poderia marcar mais reuniões seguidas pois não se precisa mais ir de um lugar ao outro, basta abrir e fechar uma aba do navegador rapidamente”, afirmou.
A dificuldade de manter as relações na realidade fora da internet torna esse grupo mais recluso ao mundo desvirtualizado, o que ocasiona outros problemas como sedentarismo, isolamento social e transtornos psicológicos como ansiedade e depressão, citados anteriormente. O usuário evita essas situações em que precisa interagir socialmente.
Exaustão e o movimento analógico como resposta
Apesar da pandemia ter tornado a Geração Z mais reclusa, com o tempo, eles passaram a perceber os riscos da superexposição, da permanência de registros e dos ataques virtuais. Em uma atitude de rejeição e exaustão por conta dos riscos e dos estímulos trazidos pelas redes sociais, essa geração, por ser em grande parte afetada por esses problemas, se tornou precursora do movimento analógico, que prioriza relações reais e atividades fora das telas.
Esse movimento foi responsável por levar a Gen Z de volta aos cinemas, por exemplo. Pelo esgotamento das redes e do virtual, os jovens passaram a enxergar o cinema como uma experiência social, priorizando esse programa ao assistir filmes pelos streamings.
Além disso, neste ano foi criada uma trend chamada “bolsa analógica”, na qual o usuário montava uma bolsa com atividades como livros, cadernos de desenho, agulha e linha de crochê ou tricô, para realizar ao invés de mexer no celular em meio a tempos de espera ou descanso.
Segundo Budag, é fato que o digital e as telas geram exaustão. “Há pesquisas realizadas, por exemplo, durante e após a emergência da pandemia de Covid-19 entre nos anos de 2020 e 2022, quando a vida de grande parcela da população ficou bastante digitalizada, que trazem evidências sobre essa exaustão”, conta a doutora.
Ela também destaca a melhora de desempenho, atenção e saúde mental dos estudantes após a proibição dos celulares nas escolas. “Cruzando esses fatos, temos que essa adoção de um comportamento ‘off-line’ é de fato uma saída para essa exaustão das telas. Se é somente uma modinha ou se é uma tomada de consciência mais permanente, somente o futuro dirá. A adoção de hábitos fora do digital traz o benefício de recuperar uma temporalidade mais lenta ou mesmo de restaurar ritualidades que foram se perdendo no cotidiano com a velocidade de práticas digitais”, completa.
Em meio à ascensão da internet e das redes, ficou cada vez mais difícil para a Geração Z distinguir o mundo virtual da realidade. O consumo de mídia é algo que cresceu e se desenvolveu junto a esse grupo e apresenta cada vez mais chances de afetar as gerações futuras.
Geração Z e o trabalho
A geração Z não apenas chegou ao mundo corporativo, como já ocupa cerca de um quarto dos postos de trabalho mundiais. Moldados pelas novidades tecnológicas e as transformações culturais, o primeiro grupo de nativos digitais apresenta uma nova perspectiva dos valores da atividade profissional e trazem duas importantes questões:
Como a geração Z se relaciona com o trabalho e quais os impactos disso?
Por ser a primeira geração a ter nascido no meio digital, a gen Z está familiarizada a lidar com muitos estímulos ao mesmo tempo. Além disso, desde cedo, seus integrantes se mostram mais conectados entre si, devido à facilidade ao acesso a informações.
Outro aspecto geracional importante é a prioridade que o grupo dá às pautas de diversidade. Segundo o estudo “Geração Z e o Mercado de Trabalho”, realizado pela pesquisadora da Unifesp, Bruna Dias (que busca identificar produções que explicam a geração Z e a sua relação com o mundo de trabalho), os zoomers, comparados com as outras gerações, são o grupo mais interessado nas discussões sobre direitos humanos, LGBTQIAPN+, raça e etnia e feminismo.
Essas são características que podem expor como a dinâmica desse grupo pode mudar o paradigma das relações trabalhistas.
Essa soma de comportamentos ocorre paralelamente a um importante elemento educacional: nunca antes no Brasil uma geração foi tão escolarizada quanto a geração Z. Entretanto, esse dado não garante que essa possibilidade de mais jovens com diplomas se reflita em melhores ganhos de qualidade no trabalho.
