Camila Possente, Isabel Assis, Lucas Marengoni e Vitória Mendes

Aos 21 anos, Rayssa Vitoria, estudante da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, já constrói seus primeiros passos para uma trajetória dedicada à Ciência. Aluna do bacharelado, no terceiro ano do curso de Biologia, ela encontrou nos ambientes aquáticos a oportunidade de fazer a diferença.

Rayssa Vitoria. Imagem: Acervo pessoal.

Rayssa pesquisa sobre os insetos aquáticos e o impacto que as ações antrópicas têm sobre eles. A estudante integra um laboratório de bioindicadores ambientais, e o que mais chamou sua atenção neste grupo, foi que 80% dele é composto por mulheres, desde estudantes da graduação, mestrandos e doutorandos. 

Seu interesse pela Ciência foi impulsionado por cientistas brasileiras. Ao conhecer o trabalho das mulheres responsáveis pela decodificação do genoma do coronavírus, Jaqueline Goes de Jesus e Ester Cedeira Sabino, ela se sentiu representada e passou a enxergar um futuro na Ciência brasileira.

“Eu pensei: caraca, que legal, uma mulher brasileira que descobriu. E assim eu fiquei mais interessada na área da pesquisa”, comentou a estudante.

A experiência na universidade fez com que ela observasse a questão do machismo de perto, vendo que homens e mulheres podem desempenhar as mesmas funções, mas nem sempre recebem o mesmo reconhecimento ou valorização. Na Biologia, essa diferença se torna ainda mais evidente durante as pesquisas de campo.

Segundo a estudante, algumas situações são marcadas por questionamentos direcionados às mulheres, que têm sua capacidade colocada em dúvida. Perguntas como “Você dá conta?” ou “Ah, vocês não passam mal?” revelam, para ela, uma visão de que as mulheres seriam menos preparadas para atividades realizadas em campo.

Os recursos

O caminho até a bolsa de pesquisa não foi imediato. A experiência de Rayssa revela as dificuldades estruturais enfrentadas por quem faz pesquisa no Brasil. Ela passou um ano e meio sendo voluntária no laboratório até conseguir o financiamento do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPQ. 

“O financiamento não é bom. Eu falo no geral, não só em questão do laboratório. Às vezes, a gente precisa ir para campo e não tem ônibus ou carro disponível porque está quebrado, sem dinheiro para manter as viagens”, relata. 

A bolsa para a pesquisa, hoje, é necessária para sua permanência na área e na universidade. Porém, as dificuldades continuam e não são individuais.

Isso porque a falta de investimentos também pode afetar o desenvolvimento dos estudos, desde o deslocamento até os locais de coleta e a própria continuidade das atividades científicas. 

Ela afirma que colegas de outros cursos e áreas de pesquisa, como a Geografia, sofrem do mesmo problema: a falta de verba. A diferença em sua percepção, aparece quando compara essas áreas com cursos que possuem maior investimento e estrutura, como Medicina. 

No laboratório, a falta de recursos pode atrapalhar a infraestrutura e a continuação das pesquisas. A estudante relata que, muitas vezes, são projetos desenvolvidos pelos próprios pesquisadores que permitem a compra dos materiais necessários para a manutenção de algumas pesquisas. 

A falta de recursos também resulta na precariedade da universidade. Segundo a estudante, há laboratórios onde aparelhos de ar-condicionado estão sem funcionar há anos.

Quando os problemas são levados à universidade, a resposta, de acordo com Rayssa, costuma ser a falta de recursos para realizar os reparos ou substituir os equipamentos. 

Mesmo com as dificuldades, ela não pensa em desistir. 

“Quero ser uma pesquisadora acessível, capaz de fazer com que o conhecimento chegue até pessoas que, muitas vezes, estão distantes da universidade e da Ciência. Quero que até um “senhorzinho” consiga entender o que está acontecendo e perceba como aquela pesquisa pode impactar na vida dele. Quero fazer a diferença

O financiamento no Brasil

O financiamento da pesquisa faz diferença na vida de muitas pessoas como Rayssa. No ano de 2025, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) registrou 45.480 grupos de pesquisa e 269.816 pesquisadores. No total, são 104.412 bolsas vigentes, sendo 103.757 destinadas a pesquisadores no Brasil.

Entre elas, 33.794 são bolsas de iniciação científica, o equivalente a 32,36% do total. É nessa etapa que muitos estudantes têm o primeiro contato com a pesquisa e começam a enxergar a universidade também como um espaço de produção de conhecimento.

