Alice Burégio, Júlia França, Letícia Reis e Luana Lara

Antes de virar encontro, namoro ou família, algumas histórias de amor começam com uma notificação. Um perfil, uma curtida, uma conversa que se estende pela madrugada. Para casais como Carolina e Renato, Karina e Rodrigo, e Maria Aparecida e Ademar, o primeiro contato aconteceu em aplicativos de relacionamento. Histórias diferentes, iniciadas em ambientes virtuais, mas que encontraram maneiras de continuar também fora das telas. 

Do Tinder a distância

Em 2021, durante a pandemia de Covid-19, a médica Carolina Oshiro, 33, baixou o Tinder junto com uma amiga. Sem grandes expectativas, as duas pretendiam apenas passar o tempo, conversar e conhecer pessoas virtualmente. “Era só pra fazer aquelas rolagens e ficar conversando à distância mesmo”, conta.

Até que o engenheiro Renato, 34, apareceu. Entre os vários perfis que passavam pela tela, o dele chamou sua atenção. A conversa fluiu e, diferente das outras pessoas com quem havia conversado no aplicativo, Carolina decidiu aceitar um encontro.

O date aconteceu no apartamento de Carolina, enquanto uma amiga permanecia no local. A cautela não impediu que a experiência fosse positiva. “Quando ele chegou foi tudo muito compatível com o que eu tinha conversado com ele”, lembra. A ansiedade inicial deu lugar à sensação de conforto: os dois pediram uma pizza e conversaram.

Mas havia um detalhe: Renato estava prestes a deixar o Brasil. Ele contou a Carolina que viajaria para a Holanda a trabalho dali a duas semanas e não sabia quando voltaria. O relacionamento, naquele momento, parecia ter prazo de validade. “A gente ficou juntos, sabendo que seria aquele negócio de amor de verão, que talvez a gente não fosse mais se ver”, conta.

Só que a despedida não foi exatamente o fim. Depois que Renato partiu, os dois continuaram a conversar. A relação, que inicialmente poderia terminar junto com a viagem, ganhou uma nova definição: manteriam um namoro a distância.

O trabalho em home office permitia que Renato passasse alguns períodos no Brasil, enquanto Carolina seguia a rotina de residência médica. Em alguns momentos, ficaram até cinco meses separados.

Carolina Oshiro e Renato Paes. Reprodução: Instagram

Hoje, cinco anos depois, os dois continuam juntos e a distância ainda existe: Renato mora em São Carlos e Carolina em Santo André, mas os encontros acontecem sempre que a rotina permite. Para ela, o que sustentou a relação foi menos a distância física e mais a disposição para conversar.

“Eu acho que tudo deu certo, porque a gente conversa muito”, afirma. “Eu e ele, nós temos muita facilidade de falar sobre os sentimentos.”

Do Tinder ao hambúrguer

A história da jornalista Karina Woehl, 46, e Rodrigo Szymanski, 40, começou alguns anos antes, em 2016, também no Tinder. Mas, nesse caso, o encontro presencial demorou mais.

Foram dois meses de conversas antes que os dois finalmente marcassem alguma coisa. Rodrigo insistia; Karina resistia. Até que ele fez um convite simples: estaria em uma hamburgueria tradicional da cidade e, caso ela quisesse, poderia aparecer. Ela foi.

Os dois comeram hambúrguer e conversaram bastante. No fim do encontro, Rodrigo a acompanhou até o carro e roubou um beijo. Pouco depois, no Dia dos Namorados, veio o convite para uma viagem a Garopaba. Foi ali que, segundo Karina, a relação começou a tomar forma de namoro. Para ela, entretanto, o aplicativo nunca foi um problema. Pelo contrário.

“Eu sempre gostei muito de conhecer por aplicativo”, conta. A preferência está relacionada justamente à possibilidade de conversar antes de encontrar alguém presencialmente. Enquanto em uma balada a música alta pode dificultar uma conversa, no aplicativo havia tempo para conhecer o outro.

Karina Farias e Rodrigo Szymanski. Reprodução: Instagram 

“Eu já tava sabendo muita coisa da vida dele: o que ele fazia, onde ele morava, quem eram os amigos dele”, explica.

A relação iniciada naquele aplicativo atravessou o tempo. Hoje, Karina e Rodrigo estão juntos há dez anos e têm uma filha.

Um amor que começou depois dos 60

Enquanto Carolina e Karina encontraram seus parceiros no Tinder, Maria Aparecida, de 69 anos, conheceu Ademar Silva, de 73, pelo Badoo.

O encontro aconteceu em março de 2017. Maria conta que vivia quieta e não estava procurando alguém, mas a filha dela criou um perfil para ela no aplicativo. Foi assim que Ademar apareceu. “Ele que me achou, aí eu fiz um coraçãozinho e aceitei”, lembra.

Depois de deixarem o aplicativo, os dois passaram a conversar principalmente pelo WhatsApp. Eles também mantêm encontros presenciais: Maria visita Ademar em seu trabalho e os dois seguem a rotina de cada um. Para ela, a relação dá a oportunidade de compartilhar seu cotidiano com uma companhia.

