Evento abordará discussões sobre inteligência artificial, sustentabilidade e tecnologia
Isabela Nascimento

No início dos anos 2000, o Brasil começou a se posicionar no cenário da moda mundial, uma das ferramentas escolhidas para trazer visibilidade a este mercado emergente foram as semanas de moda. O Fashion Rio foi criado em 2002, com o objetivo de resgatar a memória de sucesso da antiga capital.
Com nomes da indústria nacional e internacional, a semana de moda foi um sucesso até 2013, quando o evento começou a passar por problemas estruturais, resultando no cancelamento da edição de 2014. Em 2015, a comissão organizadora liderada por Paulo Borges, CEO do Grupo Luminosidade e idealizador do São Paulo Fashion Week, anunciou uma reformulação a partir de um fórum de discussão, mesmo assim, o cancelamento oficial chegou no ano seguinte.
Em um anúncio inesperado no final do ano passado realizado pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, ele afirmou o retorno, com um novo nome, Rio Fashion Week e uma nova identidade visual. Paulo Borges continua na administração, mas agora compartilha a posição com a empresa IMM, responsável pelo SPFW.
Rio Fashion Week em 2026
A volta da RIOFW acontece entre os dias 15 a 18 de abril no Píer de Mauá e apresentará coleções de marcas nacionais como: Osklen, Misci, Dendezeiro, Lenny Niemeyer, entre outras. O evento contará com palestras, workshops, conversas com nomes da indústria e discussões sobre inteligência artificial, sustentabilidade e tecnologia.
Além do impulsionando cultural, o fomento econômico é outro objetivo da organização responsável. De acordo com informações divulgadas pela prefeitura do Rio de Janeiro, a expectativa é um impacto de R$200 milhões, aproximadamente 8 mil postos de trabalhos gerados e pode gerar mais de R$1 bilhão em mídia espontânea para a cidade carioca. A administração também acredita na exportação da imagem da moda nacional para o mundo com a volta do evento.

Indústria com grande capital e um aumento no mercado
O renascimento da semana de moda carioca está diretamente relacionado aos altos números que o setor têxtil brasileiro gera por ano. Em uma pesquisa realizada em 2022 pela Consultoria Iemi (Inteligência de Mercado) e Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), o varejo movimentou R$265,8 bilhões, com grande volume de produção têxtil e peças produzidas. Tudo indica que estes dados aumentaram exponencialmente nos últimos anos.
Além desses índices chamarem atenção das marcas nacionais, grandes nomes da fast fashion no mundo viram a oportunidade de ingressar no país pelo mercado agitado. No ano passado a loja sueca H&M inaugurou lojas no sudeste e, no final de março deste ano, a Bershka fez seu lançamento oficial na capital paulista. Este investimento também está relacionado à percepção do público com peças estrangeiras.
Para Lucas Xavier, criador de conteúdo e consultor de moda, a população enxerga estas lojas com um certo prestígio. “Por ser internacional, o pessoal valoriza quase como se fosse uma coisa muito diferente do que a gente tem na C&A e na Renner”. Ele acredita que muitos veem a Zara, por exemplo, como luxo, mesmo tendo uma qualidade semelhante as lojas do país.
Este movimento forçou as empresas nacionais a mudarem seu posicionamento. Sobre isso, ele fala. “As empresas nacionais estão adotando um posicionamento de imagem que bate de frente com as competições estrangeiras”. Ele complementa dizendo que a Renner e as outras, atualmente, estão criando campanhas com um apelo semelhante para chamar o público.

Identidade nacional resgatada e valorização das raízes
A mudança não é reservada para a indústria de consumo rápido, as marcas de Slow Fashion e grifes nacionais, nos últimos tempos, escolheram um direcionamento novo e estratégico. Segundo Lucas, os diretores criativos começaram a entender a importância de sair do eixo Rio-São Paulo, e estão buscando referências que não foram exploradas ou reconhecidas.
Além disso, estas marcas já entenderam a importância de seus trabalhos aqui dentro e lá fora. Sobre isso, o criador de conteúdo, diz. “Eles estão percebendo que estão conseguindo criar tendências que outras marcas já replicaram lá fora, mas que vem originalmente do Brasil”. Ele reforça que a volta da Rio Fashion Week será importante no processo do engajamento internacional no mercado interno e o estabelecimento das marcas nacionais na indústria internacional.
Interesse do público
Um ponto importante que Lucas Xavier traz é o interesse do público que vem acompanhado do desenvolvimento do meio da moda no país, esta percepção vem com seu trabalho nas redes sociais. “ As pessoas estão tendo mais interesse em consumir moda e não falo na questão de roupa, eu falo na questão também da informação”, comenta.
Esta visão da moda como um produto cultural é não apenas essencial do dia a dia, como também ajuda no crescimento do mercado, principalmente levando em consideração os ambientes em que a população interessada consome, como as redes sociais.

Início de uma melhoria no cenário
Porém, apesar do crescimento da área, o aumento no consumo de informações especializadas e o crescimento de marcas de moda com um posicionamento estruturado, este ambiente continua sendo desvalorizado. Com baixa oportunidade em empregabilidade em cargos de criatividade e dificuldade de marcas manterem a periodicidade na SPFW, Lucas acredita que este cenário está mudando, principalmente com o olhar internacional no país.
“Acredito que a moda nacional cresce cada vez mais. O Brasil tem muita potência e eu vejo isso tanto como influenciadores internacionais que estão ouvindo muito pra cá e consumindo muito a nossa cultura”. Ele ressalta que a indústria não é apreciada, mas hoje, as marcas nacionais estão levando isso em consideração. “Eles não estão pensando em só exportar, mas também valorizar o que a gente tem aqui dentro e eu sinto que a Fashion Week é um exemplo disso.”
A esperança é de que 2026 seja o ano da mudança no mercado da moda brasileira, com a volta da Rio Fashion Week no calendário de moda anual junto à SPFW. Mas, além desses eventos, nasce a importância da estruturação do cenário por completo.
Segundo o presidente da Abit, Fernando Valente Pimentel, há a necessidade da valorização da produção local, criatividade, brasilidade, fortalecimento da acessibilidade e equilíbrio de preços. Isso ajudará o setor nacional ter prestígio e se reinventar em um mercado internacional em um ambiente competitivo.





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