Esther Chahin, Gustavo Mota, Lucas Mello e Rafael Prudente
Em fevereiro deste ano, o Electronic Numerical Integrator and Computer (ENIAC) completou 80 anos de sua primeira operação. O equipamento surgiu nos Estados Unidos com o objetivo inicial de ajudar nos cálculos balísticos, já que foi projetado durante a Segunda Guerra Mundial.
Uma trajetória balística que levava 20 horas no cálculo manual era concluída no ENIAC em 30 segundos. A máquina pesava 30 toneladas e estabeleceu o marco zero da computação digital eletrônica na história.
O projeto do ENIAC teve a participação de seis mulheres (Kathleen Antonelli, Jean Bartik, Frances [Betty] Holberton, Marlyn Meltzer, Frances Spence e Ruth Teitelbaum), que eram responsáveis por programar o equipamento que mudou os rumos da informática.
Para programar o ENIAC era necessário utilizar fios e interruptores para definir as operações, o que tornava o processo demorado e propenso a erros. Além disso, a programação do computador precisava ser completamente refeita sempre que uma tarefa diferente era executada.

A participação delas em um momento tão importante para a Ciência e para a computação não foi divulgada na época. Apenas décadas depois seus nomes ficaram conhecidos. De acordo com Gwyneth K. Shaw, pesquisador da Universidade da Pensilvânia, elas não foram convidadas ao jantar comemorativo depois da primeira demonstração da máquina em 1946, que foi um sucesso, nem participaram da celebração de 50 anos da invenção.
E hoje, 80 anos depois, um simples processador de smartwatch tem milhões de vezes mais poder de processamento que esse computador. Microprocessadores executam funções de rotina na sociedade e estão presentes em praticamente todos os produtos, desde uma simples cafeteira elétrica até aparelhos militares de segurança nacional.
A tecnologia computacional viabiliza, por exemplo, transmissões televisivas ao vivo, carregamento de vídeos nas redes sociais, realização de exames médicos em hospitais e, mais recentemente, até cirurgias em que profissionais operam pacientes em outros continentes por meio de robôs. É possível dizer que a infraestrutura moderna da sociedade global é sustentada pelo legado deste sistema pioneiro do século XX.
A evolução da computação gerou muitos benefícios, claro, mas também, ao mesmo tempo, gerou malefícios para a sociedade. O desenvolvimento da tecnologia viabilizou ferramentas de serviço e criou soluções práticas para a rotina do dia a dia da população, mas, em contrapartida, o progresso do setor provocou danos e estabeleceu problemas estruturais graves.
O prejuízo socioambiental dos supercomputadores
A infraestrutura de processamento de dados, de big techs como Google, Amazon e Meta cobra um preço alto do ecossistema do planeta. A operação de data centers demanda energia e consome recursos da natureza, além do espaço físico que eles ocupam.
Como máquinas de processamento, os data centers são estruturas que esquentam rapidamente e, portanto, precisam de grandes quantidades de água para o resfriamento. Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo global de água pelos data centers está em 560 bilhões de litros por ano.
Visto o aumento no uso de inteligência artificial por empresas e grandes conglomerados, especialistas da agência apontam que, até 2030, esse número pode aumentar para 1,2 trilhões de litros, o equivalente a 480 mil piscinas olímpicas.
Embora a água seja um recurso abundante no planeta, principalmente pelos oceanos, data centers precisam de água potável para seu resfriamento, pois o sal do mar tende a danificar a infraestrutura.
Entretanto, os grandes processadores não devolvem essa água utilizada para o consumo humano. A água potável usada para resfriar os data centers evapora e precipita, em sua maioria, no mar, tornando imprópria para o consumo.
Segundo o Data Center Map, plataforma que mapeia a quantidade dessas máquinas ao redor do mundo, o Brasil possui 218 data centers em atividade.
Atualmente, o Brasil apresenta um cenário muito importante para as empresas de Data Center, por conta da sua matriz energética. Segundo dados do Balanço Energético Nacional (BEN), cerca de 50% oferta interna de energia do país é produzida a partir de fontes renováveis. Esses índices são maiores que a média global, de 41%, segundo a Agência Internacional de Energia Renovável, e isso se torna um grande atrativo para as big techs.
De acordo com a reportagem da Mongabay, com participação do The Intercept, 60% dos pedidos para conectar data centers no setor energético do país vieram de empresas de energia renovável.
O motivo vem do excesso produzido por estas empresas, que não têm estrutura para distribuir o excedente de energia produzida para o restante do país e, por motivos de lucro, buscam os data centers. As empresas passam a funcionar, portanto, como bateria para os servidores.
Enquanto cada data center gasta uma média de 2 milhões de litros diários, empresas de energia renovável incentivam o investimento no setor para atrair mais consumidores e aumentar o lucro.
