Fernanda Sampaio, Guilherme Barbeito, João Provasi e João Pedro Coelho
Em 2016, o então Secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, anunciou uma medida que proibia a presença de torcidas rivais em clássicos do futebol paulista após cenas de violência entre torcedores de Palmeiras e Corinthians.
São Paulo é o berço do futebol no Brasil. O esporte chegou ao estado ainda no século XIX e logo conquistou fãs ao longo do século seguinte. Milhões de pessoas formaram comunidades unidas pelo propósito de torcerem para seu time e separadas por rivalidades que atravessam gerações.
Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos, construíram, ao longo das décadas, uma relação marcada por clássicos, enfrentamentos e tensões que fundamentam a história e a cultura do futebol paulista.
Essas rivalidades, no entanto, não ficaram apenas dentro das quatro linhas. Em diversos momentos, a rivalidade deixou de ser apenas parte do espetáculo e passou a alimentar ciclos de ódio e violência que resultaram na morte de pessoas envolvidas ou não com o esporte.
Com o surgimento das torcidas organizadas, entre a década de 70 e 80, essas disputas contra rivais esportivos ganharam caráter de demonstração de força, virilidade e conquista de território. As arquibancadas deram lugar às ruas, estações de trem e metrô passaram a fazer parte dos territórios de disputa e as emboscadas se tornaram recorrentes. Mortes e vinganças sucessivas ajudaram a consolidar uma cultura de rivalidade que atravessou os anos 1980, 1990 e 2000.
A história da violência entre as torcidas no futebol paulista
Rivais desde a década de 1920, Palmeiras e Corinthians protagonizaram a primeira grande confusão entre torcidas no estado de São Paulo, em 1973, ainda sem o envolvimento de torcidas organizadas. Em um dérbi realizado no Parque Antártica, estádio palmeirense, não havia sequer separação entre as torcidas.
O estopim foi a revolta da torcida alviverde com a arbitragem, que anulou dois gols do time da casa. Os protestos se transformaram em uma confusão generalizada que tomou as arquibancadas e as ruas do entorno do estádio.
Entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, uma nova geração de torcedores surgiram e as organizadas passaram a dominar as arquibancadas. O sentimento de rivalidade pacífica deu lugar à disputa por “supremacia de território” e demonstração de virilidade. As brigas começaram a migrar para as estações de trem e metrô, que serviam de rotas de deslocamento para os estádios. Os confrontos deixaram de ser discussões casuais e passaram a envolver aos poucos o uso de armas brancas (como pedaços de madeira e barras de ferro).
Em 1983, horas antes de um clássico Majestoso, entre Corinthians e São Paulo, membros da Gaviões da Fiel armaram uma emboscada dentro e nos arredores da Estação da Luz para interceptar os vagões que traziam os são-paulinos da Zona Norte.
A primeira morte oficial decorrente de um confronto entre torcidas organizadas no estado aconteceu em 1988. A vítima foi Cleofas Sóstenes Dantas da Silva, conhecido como Cléo, um dos fundadores e então presidente da Mancha Verde, assassinado a tiros em uma emboscada. Esse crime gerou um ciclo ininterrupto de vinganças que se estendeu pelos anos 1990 e moldou o cenário violento dos próximos anos.
Cinco anos após a morte de Cléo, ocorreu a primeira morte causada dentro de um estádio no Brasil. Durante um clássico Majestoso no Pacaembu, uma bomba caseira foi arremessada na direção da arquibancada corintiana. O artefato atingiu o jovem Rodrigo Gasperi, de 13 anos, que faleceu no hospital dias depois.
A guerra do Pacaembu
Em 1995 ocorreu um dos episódios de maior repercussão na história das torcidas organizadas. Conhecido como a Guerra do Pacaembu. Naquele domingo, dia 25 de agosto, Palmeiras e São Paulo se enfrentaram pela final da Super Copa São Paulo de Futebol Júnior, torneio extinto pela FPF (Federação Paulista de Futebol) após essa edição. Com gol de Rogério na prorrogação, o Palmeiras saiu vitorioso dentro do jogo, mas, o apito final trouxe uma derrota para os amantes do esporte.
O estádio municipal passava por reformas e mantinha diversos materiais de construção como pedaços de vigas de ferro, tijolos e blocos de concreto, pás e enxadas embaixo do “tobogã”, como é conhecido a arquibancada sul do estádio.
Mesmo com todos esses materiais no estádio, a polícia permitiu a realização do jogo, com as torcidas Mancha Verde (Palmeiras) e Torcida Independente (São Paulo) separadas por um cordão de isolamento frágil.
Após o gol de Rogério, a torcida explodiu em festa e, na euforia, invadiu o gramado para comemorar. Provocados pelos adversários, parte dos torcedores são-paulinos invadiram o tobogã. O setor estava acessível para quem estava nas arquibancadas, já que as grades de contenção eram frágeis. Então eles pegaram todo tipo de material de obras e entulho e partiram para a briga.
O que se viu depois foi um cenário de guerra. Imagens de pessoas ensanguentadas, feridas e caídas no chão tomaram os jornais e telejornais pelo país. O saldo foi de 80 torcedores e 22 policiais feridos. Para além disso, ainda aconteceu a morte do são-paulino Márcio Gasparin da Silva, de 16 anos. Ele foi agredido com pauladas na cabeça e faleceu oito dias depois, após ter sofrido múltiplos traumatismos cranianos.
Três anos depois, o palmeirense Adalberto Benedito dos Santos foi condenado a 12 anos de prisão pelo assassinato de Márcio. A família do adolescente processou a Prefeitura de São Paulo, responsabilizando-a pela morte, mas o Judiciário não considerou o município culpado.
Até hoje, especialistas responsabilizam o Poder Público pela tragédia. Mesmo em um clássico, foram convocados apenas 65 policiais para o jogo, o que não foi suficiente para controlar a situação.
Após o episódio, o Ministério Público determinou a extinção das torcidas organizadas Mancha Verde e Independente, que voltaram aos estádios sob novos nomes e CNPJ.

A resposta do poder público
Em 2003, O Estatuto de Defesa do Torcedor (Lei nº 10.671), foi sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e mudou a história do futebol brasileiro ao transformar o torcedor comum em um consumidor com direitos garantidos por lei.
A principal novidade do Estatuto foi equiparar os clubes e as federações esportivas à condição de “fornecedores” e o torcedor à condição de “consumidor” e estendeu a lógica do Código de Defesa do Consumidor para dentro dos estádios.
