André Merli, Bianca Costa, Lana Vitória, Maria Clara Coelho e Sinara Martins

Em agosto foi comemorado o Dia da Pintura, uma data dedicada a uma forma de arte capaz de transformar pensamentos, sentimentos e momentos históricos em cores e formas. Mas, para além das telas e dos museus, a pintura também ocupa espaços que fazem parte da rotina. 

Quem circula por edifícios públicos costuma se habituar à neutralidade das paredes. É uma arquitetura funcional, projetada para o trânsito rápido e para a impessoalidade. Contudo, quando a tinta ganha intenção e forma sobre a alvenaria, ela provoca uma espécie de ruído no olhar: obriga quem passa a desacelerar e ativa uma relação afetiva com o lugar.

Fica, então, a questão: o que muda na dinâmica do cotidiano quando um espaço de passagem ganha cor?

Na gestão pública e institucional, o ato de pintar transita por duas lógicas distintas. De um lado, está a pintura utilitária, voltada à zeladoria e à manutenção do patrimônio, um esforço técnico e contínuo financiado por programas governamentais, a exemplo do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), que destina recursos para preservar a estrutura física de prédios escolares. 

Do outro lado, está o muralismo e a arte urbana, gestos pensados para humanizar a arquitetura, estimular a imaginação e construir pertencimento. É no espaço entre a conservação do concreto e a provocação do olhar que a comunidade reconecta sua identidade com os locais onde vive.

Foto: Maria Clara Coelho/Trilhos Jornalismo.

A cor como parte do ambiente

A presença de obras de arte em campus  universitários não é novidade, mas quase sempre acaba diluída como fundo decorativo. A diferença ocorre quando a intervenção visual nasce de uma investigação sobre o próprio comportamento de quem ocupa o prédio. 

Foi essa a premissa que guiou o mural do Restaurante Universitário (RU) da Unesp Bauru, projetado pela arquiteta Ludmila Mello em seu Trabalho de Final de Graduação. 

Ludmila explicou que o RU era um ambiente essencialmente de passagem, marcado pela pressa do almoço e por uma estética fria e impessoal. Para inverter essa lógica, o muralismo não poderia ser uma imagem genérica. A composição precisava espelhar o próprio ecossistema do restaurante e da cidade. Assim, a narrativa visual entrelaça os trilhos de trem, o café e os rios de Bauru com os temperos, conchas, tomates e o próprio desenho geométrico do clássico: bandeja de inox.

Ao optar por uma paleta de cores quentes e vibrantes, o projeto buscou alterar a temperatura psicológica do salão. A cor deixou de ser revestimento para virar recurso de conforto ambiental. 

A hipótese da pesquisa se confirmou no comportamento dos frequentadores após a conclusão da pintura: a percepção do RU mudou de um ambiente ruidoso e utilitário para um ponto de acolhimento. A arte provocou o desejo de desacelerar, transformando a refeição rápida em um momento de permanência.

Tintas como objeto de transformação 

Se a pintura pode mudar a maneira como as pessoas percebem e ocupam um espaço, ela também passa a fazer parte de uma discussão maior: a de como cuidar dos ambientes coletivos. 

Essa perspectiva dialoga com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11, estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), que propõe tornar cidades e assentamentos humanos mais inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.

Nesse sentido, cuidar de um espaço público não significa apenas garantir que sua estrutura permaneça de pé. A conservação da infraestrutura é indispensável, mas a forma como esse ambiente é apresentado e vivido também interfere na relação das pessoas com ele.

Uma parede descascada, um corredor sem manutenção ou um salão completamente impessoal comunicam algo sobre aquele lugar. Da mesma forma, uma intervenção artística pode comunicar acolhimento e pertencimento.

A pintura, portanto, não substitui a infraestrutura nem resolve problemas estruturais. Ela atua em outra camada do cuidado: aquela que transforma a experiência cotidiana de quem utiliza o espaço.

Quando uma escola, universidade ou equipamento público recebe uma intervenção pensada a partir da comunidade, a parede deixa de ser uma superfície a ser conservada e passa a fazer parte da história daquele lugar.

É assim que a arte urbana encontra a gestão dos espaços coletivos. A tinta e o mural também podem ser maneiras de dizer que aquele ambiente é ocupado e vivido.

Gráfico: Maria Clara Coelho/Agência Trilhos.
Afirmações retiradas de pesquisa realizada pelo Google Forms com alunos da UNESP Bauru em resposta à pergunta: “Você acredita que as pinturas ajudam a tornar o ambiente da universidade
mais acolhedor? Por quê?”.

Ao Vivo e em Cores: arte dentro das escolas

A experiência do RU encontra outro exemplo em Bauru, desta vez dentro das escolas públicas. Criado na Unesp Bauru, o Ao Vivo e em Cores surgiu a partir de uma intervenção no Parque Vitória Régia e, desde 2013, leva ações artísticas para escolas da cidade.