Ainda segundo a reportagem, o impacto dos data centers também se encontra no âmbito social, no qual mais de 78% dos municípios, que tinham previsão de instalação de data centers, estão regularizados ou em processo de regularização. Portanto, entre esses municípios, a maioria abriga territórios indígenas.
Os impactos socioambientais dos supercomputadores representam empecilhos na busca por transição energética, promovida pelo fenômeno do El Niño e a COP30, em 2025. Entretanto, a China se mostra na contramão desse costume, ao inaugurar, em 2026, um data center submarino capaz de se resfriar usando a água do mar.
O projeto é constituído por servidores que ficam dentro de módulos selados, capazes de resistir à pressão e à corrosão do mar. Ao mesmo tempo, a água do mar, em temperatura normal, é utilizada para resfriar esses servidores.
Esse modelo de tecnologia é muito importante para o cenário atual, pois permite a instalação de data centers fora de territórios ocupados e diminui o impacto ambiental. Entretanto, tal modelo exige planejamento de longo prazo e muito investimento para ser viável.
As transformações tecnológicas refletem no mundo do trabalho
Antes da máquina, uma ocupação. Durante décadas, o termo do inglês computer (computador, em português) não era utilizado para se referir a uma máquina, mas sim a um cargo no mercado de trabalho.
O verbo to compute da língua inglesa significa “calcular”. Especialmente durante o final do século XIX e início do século XX, áreas como astronomia, engenharia e navegação contratavam, literalmente, computadores humanos – ou melhor, “calculadores” humanos.
Porém, há muito tempo, já não se vê mais um computador humano, e sim máquinas com o mesmo nome nos mais variados lugares, desde o caixa do supermercado até a mesa de trabalho.
Os grandes calculadores da astronomia, engenharia e navegação não foram os únicos trabalhadores substituídos pela tecnologia. Desde os primeiros desenvolvimentos tecnológicos da História Contemporânea, postos de trabalho são criados, transformados ou extintos.
A diferença é que antes o que gerava essa movimentação eram a energia elétrica e as calculadoras mecânicas, por exemplo. Hoje, se fala de aplicativos, linguagens de programação que tornam tarefas totalmente automatizadas, e ferramentas de inteligência artificial generativa cujos produtos reduzem as necessidades de esforço humano em tarefas antes manuais.
Em 2026 – 80 anos após o lançamento do primeiro computador do mundo – a inteligência artificial e a plataformização são duas das tendências tecnológicas já presentes no futuro do mercado de trabalho.
Conheça profissões que foram extintas devido à evolução da tecnologia:
A IA pode significar a extinção de certas ocupações, mas não de todas. Em janeiro de 2026, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) publicou uma análise sobre quais são os impactos da implementação de IA no mercado de trabalho no Brasil.
Mulheres, jovens, pessoas de maior escolaridade e moradores da região Sudeste são os grupos mais expostos à IA generativa, de acordo com os dados apresentados.
No entanto, a exposição não significa necessariamente risco de desemprego: em cargos que exigem tarefas cognitivas, a inteligência artificial surge como um complemento, ajudando o trabalhador na análise de textos e de dados, por exemplo.
Quando a complementaridade é baixa, os riscos aumentam: estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI), levantados pelo FGV IBRE, mostram que 4 a cada 10 profissionais brasileiros estão expostos à IA generativa – proporção essa que corresponde a 40,2 milhões de pessoas.
Pouco mais da metade desse grupo utiliza a IA como ajudante, enquanto o restante exerce funções mais suscetíveis à substituição pela inteligência artificial.
Os primeiros, que ocupam cargos relacionados à tomada de decisões, à negociação, à interatividade humana e à criatividade, estão menos vulneráveis ao desemprego.
Já aqueles que exercem tarefas analíticas repetitivas e processamento de informações (como operadores de telemarketing e profissionais do secretariado) estão mais vulneráveis à perda de seus postos de trabalho – parcela da população que corresponde a aproximadamente 20 milhões de pessoas, o que equivale a mais de duas vezes a população da cidade de São Paulo/SP.
Todas as profissões correm perigo por conta da IA?
Parte dos trabalhadores brasileiros já é empregada por plataformas. Há mais de 10 anos, os táxis – transportes individuais pagos que eram acionados presencialmente ou via telefone – circulam cada vez menos em algumas das ruas do país.
Hoje, quando se procura um transporte dessa natureza, a primeira opção que vem à mente são os motoristas por aplicativo. Esses profissionais não possuem carteira assinada, não “batem ponto” no horário de almoço e não respondem a uma pessoa supervisora – respondem a uma plataforma digital.

