Bruna Santini, Gustavo Rodrigues, Letícia Cerqueira e Livia Campesato

Nas últimas semanas, falas de figuras públicas viralizaram na internet ao questionar o direito e a qualidade do voto das mulheres. Pietra Bertolazzi, influenciadora declarada da extrema direita, protagonizou o vídeo “30 feministas versus uma antifeminista”, no qual respondeu se concordava ou não com as conquistas do movimento social.     

Em um dos questionamentos, ela se declarou contrária ao voto feminino, ao aborto e à distribuição gratuita de absorventes. O discurso de Bertolazzi está em sincronia com outras afirmações sobre o tema que bombaram no mês de julho. 

Paulo Figueiredo, neto do último presidente da ditadura militar e influenciador bolsonarista, criticou Michelle Bolsonaro, ex-líder do núcleo feminino do Partido Liberal (PL Mulher), pela exposição de conflitos feita pela ex-primeira dama nas redes sociais. 

No decorrer do vídeo, ele afirmou que as mulheres, em especial as solteiras, costumam “votar pior que os homens”. A fala repercutiu e afetou a campanha de Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL, que logo buscou se desvincular da imagem de Figueiredo em um encontro com lideranças femininas do partido.

As afirmações refletem um cenário comum no ambiente digital, conforme apontado pelo relatório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre a presença de conteúdos misóginos no Youtube. No estudo de 2024, foram indicados mais de 120 canais ativos com mais de 130 mil vídeos publicados. 

Os principais temas tratados pelos youtubers são: desprezo às mulheres, estímulo à rebelião masculina, sedução e relacionamentos, defesa de papéis tradicionais de gênero e antifeminismo. 

Estes tipos de assuntos compõem a chamada “machosfera” e integram formas de violência contra a mulher. Conforme a 11ª Pesquisa Nacional, uma parceria do DataSenado com o Observatório da Mulher contra a Violência, foram 8,8 milhões de mulheres em 2025 que sofreram algum tipo de violência em meios digitais

Como uma resposta ao aumento de casos e proliferação dos conteúdos, o Senado Federal aprovou, em 24 de março deste ano, um projeto de lei que criminaliza a misoginia. Ele a insere entre os crimes de preconceito e discriminação, também inclui uma pena de dois a cinco anos de reclusão.

A misoginia em números

A palavra “misoginia” tem origem grega e significa ódio às mulheresmiseó (ódio) e gyné (mulheres). É um preconceito presente na sociedade patriarcal e na fundamentação de diversas culturas, como a Grega e a religiosa. E, infelizmente, grande parte das sociedades contemporâneas reproduzem comportamentos misóginos. 

Segundo o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, feito pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL), o ano registrou 2.149 casos de assassinato de mulheres por questão de gênero e 4.755 tentativas. Os números representam um aumento de 34% em relação ao ano anterior e mostra que 5 mulheres são mortas por dia

No primeiro semestre de 2026, foram registrados 741 feminicídios no Brasil, de acordo com o Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher. 2026 também é o ano em que a principal lei que protege as mulheres, a Lei Maria da Penha, faz 20 anos.

De acordo com a advogada Géssica Guimarães, especialista em direito da mulher e da família, há várias leis com o objetivo de proteger as mulheres “começando pela nossa Constituição Federal, que garante que todos são iguais perante a lei, e passando pelas leis que a gente conhece mais, como a Lei Maria da Penha, indo até a Lei Carolina Dickmann, por exemplo, Lei Joana Maranhão, Lei do Minuto”, diz.

Entretanto, segundo a especialista, as leis não são eficazes em todos os casos por causa da dificuldade de executá-las. “A gente tem um bom conjunto de leis que protegem as mulheres, mas tem um problema na aplicação das leis”.

Entre as leis que são possuem efetividade, ela cita a própria Maria da Penha por causa da “questão da medida protetiva que é um mecanismo extremamente interessante e importante para coibir violência, mas, na prática, a gente, às vezes, não vê dando tão certo”, diz. E isso, principalmente, por conta da dificuldade das autoridades em fiscalizar essa ferramenta.  