“A gente se fala todo dia. Todo dia a gente dá bom dia de manhã, pergunta como passou a noite. Durante o dia se almoçou, a noite do mesmo jeito. Já tomou seu café da tarde? Já. Então vou dormir, boa noite”.

Três histórias, uma mesma tela

As experiências destes casais são diferentes, mas partem do mesmo lugar: uma tela que serviu como primeiro ponto de contato.

E é justamente essa passagem que inicia os chamados “amores virtuais”, que são mais complexos do que parecem. O aplicativo pode ser apenas o começo: depois dele vêm a conversa, a confiança, o encontro e a construção de uma relação que acontece também, e principalmente, fora da tela.

Mas, se a internet pode aproximar pessoas que talvez nunca se encontrassem, ela também pode criar oportunidades para quem se aproveita dessa confiança.

É nesse outro lado dos amores virtuais que aparecem os perfis falsos, o catfishing, a extorsão e outros golpes que transformam uma relação aparentemente afetiva em uma armadilha.

Para analisar esse cenário, é preciso entender o que leva tantas pessoas a procurar justamente a internet para encontrar alguém. 

Por que as pessoas estão buscando parceiros na internet?

Menos ansiedade, mais afinidade

É fato que aplicativos de namoro contribuem para uma maior socialização com pessoas diferentes. O algoritmo é um grande facilitador para conhecer “sua pessoa ideal”, pois permite conhecer pessoas com quem provavelmente o usuário nunca conversaria presencialmente.

Para quem possui dificuldade de conhecer alguém, a possibilidade de conversar antes do encontro pode diminuir o medo do “fora”. Nos aplicativos, caso o usuário se sinta atraído por alguém, mas seja rejeitado, ele pode simplesmente arrastar para o lado e conhecer outras pessoas, com menos impacto emocional.

Homem utilizando o Tinder no celular. (Foto: Shutterstock)

Segundo um levantamento do happn, os usuários utilizam os aplicativos de namoro — além do óbvio, que é encontrar o amor — como uma forma de treinamento emocional, que os auxilia a entender suas necessidades e gostos.

Como o aplicativo considera os interesses apresentados nos perfis e sugere pessoas com gostos parecidos, o usuário também começa a compreender melhor aquilo que o atrai. 

Além disso, as relações construídas nos aplicativos, sejam curtas ou sérias, auxiliam na maturidade emocional e no autoconhecimento. O indivíduo mais fechado em si mesmo passa a se permitir conhecer pessoas diferentes.

Carolina Oshiro, médica de 33 anos, e Renato Paes, engenheiro de 34 anos, foram um dos casais que se conheceram no Tinder e tiveram uma história de sucesso.

Carolina conta que, antes de conhecer Renato, o aplicativo permitiu que ela conhecesse os gostos de quem conversava e, com isso, entendesse se a relação iria ou não para frente.  “Pela conversa, seja digitada, por telefone ou presencial, eu acho que você já consegue ver com quem você é mais compatível”, afirma.

Ao entender o que a agrada e o que não agrada, ela conseguiu economizar tempo e focar em pessoas com gostos semelhantes. O Tinder permitiu que ela conhecesse Renato, alguém compatível e com interesses iguais. 

Além deles, Karina Whoel, jornalista de 46 anos, conheceu o marido, Rodrigo Szymanski, professor de 40 anos, também no Tinder. A jornalista afirma que teve receio de conhecê-lo presencialmente, porém sempre gostou de conversar.  “Eu gosto muito da versão de aplicativo, da versão moderna de conhecer as pessoas… eu gosto dessa chance de ficar falando mais tempo até rolar alguma coisa”, declara. 

Adriana Nunan e Maria Penido, psicólogas e autoras do livro Relacionamentos Amorosos na Era Digital, relatam em sua obra que os aplicativos se tornam opções práticas e eficientes para conhecer pessoas novas, porém, também podem transformar o relacionamento em algo descartável. 

Capa do livro “Relacionamentos Amorosos na Era Digital” (Foto: reprodução/Amazon)

Conexões rasas e o custo do descarte

Os relacionamentos por aplicativos ocorrem por diversos motivos e, apesar de serem um facilitador para encontrar o amor, também podem contribuir para um distanciamento social. À medida que as pessoas avaliam potenciais parceiros apenas por fotos, sem se dar a oportunidade de conhecer alguém de fato, as escolhas podem se tornar mais frias e distantes. 

Algo que era para ser natural se torna mecânico e sem chance de aprofundamento, cria-se um ambiente em que as relações se desenvolvem com base em características superficiais. 

Além disso, após uma aproximação ou match, algumas pessoas criam expectativas altas de encontrar o parceiro ideal, o que intensifica a ansiedade. Forma-se um cenário de fantasia e de expectativas sobre o outro, que podem não ser atingidas, visto que os aplicativos não mostram toda a personalidade do parceiro.