(Foto: Tiago Queiroz/Estadão)
Aos motoristas por aplicativo, juntam-se os entregadores de refeições e de mercadorias e os profissionais de limpeza e de serviços gerais (reparos na rede elétrica, manicures, pedreiros etc) quando o assunto são os trabalhadores empregados por plataformas digitais.
Um levantamento publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em outubro de 2025 apontou que 1,7 milhão de brasileiros exerciam (em 2024) seu trabalho principal por meio de plataformas digitais — número suficiente para lotar cerca de 22 Maracanãs.
Desse 1,7 milhão, 71,1% trabalhavam na informalidade à época da pesquisa, ou seja, sem direitos trabalhistas e previdenciários. Os trabalhadores de plataformas digitais não possuem piso salarial, férias remuneradas, jornada máxima semanal, décimo terceiro salário ou adicionais de periculosidade.
Além disso, eles não têm direito à aposentadoria, auxílio-doença, licença por invalidez ou pensão por morte para seus familiares – caso fiquem doentes ou incapacitados para o trabalho, perdem imediatamente o sustento.
Esses trabalhadores também arcam, sozinhos, com custos de combustível, internet móvel, alimentação e depreciação/manutenção de seus veículos, sem qualquer tipo de reembolso ou auxílio corporativo.
O cenário representa uma perda de ganhos históricos para os brasileiros e uma “bomba-relógio colocada para o futuro”, como aponta José Dari Krein, professor do Instituto de Economia da Unicamp, em entrevista para o Jornal da Universidade.
“As pessoas estão expostas e não têm proteção alguma”
Krein reforça o cenário quando comenta sobre a parcela da população brasileira cujo trabalho informal é feito por meio de plataformas digitais: aproximadamente, 1,2 milhão de pessoas.
A ciência anda sempre com o desenvolvimento tecnológico
Entre as muitas áreas que se utilizam da computação e da tecnologia atualmente, a meteorologia é uma das que mais se beneficiam. O meteorologista do Ipmet da Unesp, Thiago Guerreiro Ferreira, disse em entrevista que antes do surgimento do computador, os cálculos para fazer a previsão do tempo eram inviáveis de serem feitos à mão.
O meteorologista acrescenta dizendo que “a ciência anda sempre com o desenvolvimento tecnológico” e relembra a contribuição do supercomputador Tupã para a meteorologia brasileira. Em 2010, quando foi instalado, o Tupã era o 29º supercomputador mais potente do mundo. Em 2021, a falta de orçamento quase levou o Inpe a desligar de vez o equipamento; o desligamento parcial aconteceu em 2023 devido à obsolescência.
Além do Tupã, o Brasil possui outro supercomputador de destaque nacional. O Santos Dumont está em operação desde 2016, localizado na sede do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), na cidade de Petrópolis (RJ). Em 2025 ele teve sua capacidade ampliada para cerca de 20 PetaFLOPS.
Um PetaFLOP (PFLOP) equivale a 1015 FLOPS, ou seja, a um quatrilhão de operações por segundo. Essa unidade é usada para avaliar o desempenho de sistemas de computação de alto desempenho, pois permitem representar e manipular números decimais com alta precisão.
Para se ter uma ideia do tamanho desse poder computacional, se cada pessoa na Terra (considerando 8 bilhões) realizasse uma operação por segundo, seriam necessários mais de quatro anos para alcançar o que um computador com 1 PFLOPS realiza em apenas um segundo de operação.
Mas o poder computacional do Santos Dumont será superado pelos 7.200 PFLOPS do novo supercomputador que foi anunciado pelo governo no último dia 20. Ele vai ser instalado no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba (RN). A expectativa é que o novo supercomputador entre em operação em 2027, e o investimento previsto é de R$1,06 bilhão.
No final da conversa, Thiago finaliza dizendo que “a tecnologia são os olhos do meteorologista” e que os avanços na computação brasileira são promissores para previsões cada vez mais precisas.
Além disso, ele conta da evolução dos equipamentos do Ipmet ao longo dos anos e reforça que o desenvolvimento de novas tecnologias traz mais acessibilidade às informações climáticas para a população, que antes só sabia da previsão do tempo por meio dos jornais ou telejornais, e que agora pode conferir as previsões e boletins do tempo diretamente pelo site do Ipmet atualizado 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Confira a evolução dos equipamentos abaixo:
O Ipmet também possui uma parceria com a Defesa Civil, fornecendo dados meteorológicos a todo momento para que ela possa dar alertas em tempo real para as pessoas caso uma chuva forte esteja se formando. Para receber os alertas no seu celular é só se cadastrar enviando um SMS para o número 40199 e enviar seu CEP (somente o CEP, sem espaços ou hífen).
Agora, teste seus conhecimentos sobre tecnologia:





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