Isabela Mendes do Nascimento, Lucas Capodeferro Nonato, Maria Clara Alves de Jesus, Pedro Henrique Moreira Domênico

A marca registrada da estética é a releitura da camiseta da seleção brasileira (Fotos: reprodução/Instagram |Montagem: Isabela Nascimento)

A pandemia de 2020 iniciou um movimento de transformação nas tendências sociais. Além de vestimentas e acessórios, alguns padrões estéticos já conhecidos na internet começaram a se popularizar. Isso aconteceu com a cultura brasileira, no chamado Brazil Core.

Esse movimento, composto por camisas da seleção brasileira, chinelos Havaianas, músicas e filmes nacionais encantaram o público de fora. Muitas dessas expressões culturais nasceram na periferia e tem um contexto histórico e popular por trás deles.

É perceptível que a popularização da estética brasileira trouxe benefícios para marcas nacionais ao ganharem prestígio e destaque na indústria. Além disso, o país se tornou um ponto turístico ainda mais desejado.

Contudo, com esse processo de popularidade da estética nacional, surgem dúvidas sobre o quanto se pode pensar no Brazil Core como identidade e quanto dessa proposta de lifestyle não é construída a partir de uma apropriação cultural de comunidades periféricas.

Os benefícios para o Brasil

Segundo Laís Barison, pesquisadora de comportamento e consumo, a tendência afeta a percepção da população e das empresas. “A gente consegue movimentar a economia brasileira e mostrar o potencial nacional para os outros países e para a sociedade”, comenta.

Um exemplo visível é o aumento de estrangeiros em terras brasileiras. Apesar das terras nacionais já serem um cartão postal desejado, os números crescem após a estética dominar o mundo.   

Campanha de verão de 2027 da marca brasileira Misci (Vídeo: reprodução: Instagram/misci__)

Impactos no turismo

De acordo com o Tourism Trends and Policies analyses (OECD), em 2025 o país recebeu 9.3 milhões de turistas internacionais, um crescimento de 37.1% comparado com os índices de 2024, que registrou aproximadamente 6,8 milhões.

Além disso, os dados referentes a 2025 já estão sendo ultrapassados em 2026. Segundo a Embratur, houve uma alta de 5,4% no mês de maio em comparação ao mesmo período do ano passado.

A instituição informou que os índices do primeiro semestre já se tornaram o segundo maior desempenho histórico do turismo brasileiro, atrás apenas do ano de 2025.

Impacto cultural e econômico 

Laís ressalta que quando a população enxerga o valor do país, as companhias demonstram um interesse maior em investirem nacionalmente. “As empresas começam a entender que na verdade existe um grande mercado consumidor aqui dentro”.

Sobre o relacionamento de empresas estrangeiras com o país, a pesquisador reflete: “A tendência consegue ajudar a ter, pelo menos, uma primeira visão sobre o Brasil e quem se interessa pode se aprofundar, a partir disso vai se ampliando esse olhar sobre o Brasil”.

Isso é visível nas estratégias das marcas estrangeiras que ingressaram no país recentemente. A fast-fashion H&M em suas campanhas publicitárias optaram por cantores nacionais como Anitta e Gilberto Gil para se aproximar do público.

Além de investir em visões brasileiras para se estabelecer no mercado, neste segundo semestre, a loja sueca lançou uma coleção limitada com a influenciadora Livia Nunes.

Campanha da H&M de 2025 (Vídeo: reprodução: Youtube/H&M)

Valorização dos produtos nacionais

Esse movimento também permite um tipo de autovalorização das empresas nacionais que começam a olhar diferente para a própria cultura e começam a investir em produtos que transmitem um orgulho brasileiro, com elementos clássicos e regionais. 

Sobre isso, Carolina Bicciato, pesquisadora especializada em moda, comportamento e inteligência de mercado, diz: “A gente valoriza mais nossa cultura, nosso cinema, nossa música. A gente tá consumindo muito isso, porque se a gente não valorizar, quem vai?”

Ela comenta como isso se refletiu na volta da Semana de Moda do Rio de Janeiro. Segundo a pesquisadora, marcas como Misci incorporaram as cores da bandeira e artesanatos típicos em suas peças, com uma atenção as heranças nacionais de um jeito que não acontecia no passado.

Exportação cultural

Essa valorização também é vista na exportação de produtos nacionais e na vontade das marcas locais em ingressarem no mercado internacional com uma identidade própria. A RIOFW mostra como as casas de moda se sentem prontas para se posicionarem de forma séria na indústria estrangeira.

Um dos motivos é a abertura do cenário mundial em receber empreendimentos sul-americanos. A Havaianas, por exemplo, conseguiu se estabelecer no mercado europeu.

Neste ano a marca Havaiana lançou uma coleção com a marca internacionai Isabel Marant no país (Foto: reprodução: Instagram/@havaianaseurope)

Sucesso internacional da Havaianas

O clássico chinelo conseguiu ultrapassar produtos de luxo e marcas gigantes, que se tornou o produto mais desejado de 2025, segundo o The Lyst Index, plataforma responsável em mapear os produtos mais desejado do mundo da moda. 

De acordo com a reportagem da Exame sobre a marca, o volume de vendas da empresa em territórios europeus cresceu 21% equivalente a 4,4 milhões de pares vendidos.