Ainda de acordo com Adriana Nunan e Maria Penido, as mensagens não acompanham tom de voz, cadência, pausas e comportamentos não verbais, fatores que dificultam conhecer o parceiro de fato.

Comentários e relatos que circulam na internet sobre a superficialidade dos relacionamentos online também contribuem para uma mudança na percepção sobre essas ferramentas. Para alguns usuários, o aplicativo deixa de ser visto como uma possibilidade sincera de encontrar o amor e passa a representar um espaço de conversas superficiais, sem expectativa de futuro.

Nesse cenário, os ghostings — quando uma pessoa interrompe uma relação ou conversa sem explicação — também podem se tornar mais frequentes.

Do mesmo modo que as pessoas podem desaparecer no meio de uma conversa, a falta de investimento nos sentimentos pode ser favorecida pela própria lógica dos aplicativos. Como a plataforma oferece constantemente outras opções de parceiros em potencial, alguns usuários passam a não focar e investir nas relações. Rola um “oi, tudo bem?” e, se esse “oi” for interpretado num tom que desagrade, a pessoa já é descartada e a fila anda.

Essa falta de comprometimento e envolvimento fortalece ainda mais a lógica dos relacionamentos descartáveis. Ninguém investe em ninguém e, muitas vezes, perde-se uma pessoa que poderia ser o seu “parceiro ideal”.

O aplicativo passa a mercantilizar o namoro, com filtros específicos, seleções especiais e cálculos exatos para o usuário. As plataformas usufruem dessa vontade de encontrar um parceiro perfeito e incentivam o cliente a gastar com filtros detalhados.

Um exemplo disso é o Match Group, empresa dona de 45 marcas de namoro e avaliada em US$9,9 bilhões, que aumentou preços e trouxe novos planos de assinatura em suas plataformas, de forma a incentivar o usuário a gastar mais. 

Os planos oferecem benefícios como curtidas ilimitadas, capacidade de trocar mensagens antes do match e acesso a perfis mais bem avaliados, entre outros recursos.

Esse maior investimento nos aplicativos deixa ainda mais mecânico aquilo que os usuários já temiam e criticavam: a conversa se torna rasa e não há foco nos sentimentos. Algo que deveria ser leve e saudável torna-se uma transação comercial.

De forma geral, os aplicativos de namoro oferecem uma contradição: ao mesmo tempo que propiciam conversas com diferentes pessoas, também podem trazer decepções e falta de envolvimento.

Aplicativos de relacionamento populares e práticas de proteção aos usuários 

Nos anos 2000, os brasileiros foram apresentados a uma nova forma de conhecer pessoas. O site de relacionamentos ParPerfeito surgiu antes mesmo dos smartphones  no país e mostrou que era possível estabelecer conexões com diferentes pessoas por meio de uma tela. Nove anos depois, em 2009, o Grindr chegou aos celulares do público gay e bissexual como o primeiro aplicativo de relacionamento no Brasil.

As novidades foram recebidas com cautela por seus diferentes públicos. Afinal, “não fale com estranhos” é uma regra conhecida até mesmo no mundo real. Os aplicativos que surgiram posteriormente também precisaram lidar com essa preocupação e, ao longo dos anos, aprimoraram suas ferramentas de proteção diante do aparecimento de novas formas de risco.

A partir do ranking de aplicativos de relacionamento gratuitos do Google Play Store no Brasil, foram selecionadas cinco plataformas, a partir da variedade de público e do número de downloads, que é atualizado diariamente na lista. 

Atualmente, o Tinder é um dos aplicativos de relacionamento mais populares do mundo e foi lançado no Brasil em 2013. A plataforma já contabilizou mais de 55 bilhões de matches em 190 países. 

Entre seus recursos estão o Double Date, que permite que dois amigos participem juntos de um encontro, o Modo Astrologia, que possibilita encontrar pessoas com base nos signos, e o Modo Música, que permite compartilhar a música que o usuário está ouvindo.

A segurança, entretanto, sempre foi uma questão a ser aprimorada.

Em 2014, foi identificada uma falha de segurança na API da versão do aplicativo para IOS que permitia, por meio de tentativas sucessivas, triangular a localização de usuários pelo GPS e descobrir sua posição exata.

Em 2018, outra vulnerabilidade foi identificada. A criptografia HTTPS, responsável por proteger a troca de informações e garantir que os dados trafeguem de maneira segura pela internet, era utilizada apenas parcialmente. Com isso, invasores conectados à mesma rede Wi-Fi poderiam visualizar e inserir fotografias em perfis.

Atualmente, o sistema de segurança do Tinder conta com recursos como:

  • Verificação por foto;
  • Função “Compartilhar meu Date”;
  • Dicas de segurança disponíveis na página oficial;
  • Manuais com orientações para realizar denúncias de acordo com cada situação;
  • Central de Segurança do Tinder, seção que reúne informações sobre recursos de proteção, ferramentas, materiais de leitura e atividades educativas. O recurso ainda não está disponível em todos os países, mas a empresa afirma que pretende ampliar sua disponibilidade.