Para estudantes como Rayssa, que encontram na Ciência uma possibilidade de transformar a trajetória, uma bolsa pode representar mais do que um auxílio financeiro: pode ser a oportunidade de permanecer na universidade e construir uma carreira científica.

Porém, nota-se uma diferença em relação às grandes áreas de conhecimento. De acordo com os dados obtidos a partir da Lei de Acesso à Informação (LAI), as bolsas de fomento estão distribuídas entre 13 grandes áreas.

Além das categorias “Outra” e “Indefinido”, Ciências Exatas e da Terra concentra o maior número, com 17.119 bolsas (16,39%), seguida por Ciências Humanas, com 14.700 (14,07%), e Ciências da Saúde, com 13.078 (12,52%). Na outra ponta, áreas como Linguística, Letras e Artes somam 2.932 bolsas.

A distribuição também revela diferenças entre as regiões do país. O Sudeste concentra 43.986 bolsas, correspondentes a 42,12% do total. Em seguida aparecem Nordeste, com 22.576 (21,62%), Sul, com 18.723 (17,93%), Centro-Oeste, com 10.868 (10,40%), e Norte, com 7.604 bolsas, representando 7,28%. 

Os dados do CNPq também ajudam a traçar o perfil de quem faz Ciência no Brasil. Entre os pesquisadores registrados, as mulheres são maioria: representam 60,49%, com 135.319 pesquisadoras, enquanto os homens correspondem a 39,51%, totalizando 88.383. 

Quando o recorte é racial, porém, os números revelam que pessoas brancas representam 56,10% dos pesquisadores, com 125.502 registros, enquanto pessoas pardas correspondem a 29,12% (65.146) e pessoas pretas, a 9,03% (20.192).

Já os indígenas representam cerca de 0,4% dos pesquisadores, enquanto 3,91% não declararam sua raça ou cor. Os números mostram que, embora as mulheres tenham uma presença expressiva na produção científica, a participação racial ainda é desigual.

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior 

A CAPES também atua neste cenário, foi fundada pelo MEC (Ministério da Educação no Brasil), criada em 1951. Ela é responsável por avaliar, regular e financiar os cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) e incentivar a produção científica e a formação de professores para a educação básica. 

Os valores das bolsas também ajudam a dimensionar o que significa, na prática, financiar a formação de pesquisadores. Durante uma década, os valores das bolsas de mestrado e doutorado permaneceram sem reajuste, entre 2013 e 2022, antes de serem atualizados em 2023.

Em 2025, as bolsas de pós-graduação da CAPES continuaram seguindo a tabela estabelecida pela Portaria nº 33, de fevereiro de 2023. Atualmente, o valor mensal é de R$ 2.100 para estudantes de mestrado, R$ 3.100 para doutorandos e R$ 5.200 para pesquisadores de pós-doutorado. 

Essas bolsas de pesquisa não devem ser confundidas com um salário. O pagamento da CAPES não estabelece, por exemplo, vínculo empregatício entre o pesquisador e a instituição. Por isso, o bolsista não possui direitos trabalhistas de um empregado com carteira assinada, como férias e 13º salário.

A dedicação exclusiva também deixou de ser uma exigência geral. Desde 2023, a CAPES permite o acúmulo de bolsas com atividades remuneradas, desde que sejam respeitadas as regras da instituição e do programa de pós-graduação. Assim, o bolsista pode trabalhar enquanto pesquisa, dependendo das condições estabelecidas pelo próprio programa.

A bolsa também não representa uma contribuição automática para a Previdência Social. Como não há vínculo empregatício, o período de pesquisa não funciona da mesma maneira que um emprego formal para a construção da aposentadoria. O bolsista pode, porém, contribuir ao INSS como segurado facultativo, seguindo as regras da Previdência.

A maternidade também passou a receber atenção específica nas políticas de permanência na Ciência. A CAPES prevê a prorrogação das bolsas por até 180 dias para mães em casos de parto, adoção ou guarda judicial, além de outras situações relacionadas à parentalidade. Para pais, a prorrogação pode chegar a 30 dias em determinadas situações.

O Programa Aurora

A maternidade também passou a ser considerada nas políticas de permanência na Ciência. Instituído pela CAPES, o Programa AURORA oferece suporte acadêmico-científico a professoras gestantes ou mães de crianças de até dois anos vinculadas a programas de pós-graduação stricto sensu recomendados pela instituição.

A proposta é apoiar a continuidade das atividades de pesquisa e ensino durante a gestação e após a licença-maternidade. O AURORA também prevê bolsas de R$ 5.200 mensais, pelo período de 24 meses.