Com isso, os times mandantes e as federações tornaram-se legalmente responsáveis pela segurança do público dentro do estádio e no raio de suas imediações.
Além disso, o Estatuto começou a asfixiar o anonimato das facções violentas e a responsabilizar as instituições pelas ações dos indivíduos. As torcidas organizadas passaram a ser obrigadas a manter um cadastro atualizado com foto e dados pessoais de todos os seus associados.
Se membros de uma torcida causassem quebra-quebra nas arquibancadas ou no trajeto, a torcida organizada (como pessoa jurídica) passaria a responder financeiramente pelos danos materiais.
Essa legislação foi expandida nos anos seguintes. Em 2010, foi sancionada a Lei nº 12.299, que alterou o Estatuto e incorporou infrações penais específicas do esporte ao Código Penal.
A partir disso, atos como invadir o campo, incitar a violência ou promover tumultos passaram a ter pena prevista de 1 a 2 anos de reclusão. Além das arenas esportivas, essa punição criminal foi estendida para um raio de 5 quilômetros dos estádios, e passou a abranger também os trajetos de ida e volta dos eventos esportivos.
O histórico do Estatuto do Torcedor foi tão marcante que serviu de base para a modernização das leis esportivas no Brasil. Em 2023, o estatuto de 2003 foi revogado e integrado à nova Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597), que expandiu ainda mais o rigor nas punições para crimes de racismo, homofobia e o banimento de torcedores violentos dos estádios por até 5 anos.
Movimento Pista Limpa
No final dos anos 2000, se iniciou uma nova fase na violência entre torcidas organizadas. Após a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) mostrar que controlava o sistema carcerário paulista com a megarrebelião de maio de 2006, a organização queria também impor sua força nas comunidades. Para isso, uma das ações seria frear a violência das torcidas organizadas na capital paulista.
O crime organizado de São Paulo passou a enxergar as brigas mais violentas como uma ameaça à sua atividade, uma vez que esses confrontos atraem operações policiais de grande porte, fecham o comércio local e prejudicam as atividades de tráfico de drogas em bairros populosos e comunidades.
Além disso, com o avanço do monitoramento policial nos arredores dos estádios, marcar brigas em grandes contingentes ficou mais difícil.
Com isso, surgiu entre alguns grupos de torcedores a chamada “pista limpa”, uma ideologia e código de conduta adotado por grupos violentos e facções de torcidas organizadas, também conhecidos como “bondes de pista”. A prática defendia a realização de confrontos físicos contra rivais apenas com as mãos ou métodos corporais, que criava uma espécie de “ética” da briga.
Entre as principais regras estavam a proibição do uso de armas de fogo e facas e a orientação de não agredir adversários caídos ou desacordados. Também havia a defesa da proporcionalidade, com a intenção de evitar confrontos em que um grupo fosse muito menor que o outro. O objetivo deveria ser conquistar o “troféu” simbólico da vitória sobre o rival, e não causar mortes.
Para não despertar o olhar do crime organizado, da polícia e da imprensa, essas brigas “menos violentas” serviam para expurgar o ódio que uma torcida sentia pela outra, sem que houvessem maiores consequências.
Então em 2008, a Mancha Alvi Verde, do Palmeiras, e o movimento “Rua São Jorge”, um bloco importante fora da sede dos Gaviões da Fiel, firmaram um acordo para uma briga de “pista limpa”.
Foi no dia 28 de março, quando Palmeiras e Corinthians empataram em 1×1 em Presidente Prudente, no interior, que a capital paulista presenciou a primeira batalha de pista limpa. Esse confronto foi visto como um modelo para ser seguido pelos dois blocos: sem imprensa, sem polícia, sem repercussão.

É importante ressaltar que a briga ocorreu na Avenida Inajar de Souza, na zona norte, uma região estratégica que passa por bairros periféricos muito populosos e, portanto, com muitos torcedores organizados.
A avenida era um ponto de encontro conhecido dos palmeirenses. Eles se encontravam em um ponto da via e costumavam caminhar por ela para ir sentido a quadra da torcida, na Barra Funda.

Apesar do pacto, os confrontos continuaram e passaram a reunir um número cada vez maior de torcedores. A situação mudou em 26 de agosto de 2011, aniversário do Palmeiras e dois dias antes de um clássico.
Na ocasião, torcedores do Corinthians teriam aparecido em número superior ao combinado e portando barras de ferro, pedras e rojões. A Polícia Militar interveio e o Batalhão de Choque dispersou a multidão.
Durante a fuga, Douglas Karin Silva, de 27 anos, teria sido perseguido por várias ruas, espancado e morto por um grupo de palmeirenses. Seu corpo foi localizado no dia seguinte, no Rio Tietê, o que marcou o fim do acordo.
Em 25 de março de 2012, ocorreu o último e mais violento confronto registrado na Inajar de Souza. A morte de Douglas foi interpretada pelos Gaviões como algo que não poderia ficar sem resposta, e a retaliação resultou em uma nova escalada de violência. Centenas de torcedores se enfrentaram nas primeiras horas da manhã daquele domingo de dérbi.
A avenida virou cenário de guerra. Durante a briga, integrantes da Mancha Alvi Verde, André Alves Lezo, de 21 anos, e Guilherme Vinícius Jovanelli, conhecido como Zulu, de 19, foram mortos. Os dois sofreram golpes na cabeça provocados por barras de ferro e pedaços de madeira.
Além dos mortos, três palmeirenses foram baleados e um corintiano foi espancado e preso em flagrante. Todos esses quatro feridos foram testemunhas importantes em um processo que resultou em 25 réus na Justiça (14 corintianos e 11 palmeirenses). O episódio encerrou um ciclo de confrontos que, ao longo dos anos, havia reunido grupos rivais em batalhas combinadas na região.
Nos anos seguintes, como de costume, esse episódio virou canção nas arquibancadas.
“Meu coração pulou de alegria
Quando mandei o Lezo pro caixão
E o Zulu morreu em menos de um segundo
Eu vi seu sangue correr pelo chão
No dia 25, na zona norte aconteceu
Azar do porco imundo
Trombou os Gaviões e correu”
Em 2016, no entanto, as autoridades decidiram que tentariam um basta contra a violência no futebol.
3 de abril de 2016: o dia que tudo mudou
Um dia de Palmeiras e Corinthians nunca é um dia normal na cidade de São Paulo. Há 109 anos o maior clássico do estado costuma parar a cidade que nunca para. Naquele domingo à tarde, o dérbi paulista foi disputado no Estádio Municipal do Pacaembu, um dos mais históricos do país.