Um dos aplicativo de relacionamento mais instalado entre os brasileiros é o Badoo, plataforma voltada para pessoas que buscam iniciar relacionamentos. O serviço chegou ao Brasil em 2006, inicialmente como site, e posteriormente evoluiu para um aplicativo.

O primeiro caso de grande repercussão relacionado à segurança ocorreu em 2012, quando foi identificada uma vulnerabilidade que permitia assumir a sessão de outro usuário durante determinadas interações. Ao recarregar a página, era possível obter acesso à conta de outro usuário.

Em 2024, o Badoo foi afetado por uma vulnerabilidade identificada em mais de uma plataforma. O problema permitia estimar a localização de usuários com elevada precisão por meio da trilateração, técnica que calcula a posição de um alvo com base na distância em relação a outros três pontos.

Entre os recursos de segurança oferecidos pelo Badoo estão:

  • Proibição de armas nas fotografias;
  • Política de tolerância zero contra discursos de ódio, racismo e intolerância, com apoio da Anti-Defamation League (ADL), organização que atua no combate ao preconceito e ao extremismo;
  • Chamadas de voz e vídeo dentro do próprio aplicativo;
  • Verificação de fotos;
  • Verificação de identidade, realizada por meio de documento oficial;
  • Modo não perturbe;
  • Detector de privacidade, que utiliza inteligência artificial para desfocar automaticamente imagens potencialmente impróprias nas conversas;
  • Ferramentas de bloqueio e denúncia;
  • Funcionalidade para desfazer uma conexão;
  • Detector de fraudes baseado em inteligência artificial;
  • Compartilhamento de detalhes do encontro, como horário, local e informações da pessoa com quem o usuário se encontrará;
  • Cooperação com autoridades em solicitações de aplicação da lei;
  • Bloom, programa on-line de apoio a pessoas que passaram por situações traumáticas, como assédio sexual, agressão, abuso ou violência em relacionamentos íntimos. A plataforma oferece cursos autoguiados e materiais destinados a sobreviventes e profissionais.

Além disso, o Badoo conta com uma equipe global que monitora, 24 horas por dia, sete dias por semana, perfis falsos, spam e atividades que violam as regras da comunidade. Quando um usuário é denunciado, a plataforma afirma buscar solucionar a solicitação em até 48 horas e enviar uma notificação ao denunciante que informe se alguma medida foi tomada.

O Bumble é um aplicativo que trabalha com diferentes modalidades. O Bumble Date é voltado para pessoas que buscam relacionamentos românticos, enquanto o Bumble BFF é direcionado a quem procura novas amizades e companhias.

Lançado no Brasil em 2016, o aplicativo teve um de seus principais episódios relacionados à segurança em 2020. Uma vulnerabilidade em sua API permitiu que invasores contornassem determinadas restrições e colocou em risco dados sensíveis de cerca de 95 milhões de usuários, como fotos e curtidas.

O problema poderia afetar até mesmo pessoas que já haviam deixado de utilizar o Bumble, e quando a conta estava conectada ao Facebook, também era possível acessar informações como interesses e páginas curtidas.

O Bumble também foi afetado pela vulnerabilidade de localização identificada em 2024.

Como o Badoo e o Bumble pertencem à mesma companhia, a Bumble Inc., anteriormente chamada MagicLab, grande parte das ferramentas e políticas de segurança são compartilhadas entre as duas plataformas.

Lançado no Brasil em 2015, o Happn chegou ao mercado com um diferencial baseado na localização. A proposta do aplicativo é conectar pessoas que passaram próximas umas das outras, em determinado estabelecimentos, por meio de um mapa interativo, disponível desde 2018.

A vulnerabilidade identificada em 2024 também atingiu o Happn, mas, no caso da plataforma, estava relacionada à chamada trilateração de distância arredondada.

O sistema de segurança do aplicativo inclui:

  • Manuais com orientações sobre como se manter seguro no aplicativo, ter encontros seguros, sexualidade e consentimento;
  • Instruções para realizar diferentes tipos de denúncia;
  • Possibilidade de denunciar e bloquear usuários;
  • Mecanismos de moderação destinados a impedir a permanência de contas inadequadas;
  • Compartilhamento voluntário de geolocalização.

Embora a localização seja utilizada para aproximar pessoas, a plataforma afirm

O Grindr chegou ao mercado em 2009 como um aplicativo voltado à comunidade LGBTQIAPN+. A princípio voltado a homens gays e bissexuais, teve seu público ampliado.

Um dos maiores escândalos relacionados à segurança da plataforma ocorreu entre 2018 e 2020, no Reino Unido. O caso resultou em um processo movido por centenas de usuários, que alegaram que informações privadas, como dados relacionados ao status de HIV e à data do último teste, haviam sido compartilhadas com terceiros, sem consentimento, para fins comerciais.