O programa busca reconhecer a maternidade como parte da trajetória acadêmica e promover maior equidade de gênero na Ciência.

Iniciativas como o Programa AURORA mostram que esse apoio também precisa considerar os diferentes desafios da carreira científica, como a maternidade. Financiar a Ciência, portanto, é criar condições para que mais pessoas possam permanecer na pesquisa, produzir conhecimento e transformar suas próprias realidades. 

Fraudes na Ciência

É plausível supor que o método científico, com seu rigor investigativo, seja suficiente para impedir que informações irreais sejam publicadas em pesquisas. No entanto, a fraude científica existe e é praticada das mais variadas maneiras.

De acordo com dados da Retraction Watch publicados na revista Transinformação, entre 2002 e 2019 a produção científica brasileira teve cerca de 97 artigos retratados – ou seja, invalidados e retirados de circulação – de revistas internacionais por motivos fraudulentos.

Imagens adulteradas, plágio e resultados falsificados ou manipulados são algumas das ocorrências mais frequentes, mas certamente não são as únicas. Confira alguns casos emblemáticos de fraudes na Ciência brasileira nos últimos anos:

Guilherme Malafaia Pinto

Em 2025, o biólogo brasileiro Guilherme Malafaia Pinto teve 45 artigos retratados. O motivo não tinha relação com seu conteúdo, mas sim com o processo de publicação: descobriu-se que os e-mails de todos os pesquisadores que Guilherme sugeriu como revisores de seu trabalho à revista Stoten eram falsos.

Antes da publicação, os editores da revista encaminharam os artigos do biólogo aos supostos revisores e receberam como resposta elaborados textos de aprovação – nenhum escrito pelos pesquisadores cujos nomes foram indicados.

O biólogo publicou uma carta aberta defendendo a integridade do próprio trabalho, e afirmou não ter participado da avaliação das próprias publicações.

Joana D’Arc Félix

Professora e cientista, Joana ganhou fama na segunda metade dos anos 2010 por sua trajetória acadêmica inspiradora. A parte mais impressionante de sua história, porém, era invenção.

Diferentemente da versão contada em palestras pelo Brasil, a professora não ingressou na Universidade Estadual de Campinas aos 14 anos e também não fez pós-doutorado em Harvard. E Joana não é a única: segundo o CNPq, em 2024 foram registradas 101 denúncias de falsificações em perfis do Currículo Lattes.

Tatiana Sampaio

O caso da pesquisa de polilaminina, que ganhou os holofotes no primeiro semestre deste ano, evidencia uma face menos óbvia da fraude científica. Com uma pesquisa muito promissora – porém inconclusiva – e sem artigos publicados sobre seus resultados em humanos, construiu-se uma fraude midiática.

Desde setembro de 2025, a proteína polilaminina – que é testada há mais de 20 anos no tratamento de nervos lesionados – vem sendo amplamente divulgada pela empresa farmacêutica Cristália, principal investidora da pesquisa. Em fevereiro deste ano, o interesse do público no estudo sobre seus efeitos em seres humanos atingiu o seu pico.

Com o tópico se tornando viral na internet e Tatiana, responsável por liderar o grupo de pesquisa, quase adquirindo status de celebridade, criou-se um sentimento de “milagre” ao redor do estudo. A narrativa, entretanto, não se sustentou por muito tempo, e logo a mídia percebeu o quão recente era a pesquisa.

No dia 4 deste mês, o primeiro estudo piloto sobre os efeitos da polilaminina foi publicado em um periódico científico com revisão por pares.

Da esquerda para direita: Tatiana Sampaio, Guilherme Malafaia e Joana D’Arc Félix

Para proteger a integridade da produção científica e frear os desvios de conduta praticados, o CNPq publicou, em março deste ano, a portaria n° 2664.

A partir dela, o autoplágio e a inserção de informações inconsistentes no Currículo Lattes passam a ser classificados como infrações graves, sendo infrações gravíssimas o plágio, a fabricação de dados, a duplicação de resultados e a interferência nos processos de avaliação.

A norma deve ser seguida por todos os pesquisadores e estudantes financiados pela instituição, e seu descumprimento acarretará sanções aos infratores.

A Ciência e os poderes

Em setembro de 2021, o então presidente Jair Bolsonaro discursou na abertura da 76ª  Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Na época, o Brasil e o mundo lidavam com uma grave crise na saúde pública, intensificada pelo vírus da Covid-19, doença infecto respiratória que em pouco tempo deu origem a uma pandemia global. 