Qual é o papel do trabalho na vida da geração Z?
Durante boa parte do século XX, o sucesso do trabalho foi relacionado à estabilidade e segurança financeira adquirida após décadas na mesma empresa. O emprego não era visto como uma fonte de realização pessoal ou de aprendizagem, mas apenas como algo essencial para a sobrevivência.
No entanto, a busca da geração Z está menos ligada à estabilidade e mais à possibilidades de propósito e desenvolvimento. Não que a gen Z não seja motivada por fatores como crescimento profissional e valorização salarial, porém, de acordo com o estudo “Valores da Geração Z no Trabalho”, da Universidade Federal de Ouro Preto, os membros da geração Z prezam por trabalhar em organizações com valores compatíveis a seus princípios e que estejam dispostas a ouvirem suas ideias.

Acrescentando um outro ponto ao debate, a psicóloga do trabalho e professora da Universidade de Brasília (UnB), Ana Bezerra, desconstrói a ideia de que essa relação (de escolher o emprego pelo propósito) da geração Z seja um “comportamento voluntário”.
“Essa dinâmica é imposta pelo mercado corporativo. Com o avanço do neoliberalismo a partir dos anos 1990, as corporações passaram a cortar salários altos de profissionais experientes e a substituir contratações formais (CLT) pelo modelo de contratação por projeto/PJ e terceirização. Para as empresas, o vínculo prolongado “custa caro”. A Geração Z, portanto, ‘já nasceu sem direitos’ e foi empurrada para a instabilidade”
Ana Bezerra
As relações que a Geração Z tem com o trabalho podem se alterar de acordo com a condição socioeconômica dos jovens?
Essa imposição do mercado de trabalho não atinge a juventude de forma homogênea. Por ser marcada por diferentes vivências, desigualdades de classe, gênero e raça, a experiência da gen Z se apresenta como heterogênea.
A narrativa midiática de priorizar o “propósito” na frente do salário parece estar restrita aos jovens de classe média e alta. Do outro lado da balança, os jovens de famílias mais pobres seguem tendo como prioridade a renda imediata e a estabilidade financeira.
Os jovens de melhor condição financeira e com acesso ao ensino superior conseguem com mais facilidade oportunidades profissionais, como estágios. Por outro lado, para a camada mais vulnerável da geração Z, essa realidade é mais complicada, pois a necessidade de trabalhar precocemente leva à interrupção dos estudos.
Segundo dados da pesquisa lançada pela Rede EJA e Inclusão Produtiva, o jovem com mais de 15 anos e fora da escola enfrenta um intervalo médio de 17 meses até conseguir o primeiro emprego formal. Além disso, o estudo também mostra que quando o jovem finalmente consegue o primeiro emprego formal, este dura, em média, apenas de 8 a 9 meses.

O pesquisador da área de educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Caíque Oliveira, reforça que o discurso de “propósito” é um privilégio de poucos.
“A escolha do trabalho baseada nos valores da empresa é restrito a uma juventude branca, de classe média com com um bom acesso educacional. O jovem negro que trabalha de Uber, por exemplo, não tá preocupado com os valores da empresa. Ele está escolhendo o trabalho por uma questão de necessidade”
Caíque Oliveira
Contrariando a ideia de que os jovens estariam “podendo escolher seus empregos”, Caíque Oliveira cita o dado de “desalentados” no Brasil. Segundo pesquisa do IBGE realizada no dia 14/08 de 2026, essa condição atinge 2,3 milhões de brasileiros. “O desalento acontece quando o jovem, após várias tentativas de procurar emprego e não conseguir achar, desiste da busca”, explica o pesquisador.
Quais as principais diferenças na relação com o trabalho entre a Geração Z e as gerações anteriores?
Cada geração tem a sua identidade moldada pelos contextos históricos e sociais de sua época. A entrada no mundo do trabalho também faz parte desses conjuntos que definem a identidade da geração.
A principal diferença entre os zoomers e seus antecedentes, para o pesquisador Caíque Oliveira, está na idade em que o trabalho entra na vida das pessoas. “Nas gerações anteriores, o início da vida laboral sempre foi muito cedo. Então os país e avós da geração Z já chegavam aos 20 anos de idade com anos de trabalho”, comenta.