Dentro do campo, o dérbi foi pegado como de costume. Em um jogo de muitas faltas, o Palmeiras saiu vencedor com um gol de cabeça do baixinho Dudu, de apenas 1,66m, que superou o goleiro Cássio, apenas um minuto depois do corintiano Lucca ter desperdiçado um pênalti defendido por Fernando Prass.
No entanto, aquele clássico na primeira fase do Campeonato Paulista não ficaria marcado pela vitória do Palmeiras, pelo gol de Dudu ou pela defesa de Prass. Na realidade, o dérbi de número 350 foi o último que teve a presença de ambas as torcidas em um estádio paulista.

Para entender o motivo disso, é preciso tirar os olhos do Pacaembu por um instante. Na estação São Miguel Paulista, da CPTM, a 30 km do estádio e 6 horas antes do jogo, as torcidas Mancha Alvi Verde e Gaviões da Fiel se encontraram e entraram em confronto. Como resultado, José Sinval Batista de Carvalho foi morto com um tiro no peito.
José tinha 53 anos, veio da Bahia para trabalhar em São Paulo e era entregador de delivery. Pai de uma filha, ele não gostava de futebol e estava a caminho da igreja. 10 anos depois, o crime segue sem solução.
No entanto, aquele não foi o único confronto entre palmeirenses e corintianos naquele domingo. Ainda antes da bola rolar, uma confusão na cidade de Guarulhos, na grande São Paulo, resultou em diversos feridos e 25 suspeitos detidos pela PM.
Na estação do Brás, outro encontro entre as organizadas gerou transtorno. Foram destruídos vidros, janelas e bancos de um trem. De acordo com a gestão do Metrô, foram mais de R$19 mil reais em prejuízo, além da interrupção das atividades na linha por cerca de 50 minutos.
Após o término do clássico, novos confrontos foram registrados. Nas imediações do Pacaembu, na Avenida Doutor Arnaldo, ocorreu uma briga entre os torcedores.
Segundo relatos da PM, palmeirenses que transitavam a pé foram interceptados por corintianos que ocupavam um caminhão carregado com bandeiras e instrumentos de torcida organizada. O confronto resultou em três feridos, encaminhados ao pronto-socorro do Hospital das Clínicas.
Dentre os indivíduos detidos pela PM, figuravam Leandro Silva de Oliveira e Tadeu Macedo Andrade, ambos presos em 2013 na Bolívia por suspeita de envolvimento na morte de Kevin Espada, jovem boliviano de 14 anos, morto após ser atingido no rosto por um sinalizador disparado pela torcida do Corinthians.
4 de abril de 2016: surge a política da torcida única
Como resultado, o então Secretário de Segurança do Estado, Alexandre de Moraes, anunciou uma medida emergencial que proibia a presença de torcida visitante em jogos entre Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos até 31 de dezembro daquele ano.
Apenas um dia depois das confusões dos dia 3 de abril, a medida foi apresentada após reunião com representantes do Ministério Público e da Federação Paulista de Futebol. De acordo com Moraes, isso evitaria necessidade de a PM precisar fazer comboios e aumentaria o policiamento nos entornos dos estádios.
Medidas adicionais incluíram a proibição de adereços e faixas de torcidas organizadas nas partidas, mesmo em jogos de torcida única. Além disso, estabeleceu-se a obrigatoriedade do cadastro prévio para a compra de ingressos via internet, exigência válida também para os torcedores integrantes de organizadas.
Até hoje, não existe uma lei específica no ordenamento jurídico brasileiro que decrete ou obrigue a realização de jogos com torcida única. O arranjo institucional e a sustentação legal que mantêm a medida ativa baseiam-se em uma combinação de ferramentas administrativas, resoluções de segurança pública e autonomia desportiva, amparados pelos seguintes dispositivos:
1. Recomendações do Ministério Público (MP-SP):
O pilar prático do sistema funciona por meio de recomendações administrativas emitidas pelo Ministério Público de São Paulo (em especial pela Promotoria de Justiça do Consumidor/Grandes Eventos) direcionadas à Federação Paulista de Futebol (FPF).
O MP se baseia em relatórios de inteligência da Polícia Militar que apontam a incapacidade de garantir a ordem pública com duas torcidas.
2. Portarias da Federação Paulista de Futebol (FPF):
O dispositivo que proíbe a entrada dos visitantes é a Portaria da Presidência da FPF, renovada a cada temporada. No campo jurídico, isso é sustentado pelo Artigo 217 da Constituição Federal, que garante autonomia às entidades desportivas dirigentes para organizar suas próprias competições e regulamentos.

Expansão da medida
Em 2018, a Ponte Preta, equipe tradicional de Campinas, também foi incluída. No ano seguinte, o Guarani também passou a fazer parte da proibição. Com isso, jogos que envolvam esses dois times, Palmeiras, Corinthians, São Paulo ou Santos.
No cenário nacional, metade dos clássicos da Série A e B do Brasileirão adotam a proibição em 2026. Além dos paulistas, Bahia, Pernambuco e Goiás também realizam seus clássicos dessa forma.
Até mesmo fora do Brasil existe a restrição. Mesmo antes do Brasil, países como Argentina, França, Holanda, Grécia e Turquia já tinham essa política para jogos pontuais. Nos últimos anos, Peru e Itália também adotaram.
Efeitos da torcida única
Após uma década da implementação da medida, o debate agora conta diversos argumentos, sejam eles favoráveis ou contrários.
Para compreender os efeitos da torcida única no estado de São Paulo, a reportagem cruzou ocorrências policiais enquadradas no Estatuto de Defesa do Torcedor (Lei nº 10.671/03), disponibilizadas por meio da Lei de Acesso à Informação, com as datas e os locais dos clássicos disputados entre os quatro maiores clubes paulistas (Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos) entre 2010 e 2026.
A primeira diferença se nota a partir de 2020, com uma redução acentuada a partir da pandemia e que se manteve muito abaixo dos padrões anteriores mesmo após 2023, período em que o sistema de registros de BOs passa por alteração. Portanto, para evitar distorções, será analisado o período de 2010 à 2019.
Com a medida implementada em 2016, os recortes de antes e depois apresentaram uma mudança significativa nos padrões. De 2010 à 2015 foram 84 clássicos disputados na capital paulista e nesses dias foram registrados BOs em 86 vezes. Já de 2016 à 2019, dos 74 dias de clássico, 62 ocorrências foram registradas.