Em 2020, outra vulnerabilidade foi identificada no recurso “Esqueci minha senha”. O código responsável pelo processo poderia expor um token de recuperação que, em determinadas circunstâncias, permitia que outra pessoa redefinisse a senha do usuário.

O caso de localização identificado em 2024 também envolveu o Grindr, mas, em uma modalidade de trilateração baseada em distâncias exatas, com precisão de aproximadamente 111 metros.

Em 2025, no Brasil, após o registro de um grande volume de crimes, como roubos, extorsões e homicídios em diferentes cidades, o Ministério Público Federal abriu uma investigação para apurar se plataformas voltadas à comunidade LGBTQIAPN+, entre elas o Grindr, adotam medidas eficazes para garantir a segurança dos usuários.

Entre os mecanismos de proteção apresentados pelo Grindr estão:

  • Guias sobre saúde sexual, saúde mental e bem-estar, direitos e conscientização, uso de substâncias e recursos específicos para pessoas transgênero e de gênero diverso;
  • Conteúdos relacionados ao HIV e ao processo de se assumir;
  • Guias de segurança e privacidade;
  • Orientações para solicitar a remoção de conteúdos;
  • Dicas de segurança e privacidade durante o uso da plataforma.

Mas, a proteção oferecida pelas plataformas não elimina todos os riscos. Além da segurança dos dados e da possibilidade de golpes, os próprios relacionamentos construídos nesses ambientes podem produzir impactos psicológicos e emocionais.

Riscos emocionais dos relacionamentos virtuais

Duas pessoas conversando pelo computador (Foto: reprodução/Unsplash+)

As relações online apresentam uma dualidade para quem busca o amor. Pessoas com os mais variados perfis recorrem às plataformas digitais — desde aquelas cansadas da solidão até as que se frustraram com incompatibilidades no mundo real.

Afinal, os encontros presenciais exigem mais do indivíduo: demandam tempo, investimento constante na aparência e habilidade de conversação, o que pode ser desafiador, especialmente para os mais introspectivos.

Nesse cenário, o ambiente virtual surge como um espaço de apoio emocional, autoexpressão e criação de laços. No entanto, também traz riscos: a alta exposição pessoal e o consequente receio quanto à própria imagem, além da tendência à idealização do outro.

O desgaste com vínculos presenciais frágeis e a urgência em encontrar um parceiro costumam ser fortes motivadores para o uso do aplicativo. O psicólogo Otávio Marques, de 28 anos, analisa essa dinâmica: 

“A maioria das pessoas vai sentir essa necessidade, ‘eu quero namorar, eu quero ter alguém para dividir essa vida, eu quero ter alguém porque nossa cultura toda é em volta de ter um casal’, e acaba que ali cria um ambiente propício”.

Foto: reprodução/Instagram Otávio Marques

O psicólogo pontua que, diante da dificuldade de encontrar parceiros no cotidiano, as pessoas recorrem às redes. Segundo o profissional, não há um perfil único de usuário — já que hoje pessoas de todas as idades usam aplicativos —, mas existem perfis mais propensos. É o caso de quem tem dificuldade em se relacionar presencialmente, como os tímidos, para quem a tela funciona como um facilitador.

O problema é que essa facilidade inicial pode gerar expectativas irreais, que desencadeia a idealização do relacionamento.

Idealização e fantasia 

Uma pesquisa do Journal of Psychopathology and Clinical Science de 2025 revelou que 23,5% dos adolescentes entre 13 e 18 anos utilizaram aplicativos de namoro durante seis meses. O estudo observou ainda que esses mesmos jovens apresentaram mais sintomas relacionados à depressão.

Esses sintomas decorrem de múltiplos fatores, mas a idealização da entrega amorosa se destaca. Espera-se que o relacionamento — especialmente na juventude — funcione como uma cura para todas as dores pessoais. A baixa autoestima e a ansiedade, somadas à comparação com a vida alheia nas redes, faz com que o indivíduo acredite que só será feliz se encontrar o par perfeito.

A perfeição e a fantasia são elementos presentes nos aplicativos. Os perfis são cuidadosamente editados para mostrar apenas o melhor de cada um. Essa imagem projetada costuma ocultar o seu eu verdadeiro, fazendo com que muitos prefiram viver a fantasia a encarar o mundo real.

Além disso, o excesso de opções nos aplicativos gera frustração e reduz a tolerância às imperfeições de um convívio diário. Em seus estudos, a psicoterapeuta belga Esther Perel aponta como o amor se tornou “catalogável”: ao primeiro sinal de frustração, substitui-se o diálogo e o investimento na relação pela busca frenética por uma nova opção.

Essa busca incessante pelo par perfeito gera um ciclo contínuo de desilusão, sem alcançar o par perfeito de fato. 

Dependência psicológica e validação

A busca obsessiva pela perfeição pode se transformar em dependência, seja pelo uso compulsivo da plataforma, seja no apego rápido e excessivo ao parceiro encontrado.