Para a advogada, a lógica patriarcal e machista também afeta as decisões do Poder Judiciário que não julga com a devida eficácia. “O machismo também está enraizado no Poder Judiciário e a gente vê isso nas decisões [tomadas pelos juízes]”. 

Misoginia como um problema estrutural

Geovana Destro é estudante de pedagogia na Unesp e relata que, ao lecionar para crianças de 2 anos, observou comportamentos misóginos em um aluno. Ela se preocupou porque o menino não interagia com as meninas da sala e, durante as brincadeiras,  ele evitava a cor rosa e qualquer outro brinquedo tocado por alguma colega.

Essa questão faz parte de uma sociedade patriarcal em que, desde cedo, as meninas são ensinadas a cuidar e os meninos são estimulados a se divertir. “O menino é mais divertido, ele é mais aventureiro do que a menina, a menina tem que brincar de casinha”, diz Destro. 

A professora e especialista em psicologia, Ana Carla Ottoni, relaciona a sociedade capitalista à manutenção do machismo e do patriarcado. Isso porque, nessa lógica, há um grupo pequeno que detém os meios de produção e outro que é explorado pelo primeiro. 

Como consequência, o povo manifesta a meritocracia que “não está só nas relações de trabalho. A gente aprende ela desde lá da escola [até porque o] nosso desempenho é pontuado nas provas, tudo isso vai reforçando essa ideia até a gente chegar na vida adulta”,  explica a professora.

“Existe uma outra coisa que sustenta essa sociedade capitalista que é a instituição família porque a família ideal nesse imaginário é uma mulher, um homem, um filho e uma filha. E nessa família ideal tem uma mulher que desempenha todo o trabalho do cuidado, todo o trabalho do cozinhar, do limpar, do cuidar dos filhos, do criar os filhos, preocupar-se com o bem-estar dos membros. E um homem que sai para a vida pública, que trabalha e que provê”, completa Ana. 

Entretanto, essa lógica foi afetada pela Revolução Industrial, quando as mulheres começaram a deixar os lares para trabalhar nas fábricas, e pelos movimentos sociais a partir do século XIX.  Com isso, o cenário foi afetado e a classe dominante, os homens, perdeu o papel central. 

“Toda a sociedade se organiza em cima do trabalho não remunerado da mulher, se essa mulher deixa de fazer o trabalho não remunerado e entra na vida pública toda essa relação sucumbe”, explica a psicóloga.

Nesse sentido, para a manutenção de poderes e privilégios, a mudança da estrutura se torna mais difícil. “É muito interessante para as classes dominantes que as coisas continuem como estão”, diz.

E, a partir do momento em que os homens se sentem ameaçados pelo empoderamento feminino, existe a misoginia e as comunidades que pregam a inferiorização da mulher, como os redpills

Além disso, quando o discurso da “machosfera” é apresentado aos homens na infância, há uma reprodução e possível perpetuação do cenário de violência.  “Quando eu ensino misoginia pra um menino desde muito pequeno, eu tenho mais um sujeito que, em sua relação amorosa vai reproduzir, em suas amizades vai reproduzir, em seu trabalho vai reproduzir esses valores”, afirma a especialista.

O papel da escola no combate à misoginia

A ideia de papéis de gênero é um elemento central na lógica redpill e na misoginia e, para combatê-los, é fundamental que o conceito de igualdade de gênero esteja presente ao longo da formação dos indivíduos. 

“Se a gente não pensar numa educação estrutural para as nossas crianças, a gente continua criando meninos que acham que, por serem superiores, eles podem fazer o que quiser com as mulheres, incluindo matá-las, se essa mulher não quiser ficar com eles”, denuncia a advogada Géssica Guimarães. 

A pedagoga, Geovana Destro, complementa com a importância de não alimentar os papéis de gênero durante a educação básica. “Se a gente pensar na criança como uma criança, sem pensar no gênero dela, a gente vai tratar de forma igual”.