A redução é mais pronunciada se isolarmos apenas as ocorrências de “Promover Tumulto” (art. 41-B), que correspondem a mais de 70% dos boletins de todo o período. Nesse caso, as estatísticas de provocação de tumulto caem de 0,89 para 0,64 por dia de clássico após a torcida única.
BOs em dias de clássico — 2010–2015 vs 2016–2019
Contagens
Médias por dia
Menos ocorrências significa menos violência?
Nem sempre. Ao seguir a interpretação das ocorrências atreladas ao estatuto do torcedor, percebemos a diminuição em 22% de ocorrências registradas em dias de clássico. Por outro lado, essa estatística aumentou em 31% nos dias sem jogos, e quase dobrou no quesito “Provocar Tumulto” por dia.
Vale ressaltar que esses não são os únicos indicadores de violência relacionados ao futebol, e que são apenas os casos registrados e enquadrados dentro do Estatuto do torcedor, além de outras ocorrências que podem não ter sido documentadas ou categorizadas em outros parâmetros.
A violência mudou de lugar?
O cruzamento dos boletins de ocorrência com a localização dos estádios também não identificou que esse tipo de violência tenha migrado para regiões mais afastadas das partidas depois da torcida única. Na verdade, dentre os registros que possuem geolocalização, os casos se encontram mais próximos dos jogos.
| Distância do estádio | 2010–2015 | 2016–2019 |
| Até 1 km | 61,4% | 84,5% |
| Até 3 km | 77,3% | 93,1% |
| Até 5 km | 86,4% | 94,8% |
| Distância mediana | 0,42 km | 0,30 km |
| Distância média | 2,54 km | 1,90 km |
Os bairros com maior ocorrência acompanham os estádios com mais clássicos disputados mesmo depois da mudança, a ordem passou de Pacaembu, Morumbi, Itaquera, Perdizes e Consolação para Itaquera, Barra Funda, Consolação, Morumbi e Vila Sônia. Em suma, houve uma redução geral nos boletins registrados a partir da torcida única, mas as ocorrências se aproximaram dos estádios.

Tentativas de revogação
A mais concreta tentativa de revogação da política da torcida única aconteceu no início deste ano. Uma proposta elaborada pela Associação Nacional das Torcidas Organizadas para a volta dos clássicos com torcedores visitantes foi entregue à Polícia Militar, ao Ministério Público e à Federação Paulista de Futebol.
Quem lidera este movimento é o advogado Renan Bohus da Costa, especialista em Direito do Torcedor e gestão jurídica de eventos esportivos. Ele trabalha junto à Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg), que representa as agremiações desde 2014.
Bohus atua há anos na defesa das torcidas organizadas e, em sua tese de mestrado, desenvolveu um estudo que propõe o retorno gradual dos torcedores rivais aos estádios.
A partir de um planejamento prévio detalhado e do apoio de recursos como a identificação por biometria no acesso e o monitoramento por câmeras de segurança, ele defende ser viável reverter a restrição atual.
Na proposta, é sugerida a realização de jogos-testes com participação controlada de visitantes. A principio, eles representariam até 10% da capacidade do estádio. “Número compatível com padrões internacionais de segurança e suficiente para avaliação técnica dos impactos operacionais, sociais e de segurança pública”, diz o documento.
O setor visitante teria ingressos com prioridade para sócios e membros cadastrados de torcidas organizadas, mediante identificação prévia. Como já é feito em outros jogos, os setores visitante e mandante seriam delimitados e articulados com rotas logísticas seguras.
Resistência das forças de segurança
Por outro lado, a apuração publicada pelo site ge.globo mostra que, apesar das discussões sobre o fim da torcida única em clássicos paulistas, autoridades ainda defendem a manutenção da política. O promotor Roberto Bacal, que atua no Jecrim (Juizado Especial Criminal) da Capital e acompanha casos de violência entre torcedores, assina a recomendação desde 2019.
Segundo o promotor, a experiência dos últimos anos indica resultados positivos com a torcida única. Para ele, a medida contribuiu para reduzir confrontos e garantir maior segurança nos deslocamentos dos torcedores, em especial no transporte público. O promotor também cita a tranquilidade nos trajetos de metrô e trem como um dos principais efeitos da restrição.
Um levantamento realizado por ele no fim de fevereiro reforça sua avaliação. Naquele momento, às vésperas das semifinais do Paulistão, não havia nenhuma nova ação no Jecrim relacionada a conflitos entre torcidas em 2026. Para o promotor, os dados indicam que a redução dos confrontos também se reflete na demanda judicial.
Bacal reconhece que novas tecnologias podem ajudar no combate à violência nos estádios e arredores, porém considera que elas ainda não são suficientes. A principal preocupação está nos trajetos de ida e volta das partidas, quando há grande concentração de torcedores no metrô e nos trens. Nesses locais, de acordo com ele, não há tecnologia capaz de garantir a segurança de forma integral.
A Polícia Militar também defende, segundo apuração do ge.globo, que as regras sejam mantidas neste momento. Além da redução nas ocorrências, a corporação considera que a torcida única permite trabalhar com um efetivo policial menor durante as partidas. Para as autoridades, portanto, a mudança poderia aumentar os riscos e exigir uma estrutura de segurança maior.
No mesmo dia do anúncio da medida, em 2016, o promotor do MP-SP, Paulo Castilho, a defendeu em entrevistas. Para ele, os confrontos do dia 3 de abril foram orquestrados e planejados e são revides de crimes anteriores. Para Castilho, havia uma “guerra sem fim”. “É o revide do revide. Eles estão em guerra. É uma guerra sem fim”, afirmou.
Repercussões
Como isso afeta os torcedores?
Cada torcedor tem sua visão, a depender de seus costumes e proximidade com as arquibancadas. Existem aqueles que viveram os clássicos com torcida visitante, mas hoje também há quem nunca presenciou um rival no mesmo estádio.
Com isso, a cultura das torcidas passa por uma mudança, e diferentes preocupações afetam os apaixonados pelo esporte. Para Guilherme Henrique, torcedor do Corinthians, a preocupação com a violência influencia o modo de andar pela cidade em dias de jogo.
“A partir do momento que você sai com a camisa do seu time na rua, você tem que estar atento para qualquer coisa que possa acontecer”, afirma.