Durante a sua fala, Bolsonaro apresentou diferentes pautas, como o desempenho da economia brasileira e, de forma mais expressiva, as medidas de segurança para conter a onda de infecções naquele período. Adepto ao chamado “tratamento precoce”, o chefe de Estado fez duras críticas às recomendações sanitárias da OMS, por exemplo. 

Defendidas por ele, a ivermectina (tipo de vermífugo) e a cloroquina, utilizada no tratamento de doenças como a malária, estavam sendo prescritas em indivíduos infectados pela Covid-19 ou àqueles que buscavam se prevenir. Uma decisão contrária ao que dizia a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), devido à falta de comprovação científica. 

Em um trecho, o ex-presidente alega não entender a posição de diferentes países e da mídia quanto ao método, concluindo ao afirmar que “a história e a Ciência saberão responsabilizar a todos”. 

No mesmo ano, segundo levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), Bolsonaro manifestou aos apoiadores que o “maior problema do Brasil é a imprensa”. Ainda que este seja um dos casos mais recentes, na trajetória do “fazer científico” não é o único. 

Fazer Ciência e o Estado

Hoje, o desenvolvimento científico no Brasil se relaciona, também, com as instituições governamentais. Exemplo disso é o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Criado em 1985, após a redemocratização do país, o órgão se dedica a criar políticas públicas que promovam a inovação por meio de pesquisas. 

No entanto, uma das principais dificuldades do MCTI é o orçamento. Com variações de repasses a cada mandato, a insatisfação dos pesquisadores tende a aumentar. Recentemente, em junho deste ano, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) redigiram uma carta de protesto a esses cortes. 

Segundo as entidades, a redução em torno de 10% nas verbas compromete o funcionamento de instituições relevantes para o desenvolvimento científico, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável também pelo mapeamento de eventos climáticos. 

Em uma sequência de cortes no orçamento, o ano de 2021 também foi decisivo para a instabilidade dessas instituições. Na época, o governo anunciou uma redução em mais de 80%, resultando no pagamento de apenas 13% do montante previsto, algo em torno de 90 milhões de reais. 

Pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da UNICAMP, Simone Pallone destaca a importância dos veículos de comunicação em momentos de crise, como a pandemia de Covid-19, marcada também pela restrição do governo no acesso aos dados de interesse público. 

Nisso, Simone relembra o “Consórcio de Veículos de Imprensa”, um grupo formado por diferentes jornais, como O Globo e a Folha de S. Paulo. A fim de obter estatísticas reais dos óbitos, em decorrência do vírus, os jornalistas realizaram uma apuração direta com as Secretarias de Saúde. 

“Foi muito importante conscientizar a população sobre o que realmente era a Covid e a necessidade da vacina. Eu acho que esse é um caso bem exemplar de como o jornalismo científico pode reforçar os discursos pró-ciência, mas a ciência séria, com fontes”, comenta a pesquisadora.

Ainda sobre a atuação da imprensa, quando vinculada ao Estado, Simone reforça que a “independência” na comunicação pública é fundamental. 

“Acredito que há uma autocensura, a depender do perfil de cada governante. O importante é que os veículos possam tratar a Ciência do modo que ela está sendo desenvolvida, e seria bom que não houvesse interferência política nesse processo”

Como a Ciência chegou ao Brasil?

Durante o período do Brasil Colônia (1500-1822), cujo governo era da Corte Portuguesa e dos governadores das capitanias hereditárias, surgiu a necessidade de entender a natureza e a formação biológica do país para que fosse possível mapear o território, até então desconhecido pelos portugueses.

Com o objetivo de investigar e captar as matérias-primas e desenvolver técnicas agrícolas para compor a renda do país europeu, diversos naturalistas, estudiosos da história da natureza, foram convocados pela corte portuguesa para assumir a missão. 

Os profissionais foram alocados em quatro das capitanias: Minas Gerais, Pernambuco, Bahia e Ceará. A justificativa de entender a utilidade das espécies nativas e o potencial mineral do país contribuíram para o avanço das pesquisas, que se estenderam para outras áreas do conhecimento.

Em 1639, com Recife ainda sob domínio da Holanda, o astrônomo alemão Georg Marcgraf criou o primeiro observatório astronômico moderno do hemisfério sul. A estrutura incluiu um jardim zoobotânico com exemplares da fauna e flora. 

Em 1772 foi criada a primeira associação científica do país com foco na agricultura e medicina, a Academia Científica do Rio de Janeiro, cidade que foi considerada capital federal e recebeu os principais financiamentos na área da Ciência. A Academia ficou ativa por 7 anos e abriu espaço para as demais produções. 