Para o pesquisador, a entrada tardia da geração Z no mundo corporativo se dá por um processo de alargamento da juventude: “A geração Z tem passado mais tempo estudando e entrando no mercado de trabalho mais tarde, às vezes depois dos 20 anos. Isso era impensável nas gerações anteriores. Foi criada uma ideia de alargamento da juventude, que antes acabava aos 20 e agora acaba aos 30”, realça Caíque Oliveira.
Outra diferença marcante entre as gerações é a relação com hierarquias diretas. Segundo artigo publicado na Revista Foco, “Geração Z no Mercado de Trabalho”, a gen Z possui maior intolerância a líderes autoritários e a seguir hierarquias. No entanto, com o aumento do número de jovens que trabalham em aplicativos, revela-se que o problema não está em hierarquias ou estruturas rígidas, mas sim em seguir um chefe diretamente.
“Para muitos jovens, encontrar trabalhos em que eles podem fazer o próprio horário, e trabalhar para um algoritmo ao invés de uma pessoa, pode trazer uma suposta liberdade que as gerações anteriores não tiveram. Mas ao mesmo tempo é uma liberdade muito relativa, porque apesar de fazer o seu horário, você não tem 13° e é você quem se responsabiliza por danos. Então a geração Z acaba lidando com essa contradição de ter uma liberdade ao mesmo tempo de ter uma precarização significativa no trabalho”
Caíque Oliveira

A geração Z é preguiçosa?
A geração Z é frequentemente associada ao estigma de preguiçosa e pouco comprometida por membros de gerações mais antigas. Esse rótulo está ligado ao fato dos zoomers expressarem um cuidado maior com condições precárias de trabalho e problemáticas de saúde mental, o que não os isenta de passar por essas barreiras durante a trajetória corporativa.
Para a professora Ana Bezerra, essa estigmatização esconde uma lógica de exaustão. “Esse discurso de “preguiça” é uma forma de individualizar a questão e de culpabilizar o jovem e toda uma geração. Enquanto essa narrativa é disseminada, o trabalhador passa a se sentir envergonhado e culpado por não conseguir cumprir as suas demandas”, destaca.
A geração Z também encontra uma dificuldade relacionada com a plataformização, uma modalidade de trabalho que não existia nas gerações anteriores. Nessa lógica, o trabalhador não corresponde à um chefe, mas sim a um algoritmo, o que torna a jornada mais cansativa do que a maioria dos CLTs, como esclarece Caíque Oliveira.
“Falar que a geração é preguiçosa é um absurdo. Vivemos em uma época em que todo mundo está trabalhando muito, até por isso vemos mais diagnósticos de problemas de saúde mental. Mas o jovem, sobretudo, é maioria nos trabalhos plataformizados e se encontra conectado quase que 24h por dia no trabalho, tendo que cumprir metas desumanas para adquirir uma renda mínima”,
Caíque Oliveira
Dessa forma, a gen Z expõe seus costumes e demandas que muitas vezes são conflitantes. Por um lado, busca por maior flexibilidade e bem-estar durante o trabalho. Do outro, esbarra em obstáculos da desigualdade que transformam a escolha de carreira baseada em propósito e desenvolvimento em um privilégio de uma parcela com maior renda.
Assim, as partes minoritárias da sociedade seguem tendo que “se virar” em trabalhos informais, e agora plataformizados, para sobreviver, enquanto são criticados e estigmatizados como preguiçosos por aqueles que recebem seus serviços.
Relacionamento
A Geração Z transformou as dinâmicas afetivas. Se por um lado os aplicativos de relacionamento expandiram as possibilidades de encontros, por outro, criaram um ambiente onde os jovens se sentem cada vez mais isolados. Estudos sobre comportamento jovem revelam que, apesar de estarem conectados 24 horas por dia, mais da metade dos Zoomers relata sentimentos frequentes de solidão.
O estudo Vitality in America de 2023 da empresa norte-americana The Cigna Group, responsável por diversas pesquisas deste gênero, constatou que a geração Z é a mais solitária dos últimos tempos. os 71% dos jovens afirmam sentir solidão, 57% sentem falta de companheirismo e 36% afirmam sentir que pertencem à própria comunidade.