O garoto de 21 anos também explica como passa a evitar certas áreas da cidade quando veste a camisa do seu time.
“Em dia de jogo, desde você saindo de casa para ir para o estádio, você evita locais que possam ter torcedores do time rival.”
Guilherme não é o único que vê empecilhos no trajeto até as partidas.
Arthur Correa, torcedor de 19 anos do Santos, conta como a cautela do pai o afastou um pouco dos jogos.
“No começo eu não podia ir. Meu pai ficava muito receoso em me deixar ir para o jogo, até porque era recente a medida. Ele falou que era perigoso, complicado, porque a gente nunca sabe quem a gente vai encontrar no caminho. Eu acho que o grande problema é esse, o caminho.”
Outro ponto para além da segurança no seu estádio é a impossibilidade de viver a experiência de visitante. Leonardo Paz, 23, é torcedor do Palmeiras e gostaria de conhecer os outros estádios de São Paulo, mas por enquanto os evita.
“Eu iria tranquilamente lá em Itaquera, lá no Morumbi, desceria para a Baixada, para ir lá em Santos também, na Vila, para assistir. Eu tenho vontade de conhecer esses estádios, mas justamente por eu sentir essa falta de segurança que eu tenho esse pé atrás”. Além disso, complementa. “Eu acho que faz falta a gente ter essa rivalidade sadia, sabe, dentro do estádio” ele afirma.
Como se posicionam as entidades?
Já os clubes e a federação, apesar da postura pública contrária à torcida única, não apresentam ações concretas para reverter a medida. O aumento na arrecadação, viabilizado pela ocupação dos estádios apenas com uma torcida, sem necessidade de isolar setores em volta dos visitantes, tornou-se um fator determinante, como comprovam os recordes de público registrados em clássicos recentes.
Roberto de Andrade, presidente do Corinthians na época, também lamentou a decisão.
“Vejo isso com bastante tristeza. Apesar de ser uma determinação e isso a gente não discute, cumpre. Se fosse a solução do problema, faria supercontente. Mas não será. Não é proibindo as pessoas de irem ao jogo que vai acabar a violência, já que a violência é praticada nos arredores. Quem garante que os mesmos torcedores não vão se encontrar em qualquer esquina?”, afirmou em entrevista ao Globo Esporte.
Até mesmo a FPF, que acatou a recomendação do MP, soltou uma nota contrária à medida.
“A Federação Paulista de Futebol lamenta a proibição de torcedores visitantes em nossos clássicos. Embora entenda que a medida tenha a intenção de coibir ações violentas, a FPF não enxerga nesta decisão a solução para os recorrentes encontros violentos entre torcedores, que geralmente são registrados em locais distantes dos estádios. Entendemos que a punição generalizada prejudicaria os torcedores como um todo e, por consequência, traz prejuízo ao fomento do futebol. […] Diante desse entendimento, a FPF informa que enviou pedido ao Ministério Público do Estado de São Paulo para que a proposta de “torcida única” nos clássicos seja revista”.
Uma eventual mudança no cenário atual exigiria uma pressão articulada por parte das torcidas, clubes e federação em uma mobilização política que envolvesse deputados e outros atores. No entanto, a falta de interesse dos clubes em liderar essa pauta indica que o fim da restrição não é uma prioridade, consolidando a manutenção do modelo atual.
O que diz a imprensa?
Na imprensa, a maioria da crônica esportiva lamentou a perda cultural da presença da torcida visitante. O jornalista esportivo Juca Kfouri escreveu em sua coluna intitulada “Algo de podre no combate à violência”, uma crítica à medida, que chamou de inócua que serviria apenas para diminuir cada vez mais o caráter festivo que deve ter um jogo de futebol. Segundo ele, os “clássicos paulistas terão sabor de picolé de chuchu e as brigas seguirão acontecendo no caminho dos estádios”.
Para João Abel, jornalista do Estadão, essa medida ajuda a criar uma geração que não está acostumada com o contraditório.
“Isso forma uma geração que cresce sem convivência com o outro. E isso muda muito a experiência do futebol. Quando você tem duas torcidas, e o adversário faz um gol, você vivencia aquilo de forma muito mais completa, porque há uma reação imediata no estádio. Você não quer sofrer o gol, mas entende a natureza do jogo, entende que existe o outro. Sem torcida visitante, o estádio vira um ambiente centrado só em você, no seu time, no seu mundo. Quando o adversário faz um gol, não tem ninguém comemorando, só silêncio, revolta, xingamento. Parece que o problema é absoluto, como se o mundo estivesse errado, quando, na verdade, o futebol é um jogo entre dois lados. Isso altera a percepção do torcedor, torna a experiência mais egocentrada, menos conectada à essência do esporte”, disse em entrevista à Agência Trilhos.

A sociologia na violência entre as torcidas organizadas
Uma torcida organizada de futebol vai muito além das fronteiras do vibrar e torcer. A própria ideia de “organização” expressa no nome não se refere apenas a ritmos e cantos coordenados, mas a uma cultura única, estabelecida por códigos de conduta e valores coletivos fundamentais para quem integra a torcida. Entender isso é compreender como essa cultura se manifesta na sociedade.
A origem das torcidas organizadas paulistas
Em São Paulo, as grandes torcidas organizadas surgiram entre o final da década de 1960 e início dos anos 1980.
A primeira foi a Gaviões da Fiel, fundada em junho de 1969, e que se tornou a mais importante torcida do Corinthians. Em setembro do mesmo ano, torcedores do Santos criaram a Torcida Jovem. No mês de abril de 1972, foi criada a Torcida Tricolor Independente, do São Paulo, como resultado de uma cisão na TUSP (Torcida Uniformizada do São Paulo). Por fim, em 1983, nasceu a Mancha Verde (atual Mancha Alviverde) resultado da união de outras três associações de torcedores do Palmeiras.
Esse recorte histórico não é por acaso. O Brasil desse período passava por intensas transformações sociais com o acelerado crescimento econômico, estrutural e urbano, que, em contrapartida, não era justo para todos. No cenário político, as incertezas diante da ditadura militar instaurada em 1964 afloraram os anseios da população das grandes capitais do país e coordenou uma nova dinâmica na ocupação das cidades.
O pesquisador Carlos Alberto Pimenta, no artigo “Violência entre Torcidas Organizadas de Futebol”, aponta que o esse ambiente social do país foi determinante para a construção da identidade das torcidas. Trajados com as mesmas roupas e vibrando em um mesmo ritmo, os torcedores, agora, estavam inseridos em um coletivo que expressava identidade e união.