Entre 1808 e 1810, com a chegada da Família Real liderada por D. João VI, diversas escolas de medicina e especializadas em cirurgia e outras práticas foram criadas ao redor do país. Já no período regencial (1831-1840), marcado pelas disputas políticas e autonomia das províncias, houve a criação do  Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) no Rio de Janeiro em 1838.

Esses feitos, unidos às expedições internacionais e nacionais, se destacaram e produziram uma Ciência baseada na biodiversidade característica do país. Áreas como Geologia, Geografia e Antropologia também se expandiram e incentivaram o aumento da produção científica para além da capital.

No entanto, com a desmobilização e desinteresse português sobre o ensino superior, não houve organização estrutural das escolas, que eram espalhadas pelo país sem preparação e suporte. O cenário começou a mudar no segundo reinado (1840-1889) liderado por D. Pedro II, quando os laboratórios passaram a receber atenção.

Contudo, a profissão de cientista não era oficialmente reconhecida. No contexto mundial, o nome usado era “homem da Ciência”, que excluía as figuras femininas. Até que, em 1834, o filósofo William Whewell criou o termo, inspirado pela cientista escocesa Mary Somerville e suas contribuições.

A mudança também teve como objetivo unificar todos que estudavam áreas de saber empírico e foi fortalecida pela Revolução Industrial. Com isso, abriu-se o caminho para a validação de descobertas, especialização dos estudos e institucionalização do conhecimento.

A institucionalização da Ciência

Ao longo do século XX, foram criadas faculdades e universidades, que proporcionaram a produção de saberes. Entre elas, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). 

Com o novo século, surgiram os primeiros centros de pesquisa. Em 1900 foi criado o Instituto Oswaldo Cruz e em 1901 o Instituto Butantan. Sua importância para o desenvolvimento e eficácia da saúde se reflete na criação de vacinas e soros imunizantes. 

Os institutos atuam na promoção da saúde pública e conscientização da população. Além disso, são os líderes no campo das pesquisas sobre doenças graves, atuando na linha de frente no combate a epidemias como febre amarela, COVID-19, dengue e diversas outras. 

Em 1916, foi criada a Sociedade Brasileira de Ciências, que hoje é conhecida como Academia Brasileira de Ciências (ABC), seguida pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em 1948. Ambas se consolidaram como as principais entidades em defesa da pesquisa, reunindo especialistas que lutam por melhorias na educação.

Logo, as agências de fomento também se fizeram presentes. A FAPESP foi idealizada em 1947 e implementada em 1962. Já o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Capes foram criados em 1951 e atuaram na formação e organização institucional da Ciência. 

Para consolidar o papel do cientista, foi criada a Lei Complementar nº 125 de 1975, que implementou o cargo efetivo de pesquisador científico de dedicação exclusiva. Com isso, a posição que antes era ocupada majoritariamente por médicos e engenheiros, passou a ser dos pesquisadores. A iniciativa culminou no crescimento dos programas de mestrado e doutorado nos anos 90.

A partir de 1940, o país recebeu influência dos avanços tecnológicos e científicos internacionais e iniciou o processo de institucionalização das produções por meio das universidades, agências de fomento, da vinda de pesquisadores estrangeiros e do aumento do investimento em saúde pública, grande parte motivado pelas doenças tropicais.

Mesmo com a instauração da Ditadura Militar em 1964, acompanhada da perseguição e cassação de cientistas, houve investimento estatal em sua infraestrutura científica. Após o período, com a Constituição de 1988, foram criadas novas diretrizes de políticas públicas, que integraram a autonomia acadêmica, o incentivo à inovação e a criação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Para a Profa. Dra. Soraya Smaili, Vice-Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e docente do Departamento de Farmacologia da UNIFESP, o crescimento da formação de pesquisadores é essencial para não depender do conhecimento produzido no exterior.

“A pesquisa brasileira é muito importante. Ao longo das décadas, tivemos iniciativas importantíssimas. A formação de pesquisadores cresceu bastante, temos mais de 22 mil doutores sendo formados todos os anos. Isso é importante para um país que deseja ser soberano”, revela Smaili.

Ao longo desse processo, diversas figuras se destacaram pelas contribuições na área da saúde. Entre eles, Oswaldo Cruz, médico sanitarista que atuou no combate a epidemias e Vital Brazil, que criou soros antiofídicos contra venenos de serpentes, aranhas e escorpiões, além de ter fundado o Instituto Butantan.

A presença feminina na Ciência também pode ser evidenciada por duas figuras que contribuíram para diferentes áreas. Nise da Silveira foi médica psiquiatra que revolucionou o tratamento da saúde mental por meio da arte e da liberdade de expressão. Já Bertha Lutz atuou na luta pela igualdade de gênero na Ciência.