Para Marianny Souza, diretora do projeto, a transformação visual não é suficiente para estabelecer uma relação de pertencimento. “Não acredito que a cor por si só traz a sensação de pertencimento ao espaço público. Por isso, os estudantes participam da construção da proposta antes mesmo de qualquer parede ser pintada”, afirma. 

Depois que uma escola é escolhida, o projeto realiza uma reunião com o corpo docente e inicia a etapa chamada “Sonho & Criação”. É nesse momento que a equipe conversa com os alunos para conhecer seus interesses e entender como eles enxergam aquele ambiente. 

As informações coletadas formam um perfil dos estudantes, utilizado posteriormente na definição das artes e de outros projetos desenvolvidos durante a ação.

Reality sobre o dia a dia do projeto. Vídeo: Faac webTV.

A participação dos estudantes é um dos elementos centrais da proposta do Ao Vivo e em Cores. O projeto estabelece entre seus objetivos estimular o pertencimento e o cuidado com os espaços públicos atendidos. 

Além dos murais, o projeto pode desenvolver hortas, bancos de pneus, mesas musicais e outras intervenções de acordo com as necessidades identificadas em cada escola. A ação também envolve oficinas, atividades com os alunos e a busca por parcerias com outros projetos da universidade.

Marianny relata que professores já perceberam os estudantes mais envolvidos com a escola e mencionaram mais motivação para trabalhar. Segundo a diretora do projeto, também há relatos de mudanças na relação dos alunos com os docentes e de redução da evasão escolar após as intervenções.

Arquitetura e cor

Para o arquiteto e urbanista Marcos Pin, formado pela Unesp Bauru, a arte não ocupa uma posição secundária dentro da arquitetura. “A arte nunca é um mero adereço”, afirma. Em espaços educacionais, ele considera que ela participa da dinâmica do local, interação entre seus ocupantes e da maneira como o ambiente é utilizado.

Essa questão ganha peso, segundo o entrevistado, porque parte da arquitetura educacional ainda reproduz ambientes que ele define como “quadrados, frios e impessoais”. Nesse cenário, cores e desenhos podem alterar percepções e criar outras possibilidades de relação com os espaços. “A arte tem papel fundamental na quebra desse ambiente ‘árido’”, afirma o arquiteto.

Marcos também considera que cores, formas e texturas interferem na percepção do ambiente. Para ele, espaços visualmente menos monótonos podem contribuir para experiências associadas à criatividade e curiosidade.

Foto: Maria Clara Coelho/Trilhos Jornalismo. Alterada com auxílio do ChatGPT.
Foto: Maria Clara Coelho/Trilhos Jornalismo. Alterada com auxílio do ChatGPT.

A identificação do estudante com o local também aparece nessa discussão. “Quando o aluno se vê representado no espaço ou quando ele parece acolher ao invés de restringir, torna possível essa identificação e a criação de um vínculo com a arquitetura”, explica.

Além disso, a arte também pode estimular o pensamento crítico. Marcos afirma que murais e outras obras podem representar questões presentes entre os estudantes e provocar discussões. “É essencial pensar em espaços que permitam o novo, a mudança, interação e as manifestações espontâneas da arte que ali podem surgir”, completa. 

Impactos da intervenção artística 

Nos casos acompanhados pela reportagem, as intervenções partem de propostas diferentes. No RU da Unesp, o mural foi desenvolvido a partir das características do restaurante e de referências ligadas a Bauru. 

Já no Ao Vivo e em Cores, a criação é construída com a participação dos estudantes e considera as particularidades de cada escola. Em ambos, a intervenção passa a integrar um espaço utilizado diariamente.

A mudança mais evidente é a visual, mas não é a única apontada pelas fontes. No RU, a artista buscou modificar a experiência de permanência no restaurante a partir das cores e dos elementos representados no mural. 

Nas escolas, o Ao Vivo e em Cores associa as intervenções à identificação dos estudantes com o ambiente. Para o arquiteto Marcos Pin, a arquitetura também participa dessa relação ao influenciar a forma como os espaços são percebidos e ocupados.

Essa transformação, no entanto, não deve ser confundida com uma solução para problemas estruturais. Uma intervenção artística não substitui manutenção, acessibilidade, iluminação, ventilação ou outras condições necessárias ao funcionamento de uma escola ou universidade. 

No próprio Ao Vivo e em Cores, as ações podem incluir hortas, bancos, mesas e oficinas, além dos murais, justamente porque a intervenção não se limita à pintura das paredes.

É nesse conjunto de fatores que se encontram os diferentes efeitos atribuídos às intervenções analisadas pela reportagem. A cor pode mudar a aparência, a arte pode introduzir referências e os usuários podem participar da construção desses elementos. 

Foto: Maria Clara Coelho/Trilhos Jornalismo.

A cor modifica a aparência, a arte acrescenta referências ao ambiente e a participação dos usuários interfere na forma como essas mudanças são construídas, enquanto a arquitetura determina como esses elementos se inserem e são percebidos no espaço. Assim, a intervenção vai além da mudança visual e pode mudar também a forma como as pessoas percebem e usam aquele espaço no dia a dia.

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