O que é ser um torcedor organizado?
As torcidas organizadas se destacam pela presença massiva nos estádios de futebol ao entoarem cantos, hinos e músicas provocativas. São eles os responsáveis por elevar a moral dos jogadores e mobilizar os demais torcedores durante a partida e transmitir sua energia para a arquibancada
Por outro lado, também são eles que vão até a sede do clube para cobrar os atletas e dirigentes quando o time não rende o esperado, o título não vem ou o depois de uma derrota em clássico. E nessas horas, vale até mesmo de ameaças diretas para que o recado seja bem dado.
Esse comportamento ocorre porque torcedores organizados compartilham de um conjunto de ideais que definem as principais características das atuações coletivas.
A pesquisadora Túlia Cristina Ferraz de Assis, no artigo “A Representação Social da Violência em Torcidas Organizadas de Futebol”, ressalta a reprodução de determinadas ações, como a maneira de se vestir, de torcer e de interagir como responsáveis pela projeção dos valores de cada torcida que, diante de um robusta hierarquia, espelha bem o papel de cada indivíduo na construção da torcida.
Cada um entende quem são as lideranças, quais são as regras e o que significa estar ali. Túlia Cristina relata que essa estrutura fortalece laços de pertencimento e influencia nas ações individuais dos torcedores. Ao participar de uma torcida organizada muitos indivíduos se sentem parte de algo maior.

Quando o torcedor de um clube decide entrar em uma torcida de futebol, seu desejo não é apenas comemorar ao lado de outros torcedores. Ele busca encontrar um lugar ocupado por outras pessoas que pensam e agem de forma semelhante a ele. Ou, muitas vezes, a ideia de estar em uma torcida organizada significa, por fim, pertencer a uma comunidade.
Para explicar isso, Túlia Cristina usa a “Teoria das Representações Sociais”, de Serge Moscovici, que relaciona o conhecimento de senso-comum a comportamentos e a cultura de certos grupos sociais. Aqui, os relacionamentos interpessoais indicam formas coletivas de interpretar a sociedade e os fenômenos do cotidiano.
Na esfera da Representação Social, a torcida organizada é uma instituição que atua como mecanismo de afirmação coletiva, de defesa de ideologias e das cores do clube.
Para Raquel Sousa, socióloga, e doutora em Ciências Sociais, o desejo pelo coletivo é ainda uma resposta ao crescente individualismo da sociedade. “Pensar a permanência das torcidas organizadas é conservar uma das formas mais perenes de organização social”, afirma.
Raquel indica que a ideia de “organizada” é o que faz essas torcidas tão diferentes. “Há uma série de normativas e lógicas presentes nessa sociabilidade, fundamentais para a construção dessas relações. E aí, possuem alianças, amizades e, consequentemente, inimizades”.
A rivalidade no esporte, por si só, já é algo que conduz a emoção de quem assiste a. Mas quando se trata de futebol, não é apenas um esporte. É uma cultura.
Do terrão aos gramados profissionais, o brasileiro respira e vive o futebol. Como descreveu Edergênio Vieira, pesquisador do Núcleo de Estudos Sobre Violência e Segurança da Universidade de Brasília (NEVIS/UnB) em entrevista a TV ALEPI, do Piauí, o futebol explica o que é ser brasileiro.
O esporte bretão ganhou formas e significados com o passar das décadas e deixou de ser uma prática dedicada às elites no fim dos séculos XIX e início do XX, para ser associada às populações menos abastadas. E quando isso aconteceu, a forma de como entender a realidade social mudou.
Como avisou certa vez o treinador italiano Arrigo Sacchi, o futebol que expressa as paixões, impulsos e motivações do cotidiano brasileiro “é a coisa mais importante entre as menos importantes”.

Violência, torcidas e masculinidade
O futebol faz parte da cultura brasileira. Desperta emoções e reproduz na sociedade muitos dos sentimentos dos torcedores. Gustavo Bandeira, doutor em educação e especialista em jornalismo esportivo, explica porque isso ocorre. “Ao entrar em um estádio de futebol, você é inserido em um ambiente que já existia antes de você, e que você vai negociar com ele”.
Por isso, o que se constituiu ao longo dos anos dentro dos estádios permaneceu como o ideal, principalmente pela presença massiva de homens. “Os ambientes nos dizem o que é possível. E no estádio de futebol, se entendeu que é onde você pode externalizar coisas que você não podia em outros espaços. É um lugar de excesso”, explica Bandeira.
Esse excesso permite que os torcedores tenham a liberdade de agir de forma diferente da qual o cotidiano permite, como conta Gustavo. “A gente briga com o adversário, com o juiz, com o jogador que não joga bem. Então, o estádio é esse espaço que provoca brigas”.
E é nos estádios que a masculinidade ganha força. Aqui, a ideia não é apenas da agressão física, mas de como cada indivíduo interage com os outros. A violência é estimulada pela necessidade de demonstrar força e lealdade, uma forma de reafirmar um espaço ocupado, expressa de diversas maneiras.
Por isso, o estádio de futebol também pode ser um lugar excludente. A homoxessualidade e a feminilidade não são bem-vindas porque vão na contramão das “atitudes masculinas”. “Violências no futebol como a homofobia e o machismo são violências presentes na sociedade como um todo, porque o futebol também integra a sociedade”, reforça Raquel.
É na frustração pela derrota do time, na reação à chacota do rival ou na reprodução das ações dos outros membros da torcida que a violência, verbal ou física, se manifesta. “A lógica que fundamenta as violências e envolve torcedores, é a do poder, do exercício do domínio, e isso é muito calcado pela masculinidade dominante”, argumenta a socióloga.
Desde queo futebol chegou ao Brasil, seu estilo “agressivo” faz o esporte ser associado aos homens. Assim, durante anos, a presença masculina construiu esse espaço como reflexo das disputas constantes e da necessidade de reafirmação. Sobre isso, Gustavo Bandeira salienta como a reafirmação justifica a violência contra o torcedor rival:
“No estádio, vamos ampliar a masculinidade, garantindo a nossa heterossexualidade dando ao adversário a homossexualidade que é indesejada. A gente se garante justamente nesse extravasar, na violência, no xingamento e na marcação do adversário. Garantimos a nossa heterossexualidade e com isso a gente se permite ao abraço, choro, e outros sentimentos”.