Mídia e Ciência na história

No Brasil colonial, por séculos a informação foi objeto de controle da coroa portuguesa, que a partir de alguns decretos, como proibir a instalação de máquinas tipográficas, pôde impedir a livre “circulação de ideias”, segundo historiadores. Este cenário viria a mudar somente em 1808, com a mudança da corte. 

Agora em solo brasileiro, a monarquia dá início à uma editora oficial, nomeada Impressão Régia. Por meio dela, eram publicadas notícias e comunicados reais, sendo a Gazeta do Rio de Janeiro um dos principais veículos nesta fase. 

Não oficializado, mas presente no dia a dia dos colonos, também chegava ao país, meses antes, as edições do Correio Braziliense. Criadas pelo jornalista exilado Hipólito José da Costa, a distância tornava a periodicidade menor, mas trazia como destaque as atualizações científicas internacionais, além dos cadernos de política, artes e literatura. 

Determinado pela coroa portuguesa, logo o veículo é proibido de circular no país, sob o argumento de que as edições estavam “cheias de veneno político e falsidades que poderiam iludir”. Uma alternativa, como narram os historiadores, foi manter o envio do Correio Braziliense aos leitores, clandestinamente. 

Nos anos seguintes, outros periódicos surgiram, com a intenção de também propagar o conhecimento científico. No entanto, poucos deles obtiveram sucesso ou longevidade, como O Patriota, um jornal e revista literária que se manteve ativo por menos de dois anos. 

Após a Segunda Guerra Mundial, por volta de 1945, a Ciência se tornou cada vez mais presente no cotidiano dos brasileiros. Com o fim do Estado Novo, o interesse no desenvolvimento e progresso econômico foram algumas das motivações que levaram o “fazer científico” a ganhar mais espaço na imprensa. 

Um exemplo foi o jornal Folha da Manhã, quando criou uma página, aos domingos, para discutir Ciência. Responsável pelo espaço, José Reis foi um dos pioneiros em tornar as pesquisas algo de fácil compreensão aos leitores. 

Como é o processo científico?

Para realizar uma pesquisa é necessário um método estruturado para que a pergunta inicial seja desenvolvida e validada. O processo é iniciado com a identificação de uma dúvida sem resposta clara na literatura. A partir disso, o pesquisador irá formular uma hipótese e estabelecer a forma da investigação.

Após a definição do método, é feita a compilação e análise dos dados em busca de uma conclusão. Segundo a Profa. Dra. Smaili, nem sempre haverá uma conclusão definitiva. Na maioria das vezes, não é. A docente também destaca que durante todo o processo é importante ler os conteúdos que já existem sobre o assunto. 

Ao contrário do senso comum, a Ciência pressupõe a desconfiança sobre o assunto, já que os pesquisadores precisam testar fontes, analisar dados coletados com rigor e garantir que os testes possam ser replicados por outros especialistas, comprovando que o resultado não foi isolado. 

Além disso, é preciso realizar a revisão por pares, na qual outros cientistas acompanham e examinam o estudo para apontar erros e sugerir melhorias antes de submeter à publicação. Nessa tarefa coletiva, os profissionais devem estar abertos à mudanças e atualizações que possam surgir. 

“A Ciência é um fazer permanente, é um fazer coletivo. Não é individual. Isso precisa estar na mente das pessoas, porque muitas vezes a gente está muito imerso no trabalho, mas a gente precisa conversar com os pares e a análise é uma forma de ter uma avaliação e até uma ajuda no que está fazendo”, explica Smaili.

Essas etapas constroem o rigor científico, que atesta o controle de qualidade da produção científica por meio de regras, métodos e conformidade com o código de ética. O código orienta a forma de agir de cada profissional, previne riscos e garante o alinhamento moral e científico.

Como a sociedade lida com a Ciência?

A forma como a população enxerga a Ciência varia ao longo dos séculos e está relacionada com os tipos de governo e a situação geral do país. Em momentos de crise sanitária e econômica, o apoio popular pode oscilar devido ao avanço do negacionismo e à desconfiança em relação aos conhecimentos consolidados, como visto na Revolta da Vacina.

Em novembro de 1904, no Rio de Janeiro, aconteceu uma das maiores revoltas urbanas da história nacional, motivada pela falta de informação sobre a vacinação obrigatória contra a varíola. A epidemia já havia causado quase 3 mil mortos e 2 mil internações. 