No caso do uso compulsivo do aplicativo, os sinais incluem a checagem frequente de mensagens, a ansiedade por respostas e a insegurança com a própria imagem, muitas vezes atrelada ao número de matches obtidos.

Quando o usuário passa a se validar pelas interações virtuais, sua autoestima torna-se refém da aprovação alheia, com o apagamento da sua própria identidade.

Conforme aponta o estudo do Journal of Psychopathology and Clinical Science, o uso dos aplicativos não é errado em si, mas exige cautela para não confundir vínculos reais com ciclos de expectativa e frustração. A busca constante por validação pode cansar o indivíduo, que se mantém conectado o tempo todo, mas sem vivenciar uma conexão genuína.

Paralelamente, surge a dependência do parceiro idealizado. Pessoas fragilizadas por anos de solidão podem apostar “todas as suas fichas” no novo vínculo, até a consolidação de uma dependência emocional extrema.

Para o psicólogo Otávio Marques, o maior perigo reside no fato de que o indivíduo dificilmente percebe o problema enquanto ele se desenvolve — o que é ainda mais grave no ambiente virtual:

“Objetivamente, essa outra pessoa não existe. A outra pessoa nunca esteve no contexto físico, só através do online. Então, para quem cria essa dependência virtual, sair dela é muito pior”. 

Ele complementa que o alerta geralmente vem de fora. Afastar-se de amigos, abandonar momentos de lazer e não conseguir ter prazer sem a presença do outro são sinais de alerta. O primeiro passo para a recuperação, segundo o profissional, é o reconhecimento do problema e a busca por apoio terapêutico e familiar.

Impactos pós-golpe

Se as dinâmicas virtuais já trazem desafios psicológicos complexos, o cenário se agrava em casos de golpes afetivos.

Criminosos constroem perfis atraentes e mantêm conversas cuidadosas com o objetivo claro de cultivar admiração, confiança e dependência emocional na vítima. Declarações intensas e promessas de futuro são direcionadas a pessoas fragilizadas que buscam uma saída para a solidão.

Uma vez atingido o objetivo, geralmente após conseguir dinheiro, o golpista desaparece. O impacto na autoestima da vítima pode ser profundo, ao deixar marcas de medo, trauma e descrença no amor.

Segundo Otávio, o aspecto mais difícil da recuperação não é necessariamente o prejuízo financeiro ou o golpe em si, mas a perda da autoconfiança, que faz a vítima se fechar ainda mais para o mundo. 

No consultório, o trabalho terapêutico em casos de traumas virtuais e golpes amorosos envolve acolhimento gradual, sem forçar a vítima a reviver a dor. A psicologia surge como o caminho fundamental para a reconstrução da confiança e a cura emocional.

Recurso Visual de Prints Fictícios (“Print-storytelling”)  

Ilustração de diálogos fictícios a respeito do golpe. (Foto: Criada por Gemini)

Os riscos psicológicos são consequências de diversos fatores e um dos mais marcantes é o golpe afetivo. Mas quais são os tipos de fraude que podem ocorrer no ambiente virtual?

Romance Scam: quando o amor vira golpe

Ao se relacionar na internet as pessoas podem se deparar não apenas com o amor de suas vidas, mas também com diversos golpes que podem envolver abuso financeiro, chantagem emocional, roubos de dados pessoais, perfis falsos e catfishing, assédio e violência. Esse fenômeno é conhecido como Romance Scam. 

Segundo a Interpol, fraudes digitais causaram prejuízos de US$442 bilhões no mundo em 2025. No Brasil, os valores desviados chegam a somar milhões de reais por ano, e o número de ocorrências cresce à medida que as redes sociais se expandem. Um estudo da ACI Worldwide e da GlobalData estima que golpes românticos no Brasil devem causar cerca de R$440 milhões em prejuízos no país até 2028.

Segundo uma pesquisa da Norton, 21% dos brasileiros que usam apps de namoro já foram alvo de fraudes, e 85% dessas vítimas sofreram golpes românticos, catfishing ou extorsão. 

(Gráfico: Júlia França)

Há também variações modernas do golpe que misturam o romance com propostas de investimento, especialmente em criptomoedas, o que torna a fraude ainda mais sofisticada, como o pig butchering.

Estelionato: Artigo 171 do Código Penal Brasileiro. Consiste em obter vantagem ilícita para si ou para outra pessoa, ao provocar prejuízo financeiro alheio. Pode ser cometido por meio de fraude ou mentira em que o agente induz ou mantém alguém em erro. 

Estelionato sentimental ou afetivo: Ocorre quando alguém finge um vínculo amoroso para conquistar a confiança da vítima e obter dinheiro. O Supremo Tribunal Judiciário (STJ) reconheceu, em 2025, que o estelionato sentimental pode constituir ato ilícito capaz de gerar indenização por danos materiais e morais. 

Fraude eletrônica: Foi acrescentado ao art. 171 o parágrafo 2º-A como uma modalidade de estelionato qualificado. Ocorre quando alguém usa redes sociais, ligações, e-mails ou outros meios digitais para enganar ou obter dados ou vantagens ilícitas de uma vítima. 