Então, é importante que a educação de uma criança não se diferencie da outra por conta do gênero. Isso vai ser importante tanto para o desenvolvimento da futura mulher, quanto para que o menino não reproduza ideias sexistas na fase adulta.

“A diferenciação dos brinquedos acaba trazendo naturalização dos papéis sociais. Para a menina, a gente está esperando delicadeza, cuidado. E, com os meninos, estimula a autonomia, a liderança e a competitividade”, afirma.

Além disso, também é necessário que os profissionais da educação sejam capacitados e disponham de instrumentos didáticos que falem sobre a equidade de gênero. 

Misoginia está presente desde o lazer até o trabalho

O uso de pseudônimos e a ausência de contato presencial no ambiente digital conferem aos usuários uma sensação de impunidade que potencializa os ataques virtuais. Essa hostilidade é ainda mais recorrente nas comunidades gamers, voltadas à interação entre consumidores de jogos eletrônicos.

A estudante e jogadora Nicole cresceu navegando por essas plataformas e aprendeu cedo a ocultar o próprio gênero. “Tenho em mente muitas situações de assédio que encontrei em alguns jogos que me deixaram muito mal quando criança por conta de eu ter uma personagem feminina”, conta.

Essa bagagem de episódios hostis moldou a postura de Nicole nos videogames: atualmente, ela adota nomes neutros ou masculinos, desativa todos os canais de bate-papo e evita a comunicação por voz. A estudante também prefere se manter distante de partidas competitivas para não ter de enfrentar comentários machistas.

A disparidade de tratamento se estende ao consumo de transmissões ao vivo. Ao acompanhar criadores de conteúdo do nicho, fica evidente o contraste de comportamento da audiência em relação a homens e mulheres. “Percebo que sempre tem mensagens estranhas quando é uma streamer mulher, muitas doações falando da aparência, outras que são assédio ou pura misoginia”, relata Nicole.

Apesar da dificuldade em combater agressões virtuais, plataformas de transmissão ao vivo, como a TwitchTV e o YouTube, possuem diretrizes de comportamentos e regras da plataforma que repudiam violências misóginas.

A TwitchTV disponibiliza a página da Central de Segurança, com detalhes das regras, informações de segurança e instruções para o envio de denúncias. As políticas do YouTube são acessadas na própria página da plataforma na aba de Política e Segurança.

Logos do YouTube e da TwitchTV | Imagem: Acervo Pessoal

O impacto contínuo dessas agressões transforma o que deveria ser um espaço de entretenimento em uma fonte constante de tensão. “Fico mal e indignada com essa violência, me afastei de comunidades de jogos e um momento de lazer vira um momento de desconforto puro e o que era pra ser descanso acaba virando estresse. Até no ambiente virtual temos que ficar alerta”, desabafa Nicole.

A misoginia não aparece apenas no ambiente digital. Conforme destaca o “Guia para prevenir e enfrentar o assédio, a violência e a discriminação”, publicado pela Justiça do Trabalho em 2024, a violência e o assédio no ambiente de trabalho abrangem comportamentos e práticas inaceitáveis que causam danos físicos, psicológicos ou sexuais, como agressões baseadas em gênero.

Essa realidade é refletida em números: em 2025, a Justiça do Trabalho recebeu 142.828 processos de assédio moral, o que representa um aumento de 22% em relação ao ano anterior.

Ainda neste cenário, uma pesquisa realizada pelo “Think Eva”, em parceria com o LinkedIn, ouviu 3.128 pessoas e revelou que 75,3% dos entrevistados identificaram algum tipo de agressão pelo menos uma vez ao mês.

Para além das estatísticas, os impactos são sentidos por profissionais como a jornalista Mayara Luna. Ela relata situações em que foi inferiorizada em sua trajetória, e relembra o primeiro episódio marcante:

“Foi por outro repórter. Eu tinha acabado de ingressar na profissão e não entendia muito sobre política. Estava fazendo a minha cobertura e senti que um outro repórter me desmereceu por estar ali, ser mulher e não saber. Senti que não era inteligente ou capaz de falar de política”.

Além disso, Mayara relata ter enfrentado comentários invasivos sobre seu corpo, mascarados como “brincadeiras", algo que gerou impactos psicológicos significativos. 