O primeiro trimestre de 2026 registrou R$406 milhões de receita líquida internacional. Além disso, na semana de moda de Copenhague de 2026, a marca foi vista na passarela e nos pés dos convidados.

Brasil Incompleto

Mesmo com o resgate desses elementos, o Brasil é marcado por pluralidades culturais e étnicas. Júlia Elize de Vargas Martin, administradora da página do instagram @cultura.brasileira, argumenta que pensar em uma estética que contemple todas as manifestações que existem no território nacional é algo impossível.

“Acho que falar do Brasil como uma coisa só não dá. Cada estado tem sua própria cultura, danças, culinárias. Resumir em uma coisa só seria difícil, porque precisaria citar várias camadas da nossa identidade”, explica.

Para criadora de conteúdo, o Brazil Core sofre com esse sintoma. Essa tentativa de representar o país, resume o brasileiro a um estereótipo que carrega marcas do sudeste, principalmente do Rio de Janeiro, que deixa de lado elementos característicos de outros estados.

“Além do Rio de Janeiro e de São Paulo tem outros lugares, como o Amazonas, Pará e muitos outros. Eu acho que a gente acaba focando só em alguns deles, mas tem outras culturas”, defende.

Fantasia de Brasileiro

Com a popularização do Brazil Core nas plataformas digitais, se tornou comum ver pessoas de fora do Brasil com peças nacionais, mimetizando essa estética em seus perfis nas redes sociais. 

Na opinião de Júlia, isso acontece porque, no contato com a cultura brasileira, os gringos descobriram algo que é diferente daquilo que estão acostumados, algo distante do europeu, uma cultura “autêntica”.

Ainda assim, ela admite estranhar essa intimidade que os não brasileiros parecem ter com o lifestyle. “Assim, se eu fosse um estrangeiro, eu não me identificaria muito. É muito bom ver pessoas de outros países vestindo a camiseta do Brasil, até exaltando, mas acho que força demais esse visual”.

Ela explica que essa identidade “vai além de usar uma camisa verde e amarela e, pronto, já é do Brasil. Pegar uma camisa com o escrito ‘Brasil’ na estampa e é isso”. 

No final de 2025, a cantora Dua Lipa realizou dois shows no país
(Foto: reprodução: Instagram/@dualipa)

Perspectiva da Quebrada

Além disso, a aproximação de marcas internacionais interessadas no potencial que a cultura brasileira atribui aos seus produtos pode revelar nuances preocupantes.

Segundo a pesquisadora periférica e mestra em semiótica, Lidiane da Silva (@lidianeodasilva), o Brazil Core não é uma criação recente ou que surgiu com as redes sociais, ele é fruto de uma apropriação das “práticas de vida periférica” por parte de marcas que transformaram isso em produtos destinados à classe média.

“O Brazil Core é um nome recente para um repertório visual já antigo, o mercado transformou essa estética que já era vivida nas periferias urbanas e chamou isso de tendência”, argumenta.

Apropriação da criatividade

Lidiane explica que essa relação de apropriação se deu a partir de todo um potencial criativo que existe em territórios periféricos e que, a partir disso, essa população reinventa funcionalidades dos produtos criados para outros públicos-alvo.

“Quando as periferias vão usar as marcas, elas não usam pela funcionalidade. Elas vão usar tudo de outra maneira. Porque quem cria um produto, [cria] pensado em um público alvo que não é a periferia”, explica.

A pesquisadora afirma que para as pessoas plurais que existem nesses territórios, forçadas a conviverem juntas em um espaço pequeno, a criatividade é quase como uma necessidade para elas.

“O periférico está num contexto também em que a criação é uma forma de existência. ‘Eu preciso criar para sobreviver!’ […] As periferias criam tendências todos os dias. Criam moda, inovação, criam soluções a partir de poucos recursos”, comenta.

A pesquisadora não vê essa estética como capaz de trazer um conceito de brasilidade. “Não vejo que o Brazil Core traga uma representação ou uma ideia do que é um país, não acho que ele ressignifica o que é o brasil”, expõe.

Em seus vídeos, Lidiane discute a cultura periférica e a forma que é percebida no país e no mundo (Vídeo: reprodução: Instagram/lidianedasilva)

Uma performance deslocada

Ainda que o Brazil Core integre elementos da rotina e da realidade periférica, ao tornar isso um modelo comercial, ele produz um contraste com as suas raízes.

A pesquisadora complementa dizendo que, enquanto outras classes veem o Brazil Core como uma estética, a periferia não distingue seus traços como algo diferente ou fora do comum.

“É o dia a dia da quebrada. [O Brazil Core] É algum vendedor ambulante que passa, vendedor de feira. Não é uma estética montada, pensada, é uma consequência da prática de vida da quebrada”, finaliza.

É complexo discutir as consequências positivas e negativas da tendência. Apesar de trazer benefícios para as indústrias locais, transforma em caricatura uma vivência marginalizada, que supervaloriza características regionais como nacionais, sem considerar o Brasil como um todo diverso e plural.

Afinal, o Brazil Core beneficia o mercado brasileiro ou invisibiliza a diversidade da cultura nacional?

Para saber mais sobre a popularização da estética brasileira acesse o TrilhosCast.

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