Extorsão: Artigo 158 do Código Penal Brasileiro. Consiste em constranger alguém, por meio de violência ou grave ameaça, com o intuito de obter indevida vantagem econômica. 

Sextorsão: Criminosos usam fotos ou vídeos íntimos para chantagear a vítima e exigem dinheiro, favores sexuais ou a manutenção de um relacionamento abusivo. Essa prática visa coagir a pessoa sob a ameaça de divulgar publicamente seu material íntimo.

Falsa identidade: Previsto no Capítulo IV (“De Outras Falsidades”) do Código Penal Brasileiro e consiste em condutas que visam enganar sobre a real identidade de uma pessoa para obter benefícios ou causar prejuízos. 

Cuidados ao se relacionar online

  1. Utilize plataformas seguras: Use plataformas conhecidas e que ofereçam recursos de segurança, como autenticação em dois fatores, verificação de identidade e canais para denunciar ou bloquear perfis suspeitos. Também não clique em links externos nem faça downloads enviados pela pessoa, especialmente quando você não conhece a procedência do arquivo. Links podem redirecionar para páginas falsas e downloads podem conter programas maliciosos capazes de comprometer sua conta ou seus dados.
  1. Preserve suas informações pessoais: Não compartilhe fotos íntimas, nudes, localização em tempo real ou dados sensíveis como endereço, nome completo, documentos, senhas, informações bancárias, endereços e rotina diária. 
  1. Confirme a identidade da pessoa que está conversando: Procure confirmar se a pessoa é realmente quem diz ser. Observe se as informações apresentadas em diferentes redes sociais são coerentes, faça vídeo chamadas. Também é possível pesquisar o nome da pessoa em fontes públicas, como o Jusbrasil, mas lembre-se de que resultados encontrados na internet podem se referir a homônimos e não comprovam, sozinhos, a identidade de alguém. 

4. Não envie dinheiro: Golpistas podem criar histórias envolvendo emergências, problemas de saúde, viagens, dívidas, oportunidades de investimento e até compras de dispositivos eletrônicos para falar com você. Esses pedidos geralmente são acompanhados de pressão, urgência e promessas de devolução, mas devem ser tratados como sinais de alerta. Se a pessoa insistir ou tentar fazer você se sentir culpado por não ajudar, interrompa a conversa e fale com uma pessoa de confiança antes de tomar qualquer decisão. 

5. Registre suas conversas: Guarde mensagens, e-mails, nomes de usuário, links de perfis e comprovantes de transações, sem alterar ou apagar o conteúdo. Esses registros podem ser importantes caso seja necessário denunciar um perfil.

6. Mantenha uma vida offline: Cultive relações, atividades e momentos fora das telas. Ter amigos, familiares, hobbies, estudos e outros espaços de convivência ajuda a evitar que um relacionamento virtual se torne sua única fonte de companhia, atenção ou apoio emocional. A carência e o isolamento podem fazer com que a pessoa se torne mais dependente da relação online e ignore sinais de alerta por medo de perdê-la.

Quando for ter um primeiro encontro com alguém que conheceu pela internet, também é preciso tomar alguns cuidados:

Lista de cuidados ao se relacionar com alguém virtualmente. (Foto: Júlia França)

Essas precauções se tornam ainda mais importantes à medida que se vê na internet histórias reais que evidenciam os perigos de encontros que acarretam golpes. Para saber mais sobre os crimes, o perfil das vítimas, as principais precauções e as medidas cabíveis, confira o Trilhoscast, episódio “Amor nas redes”, que traz uma entrevista exclusiva com Leonardo Góes de Almeida, advogado e mestre em Ciência Jurídica, com atuação nas áreas de Direito Digital, Proteção de Dados e Inteligência Artificial.

Do celular à notícia: casos que se tornaram famosos

A conscientização e a nomeação desses golpes se tornaram mais acessíveis após a divulgação pela mídia. Com isso, alguns casos ganharam notoriedade e passaram a despertar a curiosidade do público, seja pelas estratégias utilizadas pelos golpistas, seja pelas circunstâncias em que os crimes ocorreram.

A exposição desses episódios também levanta outra questão: como a imprensa constrói as histórias de golpes afetivos e influencia a forma como o público compreende esses crimes?

Como a mídia retrata os golpes do amor

Pessoa mexendo em aplicativo de namoro. (Foto: Getty Images/iStockphoto)

Os casos de fraudes afetivas costumam ser retratados pela imprensa de forma explicativa. Os veículos jornalísticos, em sua maioria, seguem um padrão: abrem espaço para expor as estratégias de manipulação utilizadas, com foco inicial no sofrimento da vítima e nas perdas financeiras sofridas. Ao final, cumprem um papel educativo ao oferecer orientações sobre como se prevenir.