Esse tipo de experiência ilustra a importância de diferenciar interações casuais de assédio moral no ambiente de trabalho. É fundamental compreender que o assédio se configura quando há uma conduta abusiva e sistemática que expõe o trabalhador a situações humilhantes e constrangedoras

No caso da jornalista, as experiências ultrapassaram episódios pontuais e se somaram a uma percepção constante de que sua capacidade profissional precisava ser reafirmada. Segundo ela, esse comportamento esteve presente em diferentes empresas pelas quais passou. “Eu percebi machismo estrutural em todas as empresas que passei, precisei me provar capaz o tempo todo.”

A necessidade de enfrentar essas situações também está prevista na legislação brasileira. A Lei nº 14.457, de 21 de setembro de 2022, instituiu o Programa Emprega + Mulheres e estabeleceu medidas de prevenção e combate ao assédio sexual e a outras formas de violência no ambiente de trabalho. 

A legislação determina que empresas com Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio (Cipa) adotem regras de conduta sobre o tema, estabeleçam procedimentos para receber e acompanhar denúncias e realizem ações de capacitação e sensibilização dos trabalhadores, pelo menos uma vez a cada 12 meses.

A lei também prevê que os procedimentos internos para recebimento e acompanhamento das denúncias garantam o anonimato da pessoa denunciante, além da possibilidade de aplicação de sanções administrativas aos responsáveis, sem impedir a adoção das medidas judiciais cabíveis.

Na prática, porém, a existência de mecanismos de prevenção não elimina as dificuldades enfrentadas por quem sofre esse tipo de violência, já que, segundo a pesquisa realizada pelo “Think Eva”, esta lei é desconhecida por 83% dos entrevistados. 

Para Luna, o enfrentamento do machismo também passa por questionar discursos que reforçam a ideia de que a presença das mulheres em espaços profissionais representa uma disputa com os homens. “Eles acham que a gente está querendo uma competição, quando a gente só quer a luta pelos nossos direitos de fato, e é isso que é o feminismo.”

Mayara afirma ter encontrado na própria profissão uma forma de resistência. “Eu entendi que eu preciso mostrar quem sou através da minha força. Eu consegui colocar isso através da minha profissão, da minha voz, do meu conhecimento, do meu estudo”, relata.

A trajetória, segundo ela, fez com que passasse a reconhecer o próprio valor e a reivindicar o respeito que considera necessário para todas as mulheres. “Eu mereço ser respeitada como sou, como todas as mulheres merecem, mas, acima de tudo, como jornalista.”

Movimento redpill: uma nova face da misoginia

De origem estadunidense, o movimento redpill propõe um “despertar” entre os homens. Ele utiliza das metáforas apresentadas no filme Matrix, no caso a pílula vermelha que revela a realidade e a azul que mantém os personagens no mundo de ilusões. 

Cena do Filme Matrix | Imagem: Jung na Prática

“Eles conseguem divulgar uma espécie de doutrina de que os homens estavam perdendo o poder e que as mulheres estavam ocupando o seu espaço”, explica a Profa. Dra. Lídia Possas, especialista em estudos de gênero. A antropóloga complementa que a atuação é considerada uma subcultura e “controla as redes sociais em uma escala global”.

As ideias propagadas colocam as feministas como adversárias declaradas e que ameaçam o papel tradicional do homem. “O feminismo e suas variáveis afirma  que nós queremos equidade. O nosso discurso não é da descrença do homem, mas sim que ele precisa compreender a nossa realidade”, esclarece Possas.

Segundo ela, o público-alvo deste tipo de discurso são os mais jovens e que se sentem isolados socialmente. A afirmação é comprovada pelo relatório produzido pela Equimundo, parceiro da ONU Mulheres, dois terços dos integrantes reproduzem falas como: “ninguém realmente me reconhece”. 

Atraídos e incentivados pelo ódio, eles entram em contato com uma comunidade que possui vocabulário próprio, reafirma ideias extremistas e incentiva falas violentas. 

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