E é por meio dessas ações de reafirmação que as torcidas organizadas, por exemplo, se tornaram o “modelo” de torcedor a ser seguido. Mesmo em minoria, a torcida organizada é a mais valorizada pela energia que leva até as arquibancadas.

O que acontece é que essa valorização também passa pelo reconhecimento da própria violência, que, no contexto do futebol, acaba legitimada. “Então, ser mais forte, fazer com que o adversário tenha medo de você, nesse contexto, para esses grupos, é entendido como algo desejável”, complementa Bandeira.
E esse comportamento não é exclusivo das organizadas. Os torcedores comuns, muitas vezes, se inserem na atmosfera criada pelos uniformizados pelo simples fato de estarem próximos, como explica Raquel. “É sempre bom pensar que, a gente fala sobre atitudes violentas, mas não repensa as nossas próprias atitudes. Às vezes você canta uma música, mas se você parar e refletir sobre aquela letra, você fala: “meu Deus!”.
As músicas que exaltam a violência entre torcidas são uma tradição nas arquibancadas no Brasil. Na maioria das vezes, essas canções valorizam confrontos nos quais as organizadas do time saíram vitoriosas, ou ofendem os adversários com cantos homofóbicos.
Na torcida do Palmeiras, por exemplo, um dos cantos mais conhecidos da Mancha Alvi Verde, principal organizada da equipe, é conhecido como “futebol e porrada”.
“Eu não fumo, eu não bebo e não gosto de brigar
MENTIRA!
Oba, oba, futebol e porrada!
Oba, oba, só barrada nos gambás”
Já a Sangue Jovem, subsede da Torcida Jovem do Santos, provoca cada um de seus principais rivais com uma das letras mais violentas das arquibancadas brasileiras.
“Cheiro de gambá queimado
De bicha torturado
E de Mancha estrangulado
Quero meu oitão de lado
Na mente um baseado
Sou da sangue, sou bolado”
As torcidas organizadas e a identidade da juventude
O futebol, como cultura, sempre atraiu muito os jovens. Em um recorte específico, são garotos com idades entre 14 e 23 anos, geralmente oriundos de classes mais baixas, mas com uma forte identificação com os campos de futebol. E essa particularidade demonstra como a noção de pertencimento é válida no contexto das torcidas organizadas.
Em muitos casos, a falta de condições básicas de saúde, educação e segurança faz com que esses jovens não criem uma identidade própria. Sem lazer, recreação e oportunidades, eles ficam carentes de uma perspectiva e recorrem a alguma referência para encontrar um espaço para chamar de seu.
Essa tendência é observada, por exemplo, na fala de Paulo Serdan apresentada no trabalho de Carlos Pimenta:
“Essa juventude de hoje em dia não tem nada para se espelhar e se inspirar. (…) eles não têm no que se apoiar. (…) Qual o único segmento hoje em dia que expõe as suas vontades e os seus desejos, mesmo que seja em relação ao futebol? É a ‘torcida organizada’”.
A torcida organizada, se torna, na visão de muitos jovens, um caminho de interesse para os que procuram uma identidade, um coletivo de ideias e sentimentos semelhantes aos seus, como detalha Raquel:
“Mas a gente pode pensar nas torcidas organizadas enquanto um espaço em que esses jovens, eles conseguem ter prestígio, conseguem crescer, ter cargos, exercer uma liderança, viajar para outros lugares, coisas que muitas das vezes, fora de uma torcida, ele não conseguiria. Além de se sentirem pertencentes, esses jovens exercem um papel importante naquele grupo social”.
Essa união colabora para que os sentimentos repreendidos alcancem o exterior. As torcidas organizadas acolhem, fortalecem os indivíduos e dão prestígio a seus integrantes, estabelecem regras e lideranças que, em outros lugares, esses jovens não encontram.
Exemplo disso está no próprio surgimento das torcidas uniformizadas. A Mancha Verde foi criada para conter o desrespeito que a torcida do Palmeiras sofria. Os fundadores eram menores, com idades entre 13 e 14 anos, e, desde o início, já respondiam aos ataques rivais com violência.
Gustavo explica que a busca por pertencimento, nos dias de hoje, é ainda mais escassa, pois a nova dinâmica das relações sociais limitou muito a construção de laços sólidos. “A gente vive em um tempo de grande dificuldade na produção de identidade. “Nós temos esse cenário em que as pessoas não têm perspectiva. Os jovens de hoje acham que o mundo não vai melhorar. É a primeira geração que está enfrentando isso”, enfatiza.

É nesse contexto que as torcidas, como coletivos de identidade e pertencimento, chamam tanto a atenção.
“A torcida explica o mundo”, diz Bandeira. É a maneira do indivíduo não apenas fazer, mas saber quando, onde e como fazer. “O clube de futebol te diz o que você vai fazer na quarta e no domingo, quando você não sabe”.
“Uma coisa que as pessoas não aceitam é a falta de sentido. Vida sem sentido não existe. Então, a gente inventa sentidos”. A violência ganha validade como símbolo de uma identidade maior, porém, coletiva.
A psicologia da violência no futebol
A noção de pertencimento entre os torcedores pode ser entendida com o que Túlia indica como “sensação de força coletiva”, uma forma dos torcedores enxergarem a defesa dos seus ideais, semelhantes e do time do coração contra o rival. Acontece é que, muitas vezes, essa coletivização eleva o senso de pertencimento a outro patamar: o da violência.
Para que seja possível entender melhor a relação entre torcida e a violência, é preciso entender como o torcedor se comporta em meio a massa.
Efeito Manada
As manadas são, em seu sentido literal, grupos de animais que vivem e se deslocam juntos. A expressão também passou a ser usada para descrever um comportamento humano: quando pessoas seguem as ações ou opiniões de um grupo sem analisá-las de forma individual, ocorre o chamado “efeito manada”.
Na psicologia, o termo está relacionado à tendência de reproduzir comportamentos observados ao redor. Esse fenômeno pode aparecer em diferentes situações, como manifestações, encontros religiosos e eventos esportivos.
Nas torcidas organizadas, por exemplo, uma reação iniciada por alguns integrantes pode ser acompanhada por outros. “O futebol é um esporte de massa, e a massa tende a moldar, em alguma medida, as ações daqueles indivíduos que estão ali”, compartilha Raquel.
Mas o que faz uma pessoa mudar seu comportamento quando está diante de uma multidão? A pergunta é discutida pela Psicologia há mais de um século e deu origem a diferentes formas de compreender a relação entre indivíduo e coletivo.