No mês anterior havia sido aprovada a Lei nº 1.261, que obrigava a apresentação de comprovantes de vacinação contra a varíola para a matrícula em escolas, obtenção de empregos, certidões de casamento e outros documentos. A campanha foi liderada por Oswaldo Cruz, que ocupava a posição de Diretor Geral de Saúde Pública. 

A situação gerou forte resistência popular frente ao autoritarismo que incluíam a invasão de residências para desinfecção dos ambientes e aplicação das vacinas pelas brigadas de saúde. O protesto durou 5 dias e contou com barricadas, derrubada de árvores e apedrejamento de veículos. 

A lei foi revogada dias depois, e o Estado de Sítio foi declarado na capital. Assim, a revolta foi encerrada com 945 prisões, 461 deportações, 110 feridos e 30 mortos. O episódio revelou uma falha na comunicação pública, especialmente quando grande parte da população era analfabeta e não tinha acesso às matérias publicadas.

Apenas décadas mais tarde, em 1971, a varíola foi erradicada, assim como outras epidemias. Com o avanço das campanhas educativas, a percepção pública mudou gradativamente. Hoje, as vacinas e outras descobertas são reconhecidas por sua relevância social.

Contudo, o campo da Ciência ainda é considerado elitizado, visto que a população enfrenta dificuldades para acessar as informações úteis para sua qualidade de vida, apesar do uso constante da internet. A dificuldade de acesso culmina na baixa valorização que, por sua vez, influencia nos cortes dos investimentos públicos. 

Com o baixo valor das bolsas de pesquisa, muitos cientistas aceitam oportunidades para migrar para instituições do exterior que prometem condições melhores e valorização da carreira. Assim, a defasagem de profissionais é evidenciada e, por consequência, culmina no desaceleramento tecnológico.

Segundo a Controladoria-Geral da União, o orçamento para Ciência e Tecnologia em 2026 é de 31,32 bilhões de reais, 4,13 bilhões a menos do que em 2025. Apesar disso, os dois últimos anos refletem um aumento nos investimentos, já que em 2024, o valor foi de 17,18 bilhões e em 2023 foi de 14,58 bilhões de reais.

Para a Profa. Dra. Soraya Smaili, é preciso ter programas de financiamento específicos e criar novos mecanismos e políticas públicas voltadas para o desenvolvimento científico.

“Se tem um governo que investe nas universidades federais, que investem na educação, as universidades ficam estáveis. Se tem uma proposta de lei orçamentária que é muito voltada para ajustes fiscais, acaba tendo uma lei que não possibilita a manutenção correta das universidades e, portanto, prejudica a pesquisa”, esclarece a docente.

Além dos investimentos e da ampliação de acesso, um dos principais desafios para a Ciência contemporânea é a aproximação com o público por meio das multiplataformas digitais e o combate sistemático à desinformação. A relação com a mídia, o  combate ao sensacionalismo e a promoção do letramento científico se revelam necessários para o futuro do país.

Qual é o papel do jornalismo e da divulgação científica?

O jornalismo possibilita a abordagem de diversos temas de interesse público, incluindo a Ciência por meio do jornalismo científico, que leva as informações à população de forma acessível. Com menos pressão das pautas comerciais, há espaço para cobertura das Ciências e construção da confiança com o público.

Para isso, são usados recursos linguísticos e midiáticos que facilitam a compreensão e promovem acessibilidade através de elementos gráficos. Esses formatos contribuem para que o público possa receber a informação com clareza e formar as próprias opiniões. 

A Ciência está presente no dia a dia de todos, desde tecnologias até medicamentos. Com o trabalho do jornalista, a informação chega à população, que pode se informar sobre diversos assuntos, estimular o pensamento crítico, tomar decisões e exercer a democracia e o papel de cidadão. 

Hoje, a divulgação e a disseminação do conhecimento são feitas, em grande escala, por mestres, doutores e bolsistas. Apesar do diploma não ser obrigatório para exercer o jornalismo, é necessária uma formação acadêmica em comunicação ou áreas científicas para assumir a função. Instituições como o Labjor da Unicamp auxiliam nesse processo.

O divulgador também tem o papel de promover e fazer a informação chegar ao público não especializado, ou seja, fora da universidade. Contudo, o processo não é necessariamente feito por jornalistas. Desde que seja uma pessoa capacitada e tenha contato com os pesquisadores e universidades, ela pode assumir a função.

As próprias universidades possuem projetos de formação voltados à divulgação como a Fiocruz e a Revista Fapesp. O principal objetivo é promover a Ciência por meio de uma linguagem acessível, podendo ser feita pelos próprios cientistas. 

