Júlia França
Nos últimos dois meses, terremotos de grande magnitude atingiram diferentes partes do mundo e chamaram a atenção pela força dos tremores e pelos impactos provocados. Venezuela, Japão, Colômbia e Indonésia registraram abalos superiores a 7,0 de magnitude, alimentando a impressão de que a Terra estaria atravessando um período de “estresse”.
A sequência de eventos, porém, não significa que os terremotos estejam acontecendo em maior número. Em entrevista para a Agência Trilhos, Marcelo Belentani de Bianchi, professor do Centro de Sismologia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), a ocorrência de terremotos de grande magnitude segue uma taxa relativamente estável ao longo dos anos.
“Da ordem de magnitude 7, do meio de 2025 até a metade deste ano, foram 16 terremotos. Se a gente olhar o mesmo período em 2024, foram 12. Em 2023, foram 9. Parecia que eles estavam subindo, né? Mas, se você olhar 2022, tiveram 21 terremotos. Em 2021 e 2020, foram 14. Então, quer dizer, em média é esse número: você vai ter de 10 a 15 terremotos dessa magnitude por ano”, explica o pesquisador.
Sequência que chama atenção
Em 24 de junho, dois terremotos atingiram a Venezuela, com magnitudes de 7,2 e 7,5. Pouco mais de um mês depois, em 28 de julho, o Japão registrou um tremor de magnitude 7,1.
Na Colômbia, um terremoto de magnitude 7,4 ocorreu em 10 de agosto e deixou 294 mortos, segundo os dados utilizados nesta reportagem. Cinco dias depois, em 15 de agosto, um terremoto de magnitude 7,7 atingiu a Indonésia, deixando 52 mortos e cerca de 5 mil pessoas desabrigadas.

A sucessão de notícias sobre terremotos em diferentes regiões pode criar a sensação de que os abalos estão se tornando mais frequentes. Para Bianchi, entretanto, parte dessa percepção está relacionada à visibilidade dos eventos.
Terremotos que acontecem próximos a cidades densamente povoadas tendem a provocar mais mortes, danos materiais e imagens de grande impacto. Como consequência, também recebem maior cobertura jornalística e circulação nas redes sociais.
Além disso, terremotos de diferentes magnitudes acontecem diariamente. O Centro Nacional de Informações sobre Terremotos dos Estados Unidos estima que cerca de 20 mil terremotos sejam registrados no mundo a cada ano, uma média de aproximadamente 55 tremores por dia.
O que é a magnitude de um terremoto?
A Escala Richter é uma escala logarítmica. Isso significa que a magnitude 7 é dez vezes maior que a 6,0, cem vezes maior que a 5,0, mil vezes maior que a 4,0, etc. Essa escala avalia os terremotos de acordo com a energia liberada ou, mais precisamente, de acordo com a amplitude das ondas sísmicas que eles provocam
Por que os terremotos acontecem?
Embora a superfície da Terra pareça estável, o interior do planeta é marcado pelo movimento constante das placas tectônicas. Essas enormes estruturas rochosas se movimentam lentamente e podem se chocar, afastar-se ou deslizar umas em relação às outras.
Na maioria das vezes, esses movimentos não são percebidos pelas pessoas. Em determinadas situações, porém, a movimentação das placas provoca o acúmulo de tensão nas rochas. Quando essa tensão é liberada, a energia se propaga na forma de ondas sísmicas, provocando um terremoto.
A intensidade dos impactos depende de diversos fatores, como a magnitude do tremor, a profundidade do terremoto, a distância em relação às áreas habitadas e as características das construções.
Brasil
Ao contrário do que muitas vezes é ensinado na escola, o Brasil não está livre de terremotos. O país está localizado no interior da Placa Sul-Americana, distante das regiões de encontro entre placas tectônicas, onde ocorre grande parte dos terremotos mais intensos do planeta.
Essa posição faz com que o Brasil registre, em geral, tremores de menor intensidade. Ainda assim, abalos sísmicos acontecem no território nacional.

Em janeiro de 1955, um terremoto de magnitude 6,6 foi registrado em Mato Grosso. O tremor ocorreu em uma região pouco habitada e não provocou mortes nem danos materiais significativos.
No mesmo ano, Vitória, no Espírito Santo, registrou um terremoto de magnitude 6,3. O tremor assustou a população e fez com que construções balançassem, mas não há registro de mortos ou feridos relacionados ao episódio.
Também há registros de atividade sísmica em municípios do interior paulista. Taquaritinga, por exemplo, registrou tremores em diferentes anos. Em 26 de fevereiro de 2016, um abalo de magnitude 2,1 foi detectado na cidade. Outro tremor ocorreu em 8 de fevereiro de 2017, enquanto um evento de magnitude semelhante havia sido observado em 2010.
A atividade sísmica também foi registrada no dia do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015. Na ocasião, quatro tremores foram registrados na região. O mais forte alcançou magnitude 2,6 e ocorreu a cerca de cinco quilômetros da barragem.
Apesar da proximidade temporal e geográfica entre os fenômenos, a então chefe do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB), Mônica Von Huelsen, descartou que os tremores tivessem causado o rompimento da barragem.
Rede Sismográfica Brasileira
O acompanhamento da atividade sísmica brasileira é realizado pela Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), formada por instituições com atuação na área de Sismologia, entre elas a USP, a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e o Observatório Nacional.
As estações sismológicas enviam dados às instituições em tempo real, por meio de internet e satélites. Essas informações são analisadas para identificar e acompanhar os tremores que acontecem no território brasileiro.
Os dados produzidos pela rede são utilizados por órgãos públicos, empresas e pela sociedade para compreender a atividade sísmica, auxiliar na avaliação de riscos e evitar a disseminação de informações equivocadas sobre os eventos.
Desde 2008, mais de 90 estações sismológicas foram instaladas no país, com apoio inicial da Petrobras e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).De acordo com Bianchi as estações possuem sensores que são presos no chão e medem o movimento do solo.
“Ele vai medir pessoas tanto pessoas andando em volta dele, quanto caminhões passando. Mas ele também mede as ondas de terremoto, né? Eles são bastante sensíveis, toda vez que o solo sobe, desce ou mexe para alguma direção, ele indica para a gente e faz meio que um gráfico disso.” O sismológico detalha que o gráfico assemelha-se a de um eletrocardiograma e completa:
“Monitoramos esses dados por meio de algoritmos que processam as informações e nos fornecem a localização, a data e a magnitude dos terremotos. Dessa forma, conseguimos elaborar estimativas precisas sobre esses fenômenos.”





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