Essa ambiguidade reflete-se na preferência por interações mediadas por telas em vez do “olho no olho”. O ambiente digital funciona como um escudo protetor contra a vulnerabilidade imediata. Atrás de uma tela, o jovem se sente seguro: ele pode editar a resposta, pensar com calma no que vai dizer e simplesmente fechar o aplicativo se a conversa ficar desconfortável. O flerte no mundo real exige uma exposição emocional e uma leitura de linguagem corporal para as quais muitos não foram treinados.
Esse comportamento alimenta fenômenos comuns na internet, como o ghosting – o ato de sumir e parar de responder sem dar explicações. Também deu força aos relacionamentos sem rótulos, cada vez mais fazendo com que as pessoas não assumam relacionamentos e tenham receio de compromissos e relacionamentos fechados.
Essa falta de compromisso oficial minimiza o risco de rejeição imediata, mas gera instabilidade emocional e uma busca ansiosa por validação de todos ao seu redor.
Os estímulos em excesso causados pelas redes sociais também podem ser observados quando os relacionamentos se findam, a maioria dos jovens afirmam bloquear seus antigos parceiros nas redes ou até mesmo continuar acompanhando as publicações dos mesmos, ainda que o contato direto tenha acabado.
A maioria dos relacionamentos atuais terminam por conta de traições e/ou ciúmes excessivos, acompanhados pelas redes sociais e aparelhos eletrônicos dos namorados, seja monitorando as redes ou aparelhos, conversas com conhecidos ou até o uso de aplicativos de namoro.
O estudo “Why Did It End? Breakup Reasons of Youth of Different Gender, Dating Stages, and Ages” aponta problemas de intimidade como um dos principais fatores de término, o sentimento de que seu parceiro não é mais compatível e a insegurança que essa junção de fatores traz à pessoa.
Relacionamento a distância
Com mais acesso à tecnologia, se conectar com diferentes pessoas independente da distância se tornou cada vez mais fácil, os relacionamentos online se tornaram cada vez mais comuns, com diferentes aplicativos que permitem que as pessoas fiquem mais conectadas.
Sites que permitem assistir a filmes simultaneamente independente da distância, escutar a mesma música juntos, e sentir-se próximos só se tornou possível com a tecnologia. Este sentimento de estar acompanhado, mas sozinho tornou mais presente a sensação de solidão acompanhada, por mais que alguém responda a suas mensagens e reaja aos seus comentários você permanece sozinho no mundo longe das telas.
A maioria dos Zoomers afirma que já esteve em um relacionamento a distância e grande parte da comunicação era feita por meio de ligações e mensagens, quanto mais frequentes mais satisfeitos e seguros eles se sentiam no relacionamento, pelo sentimento de fazer parte da vida do outro mesmo que não podendo estar do lado a todo tempo.
No estudo A vivência de relações amorosas à distância: desafios e oportunidades à construção da vinculação em jovens adultos Zoomers passam por uma pesquisa sobre seus relacionamentos a distância, situações do dia a dia e suas características próprias, a forma como mantém contato e se comunicam.
Se pode observar como diferentes momentos da vida influenciam no relacionamento e causam dificuldades na comunicação, um dos participantes da pesquisa relata “Pensava que ia ser pior, mas até conseguimos conciliar as coisas. Falamos todos os dias e às vezes fazemos videochamada.”
Como o casal decide manter contato faz diferença, a forma como o relacionamento se desenrola, isso fica claro neste estudo, graças a naturalidade que a Geração Z tem em manter contato pelas redes sociais o relacionamento se torna de certa forma natural por mais que ainda exista cobrança.
Graças ao costume de estar sempre conectado com o celular em mãos, a todo momento se pode receber e responder mensagens, o que faz a cobrança para que se esteja em contato com a outra pessoa a todo momento ser maior, o que gera diferentes conflitos no relacionamento.
A partir disto, se observa uma geração mais ansiosa, a todo momento observadas e na obrigação de prestar algum tipo de satisfação a alguém, o fardo de estar conectado a todo momento se tornou sufocante.









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