Assim, a divulgação científica se contrapõe ao jornalismo, que deve seguir os critérios de noticiabilidade, realizar apuração, checar fatos e debater os impactos políticos e sociais, revelando conflitos de interesse e controvérsias. Seguindo os princípios, o jornalista analisa as consequências em diversas esferas, enquanto o divulgador apenas comunica a descoberta.

Discutir a Ciência sob novos dogmas é um dos objetivos principais do Ciência Suja, um podcast que produz conteúdos narrativos e mesacasts para refutar informações incorretas ou mitos que circulam pelas redes. Theo Ruprecht, jornalista e apresentador do programa, reitera a importância da divulgação científica.

“É preciso reforçar o letramento em Ciência, falando dos benefícios, suas limitações e do histórico que a Ciência tem, inclusive com coisas tenebrosas”, afirma ele. Para ele, uma das formas de se fazer isso é acabar com o estigma de que Ciência é uma coisa chata e levá-la ao mainstream.

Combate à desinformação e ao negacionismo

Com o crescimento das redes sociais e do alcance e retorno que provém delas, a difusão do conhecimento pode ser feita em diversos meios como documentários, reportagens, livros, assessorias, podcasts e vários outros. Cada um tem seu público específico, mas pode ser adaptado para que possa atingir mais pessoas.

Contudo, com a onda de negacionismo vista nos últimos anos, a recepção do público não é sempre positiva e coloca a credibilidade do jornalista em xeque. Além disso, traduzir os termos técnicos e estatísticas complexas sem perder o rigor científico ou cair no sensacionalismo é um dos desafios.

Segundo Rafael Simões, Coordenador de Audiovisual no Instituto Butantan, apesar de implementarem formatos acessíveis para incentivar o interesse da comunidade em se aproximar do assunto, manter a atenção do público é desafiador. Afinal, com a adaptação das plataformas, os conteúdos são alterados também.

“É adaptar a mensagem para a plataforma pensando em, tudo bem se pincelar uma coisa que não aprofunda muito, mas se eu pegar a atenção dessa pessoa para depois ela ir para um conteúdo mais aprofundado, então, tudo bem. Em 1 corte de 1 minuto, eu não consigo aprofundar no assunto, mas consigo pincelar ele e, pelo menos, tirar a curiosidade da pessoa”, reflete Rafael.

No Instituto, uma das estratégias usadas para ensinar sobre saúde para além das vacinas é utilizar os formatos que já estão estabelecidos nas redes sociais ou referências à assuntos da cultura pop que estão em alta. Segundo Rafael, é preciso afunilar o conteúdo nas redes para aprofundá-los nos textos do portal.

“A gente cria esse ambiente onde as pessoas podem, não só se serem entretidas pelo nosso conteúdo, como também se aprofundar nele e se sentir parte de uma comunidade para ir cada vez mais se interessando pela ciência e, em última instância, se aprofundando mais sobre isso”, explica o coordenador.

O combate à desinformação é uma das lutas constantes do jornalismo brasileiro como um todo. O alarmismo acontece com thumbnails atrativas, manchetes grandiosas e fotos que induzem ao erro. Segundo Rafael, a pressão estética das fake news também se tornam um problema.

“Quando você é super megalomaníaco, você pode mentir à vontade, pode fazer um escarcéu, falar que o mundo vai acabar e tudo mais. Você atrai mais pessoas mesmo, é uma coisa humana. A gente fica um pouco mais atraído com isso”, conta Rafael. 

A tentativa de popularização da ciência é um trabalho constante. Em redes cujo foco nas publicações não passa de segundos, os jornalistas e divulgadores científicos precisam primeiro construir uma comunidade. Parte disso é feito a partir da seleção de pautas.

Para Ruprecht, é essencial analisar quais discussões podem ser de interesse do público e se encaixam na linha editorial do Ciência Suja, que é mostrar o lado positivo da Ciência por meio do mau exemplo. O formato do podcast proporciona o tempo necessário para abordar conteúdos complexos e realizar uma apuração mais aprofundada.

No cenário geral, a aderência do público está crescendo. “Eu acho que as pessoas estão tentando levar mais a sério. O brasileiro confia pouco nessa lógica do dogma. A gente ainda sabe pouco do que a gente quer. A gente nem debate o que é Ciência, é difícil definir o que é”, elucida o apresentador.

Para a mudança nesse cenário, é necessário continuar a desenvolver os trabalhos que aproximem a população da Ciência, investir em novos formatos de produção e promover o interesse do público de todas as idades.

Para conhecer um pouco mais do jornalístico científico, ouça o nosso bate-papo com Sabine Righetti:

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