A psicologia das multidões
O conceito, desenvolvido no final do século XIX, busca entender como o comportamento de uma pessoa pode mudar quando ela integra um grande grupo. Para essa linha da psicologia, a multidão formaria uma espécie de “alma coletiva”, capaz de influenciar as ações do indivíduo, diminuir sua racionalidade e facilitar a adesão a comportamentos e lideranças.
Gustave Le Bon aprofundou essa ideia em seu livro “Psicologia das Multidões” e apontou três elementos que ajudam a explicar esse comportamento:
- O primeiro é o anonimato: na multidão, a pessoa pode se sentir menos identificável e, por isso, menos preocupada com punições ou julgamentos;
- O segundo é o contágio, quando emoções e ideias se espalham entre os integrantes do grupo. Sentimentos como raiva e medo, por exemplo, podem ganhar força à medida que são compartilhados;
- O terceiro é a sugestão, que torna o indivíduo mais suscetível às ideias e comportamentos apresentados pela multidão.
É na frustração pela derrota do time, na reação à chacota do rival ou na reprodução das ações dos outros membros da torcida que a violência, verbal ou física, se manifesta. “A lógica que fundamenta as violências envolvendo torcedores, é a do poder, do exercício do domínio, e isso é muito calcado pela masculinidade dominante”, argumenta Raquel.
Movimentos de massas
“Movimentos de massas” é um dos conceitos abordados por Sigmund Freud em sua obra “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, publicada em 1921. Para o psicanalista, os vínculos afetivos ajudam a explicar o que mantém um grupo unido e também a relação estabelecida entre seus integrantes e uma liderança.
Um dos conceitos centrais nessa explicação é a identificação. Segundo Freud, os integrantes de um grupo passam a compartilhar uma referência comum e criam vínculos entre si. É essa identificação que ajuda a formar uma sensação de pertencimento e de união entre os membros da massa.
Essa relação entre identificação e pertencimento também aparece na explicação de Raquel Souza. “As torcidas organizadas são movimentos de massa”, explica. Segundo ela, a identificação com os pares e com as lideranças pode fazer com que o indivíduo adote comportamentos para se sentir aceito pelo grupo.
Mas será que essas explicações são suficientes para entender o comportamento das torcidas organizadas? Pesquisas mais recentes mostram que não. Um estudo de 2018, Brazil’s Football Warriors: Social Bonding and Intergroup Violence, propõe olhar para a relação entre o indivíduo e seu grupo a partir do conceito de “fusão de identidade”.
Fusão de identidade
Nesse caso, não é apenas a identidade pessoal que desaparece. O que acontece é uma aproximação entre o indivíduo e o coletivo, que torna os limites entre o “eu” e o grupo menos definidos. Uma ameaça à torcida, portanto, pode ser percebida também como uma ameaça pessoal, que aumenta a disposição do indivíduo para defender os demais integrantes.
O estudo também apresenta a ideia de uma “psicologia coalizacional evoluída”. Em vez de uma violência que surge de forma indiscriminada, o comportamento agressivo tende a ser direcionado a grupos vistos como rivais. No futebol, isso ajuda a explicar por que a rivalidade pode ganhar força diante de determinadas torcidas adversárias.
Os resultados colocam em dúvida a ideia de que a violência nas torcidas esteja ligada a um desajuste social. Na pesquisa, realizada com 465 torcedores brasileiros, os indicadores de desajuste não apresentaram relação com os relatos de violência no futebol ou com a intenção de praticá-la no futuro.
Para os pesquisadores, a violência está relacionada à força dos vínculos com o grupo e à forma como seus integrantes percebem possíveis ameaças externas. A partir disso, o estudo aponta que entender esses laços de pertencimento também pode ajudar na busca por formas de reduzir a violência, por meio dessa união entre os torcedores em atividades mais positivas.
Qual caminho seguir?
Com 10 anos da medida adotada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, o índice de violência entre torcedores organizados dos quatro grandes clubes do futebol paulista diminuiu. A restrição à presença da torcida visitante no estádio e outros fatores contribuíram para que, durante esse período, a medida fosse mantida.
“O futebol pode ser um espaço para proporcionar a convivência do diverso, e isso é algo que a torcida única impede, né?”, expressa Raquel. Para a doutora em ciências sociais, um dos caminhos para redução da violência no futebol é a convivência entre os torcedores de clubes diferentes.
Além disso, Raquel entende a importância de medidas educativas para os torcedores, programas de boa convivência dentro dos estádios, que, segundo ela, tem por objetivo melhorar a relação entre os torcedores. “Eu, enquanto professora, acredito na educação como chave para alterar a ideia e a construção dessa masculinidade dominante. E isso a gente não resolve impedindo a convivência e nem de um dia para o outro”.
Por outro lado, João Abel acredita que quanto mais tempo demorar para a medida sair de vigor, mais difícil será mudar. “Já são 10 anos. Seria necessário retomar práticas antigas, como reuniões entre forças de segurança e líderes de torcidas organizadas antes dos clássicos, nas quais se definia toda a logística.”
O jornalista esportivo também considera a responsabilização um ponto crucial.
“É adotar uma medida com base em um fato que não foi resolvido”, diz. Abel opina ainda que, apesar de considerar o processo de identificação dos culpados mais fácil, a dinâmica da violência não é mais a mesma. “O crime que originou a torcida única em São Paulo até hoje não teve responsáveis punidos. E isso é problemático”.
Também seria necessário repensar as medidas tomadas contra os clubes dos torcedores envolvidos, comenta João. Hoje em dia, os clubes são penalizados com jogos sem público quando episódios de vandalismo e brigas são registrados. “Tudo isso precisaria ser muito bem pensado, porque já faz muito tempo e seria quase uma reconstrução do modelo”.
Depois do entusiasmo pela possibilidade do fim da torcida única nos jogos entre Palmeiras, Santos, São Paulo, Corinthians, Guarani e Ponte Preta no início do ano, o movimento perdeu força e espaço no debate da segurança pública no estado.
A permanência da torcida única expõe um dilema no futebol paulista: Por um lado garante a segurança imediata nos estádios. Do outro, adia a reconstrução de um ambiente, de fato, plural. A falta de punições efetivas, diálogo contínuo entre torcidas e polícia militar, e medidas educativas de longo prazo, a proibição pode não se consolidar como uma solução definitiva, mas como um atalho que impede o futebol de cumprir seu papel social de convivência e diversidade.





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