As vítimas são, no geral, o eixo central das matérias. A construção da notícia costuma iniciar pelo impacto imediato — o dinheiro perdido —, para então desdobrar a linha do tempo: onde o casal se conheceu, quanto tempo durou a conversa e como funcionou a engenharia social do criminoso, que usou palavras de carinho para conquistar a confiança.

Além da apresentação do caso, algumas matérias se desdobram para abordar consequências psicológicas e jurídicas. Por se tratar de um crime cada vez mais frequente em aplicativos de namoro, a imprensa busca contextualizar o que fez a vítima acreditar na história, ao reforçar a utilidade pública do jornalismo.

Brasil X outros países 

Em uma pesquisa internacional mais recente, publicada pela Norton em 2026, a empresa ouviu 14.003 adultos em 14 países: Brasil, México, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Japão, Austrália, Nova Zelândia, República Tcheca e Hong Kong.

Nesse levantamento, 34% dos usuários atuais de aplicativos de namoro afirmaram ter sido alvo de um golpe. Entre aqueles que foram alvo, 64% disseram ter caído em uma fraude. O estudo também identificou que 36% dos usuários atuais de namoro online afirmaram ter sido pressionados a enviar dinheiro para alguém que conheceram pela internet.

Mas a pesquisa internacional acrescenta outra dimensão à discussão: a solidão.

81% dos entrevistados disseram experimentar solidão. O índice foi ainda maior em alguns dos países pesquisados: chegou a 90% no Japão, 88% em Hong Kong e 86% na Colômbia. No Brasil, o percentual foi de 82%.

Os resultados não permitem afirmar que a solidão seja responsável pela ocorrência de golpes, mas ajudam a contextualizar o ambiente em que essas relações são construídas. No levantamento da Norton, 24% dos entrevistados afirmaram que a solidão os leva a tomar decisões mais arriscadas em relação a encontros online.

A busca por conexão, portanto, aparece acompanhada de uma série de desafios. Ao mesmo tempo em que os aplicativos ampliam as possibilidades de conhecer pessoas, também criam espaços para identidades falsas, manipulação emocional e diferentes tipos de fraude. E o cenário ainda está em transformação. 

A tecnologia não está apenas mediando os encontros. Ela começa também a participar da escolha de parceiros, da interação entre usuários e da própria construção das relações.

A era do cupido digital: Participação IA

Ilustração de dois celulares com corações voando entre eles. (Foto: Getty Images/Reprodução)

A inteligência artificial também transforma a forma como as pessoas procuram relacionamentos na internet. Além de recomendar perfis, a tecnologia começa a assumir funções que antes dependiam dos usuários, como selecionar possíveis parceiros, analisar preferências e até oferecer sugestões para conversas.

Segundo reportagem do The New York Times, aplicativos como Tinder, Hinge, Grindr e Bumble testam ou incorporam ferramentas de IA. Entre as funções estão sistemas que analisam perfis e preferências para melhorar os matches, oferecem orientações para conversas e até permitem que o usuário descreva características do parceiro que procura.

A mudança também aparece no comportamento dos próprios usuários. Diante da queda na satisfação dos usuários e da dificuldade de manter assinantes, as plataformas passaram a enxergar a inteligência artificial como uma possível forma de modificar a experiência de busca por parceiros.

Em vez de oferecer um fluxo interminável de perfis para deslizar, os chamados “casamenteiros de IA” prometem selecionar algumas opções consideradas mais compatíveis.

O Tinder, por exemplo, testou o serviço de compatibilidade com IA Chemistry, que pode analisar informações da galeria de fotos para aprender mais sobre o usuário. O Grindr também lançou ferramentas de IA que oferecem conselhos para conversas, reintroduzem antigos matches e geram resumos de perfis.

O Hinge utiliza IA para fornecer feedback sobre perfis e reprogramou seu algoritmo de compatibilidade para aprender melhor as preferências dos usuários. Já o Bumble planeja lançar um aplicativo de namoro baseado em inteligência artificial. A tecnologia, entretanto, não está presente, se encontra apenas nos bastidores da empresa.

Segundo uma pesquisa internacional da Norton, 67% dos usuários atuais de aplicativos de namoro considerariam namorar um chatbot de inteligência artificial, enquanto 37% acreditam ser possível desenvolver sentimentos românticos por uma IA.

A possibilidade de estabelecer vínculos afetivos com sistemas artificiais abre uma nova discussão sobre os limites entre tecnologia e relacionamento. Se os aplicativos já participam da seleção de pessoas e da mediação das conversas, a inteligência artificial pode passar a ocupar um papel ainda mais próximo da própria experiência emocional.

Com isso, surge uma questão que ainda não tem resposta definitiva: até onde a inteligência artificial pode participar da construção de um relacionamento, sem substituir as escolhas humanas? 

No fim, a história dos amores virtuais parece voltar ao ponto de partida: uma tela, uma conversa e a expectativa de encontrar alguém do outro lado. A diferença é que, cada vez mais, não se tem certeza das intenções do usuário do outro lado, muito menos se é, de fato, uma pessoa. 

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