Amabile Zioli, Flavia Tofoli, Luana Brusiano, Marina Barrelli e Matheus Santos

Artesãos, empreendedores e artistas ocuparam a Praça Orlando Lamônica durante o circuito. Para além da exposição, a feira funcionou como espaço de circulação de produtos, divulgação de trabalhos e possibilidade de geração de renda para os participantes.
(Foto: Flavia Tofoli)

No último domingo (23), a Praça Orlando Lamônica, no Jardim Godoy, em Bauru, foi cenário de break, hip hop, capoeira, tranças, artesanato e memória. Essa foi a primeira edição do Circuito Feira Afro Centro-Oeste Paulista, evento gratuito organizado pela Prefeitura, em parceria com o Conselho Municipal da Comunidade Negra e o Circuito de Feiras Afro do Centro-Oeste Paulista.

Entre uma apresentação e outra, artistas, produtores culturais e gestores públicos contaram, cada um à sua maneira, a mesma história: a de um setor que se movimenta com potência, mas é desestabilizado ao se deparar com limites e lacunas das políticas públicas culturais.

A busca por visibilidade e espaço

Entre os expositores do evento estava Ketlyn Cristina, técnica de tratamento de imagem em uma gráfica, mas que também desenvolve o projeto Kachinhos Artesanatos, criado como tema de seu TCC. Aquele domingo foi sua estreia: a primeira vez que participava de uma feira ou evento promovido pelo poder público.

A presença de atividades comerciais na feira também mostra como eventos culturais podem funcionar como vitrine para trabalhadores e empreendedores (Foto: Flavia Tofoli)

“Gostei bastante do espaço, gostei dessa visibilidade, das exposições que estão acontecendo. Está tudo bem legal”, contou.

Questionada sobre a importância de um circuito como esse para a cultura local, Ketlyn resumiu, em poucas palavras, o que boa parte das políticas culturais tenta, ao menos no papel, concretizar: acesso e visibilidade.

“É movimento. É conhecimento também, o pessoal entender o que acontece, o que tem na cidade inteira”, disse, destacando que o evento permite “ver um pouquinho de cada lugar, o pessoal de cada canto”.

A fala de Ketlyn enfatiza um ponto central: para muitos trabalhadores da cultura em Bauru, o problema não é a falta de produção, mas a falta de espaço institucional para mostrar o que já se produz.

Cultura negra em circulação

Quem explica a origem do Circuito é Tatiana Sa, coordenadora de Políticas Públicas para a Igualdade Racial e Povos Indígenas, vinculada à Secretaria de Governo da Prefeitura de Bauru e uma das idealizadoras do projeto.

De acordo com ela, a ideia surgiu de uma troca regional: Bauru participou de um evento semelhante em uma cidade vizinha e decidiu replicar o modelo.

“A gente meio que fez algo regional. Pederneiras está participando. Jaú já fez a sua versão. Chegou a vez de Bauru”, relatou. Em setembro, o circuito segue para Bariri.

Para Tatiana, o evento é, em si, uma política pública de enfrentamento ao racismo.

“Nós estamos vivendo um momento de muito racismo, tanto em Bauru como no país inteiro. Então, essa aqui é uma ação afirmativa”, explicou, citando as ações de letramento racial promovidas durante a feira.

O objetivo, segundo ela, é criar “espaços sem constrangimento” para que artistas e empreendedores negros possam trabalhar “com a tranquilidade de que não vamos ser desrespeitados”.

Como desafio para as próximas edições, ela cita a dificuldade de mapear os fazedores de cultura afro espalhados pela cidade e a vontade de descentralizar o evento, levando versões menores para os bairros periféricos.

Editais concorridos e leis “datilografadas”

Se o evento em si nasce de uma articulação municipal recente, o financiamento da cultura em Bauru segue vinculado a estruturas mais antigas e, segundo quem lida com elas de perto, ultrapassadas.

Renata Moreira Garcia de Carvalho, jornalista, presidente do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC) e titular da cadeira do hip-hop no colegiado, traduz em números a disputa por recursos na cidade: o Programa de Estímulo à Cultura (PEC), edital municipal, destina cerca de R$ 300 mil por ciclo, mas recebe centenas de inscrições, das quais apenas uma fração é contemplada.

A alta procura pelos editais municipais evidencia a necessidade de ampliar as oportunidades de financiamento para artistas e produtores da cidade (Foto: Flavia Tofoli)

“São 300 pessoas que se inscrevem para o edital, sendo que só passam seis pessoas jurídicas e sete físicas”, relatou.

Renata credita boa parte do fôlego atual do setor a políticas federais criadas em resposta à pandemia: a Lei Paulo Gustavo e, principalmente, a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), instituída pela Lei nº 14.399/2022, que repassa recursos da União a estados e municípios para o fomento cultural.

Bauru recebeu cerca de R$ 2,4 milhões no primeiro ciclo da PNAB, e o segundo ciclo (2025–2029) já está em execução. Entretanto, a chegada desses recursos também exige que o município se adapte a novas exigências, como a adesão ao Sistema Nacional de Cultura, o que Renata chama de “o SUS da cultura”. Segundo ela, “se Bauru não se adequar, não recebe mais verba”.

Um dos entraves apontados pela presidente do CMPC não é a falta de vontade política, mas a obsolescência da legislação municipal: tanto a lei que rege o próprio Conselho quanto a lei do Fundo Municipal de Cultura estão “totalmente desatualizadas”. A última, segundo Renata, ainda é “digitada à máquina”.

Quem tem voz na política cultural?

Um conselho atuante pode aproximar o poder público de quem faz cultura. É o que defende Letícia Cardoso, aluna e ex-professora do Estúdio Vocal de Adriana Rossetto, que também se apresentou no evento.

Integrantes do Estúdio Vocal de Adriana Rossetto se apresentaram durante a programação. A participação evidencia uma das principais reivindicações de artistas locais: a necessidade de ampliar a oferta de espaços acessíveis para apresentações culturais na cidade (Foto: Flavia Tofoli)

Para ela, um dos principais desafios da educação musical em Bauru é encontrar espaços para se apresentar.

“A gente tem por vontade de usar qualquer espaço que seja disponibilizado para a gente como palco. A gente não precisa de pompa”, afirmou. Ela também critica a divulgação restrita de iniciativas culturais na cidade.

Sobre o conselho, Letícia destaca a importância de ter “um espaço e um canal para se fazer ouvir”. Para ela, porém, ainda é preciso ampliar a diversidade nas escolas de música e incentivar instituições a “sair da zona de conforto” na escolha dos repertórios e no que é valorizado.

Para o público da feira, as políticas culturais também se traduzem em representatividade, pertencimento e oportunidades econômicas.

Os dançarinos de break Gabriel Luz e Leonardo, conhecido como BB Boy Brequinho, destacaram a importância do evento para fortalecer a cultura afro e incentivar novas gerações. Leonardo chamou atenção para a presença das crianças, enquanto Gabriel defendeu a continuidade da iniciativa.

Além do aspecto cultural, os dois ressaltaram a possibilidade de geração de renda por meio da venda de artesanato, do concurso de tranças e da divulgação do trabalho dos participantes, mostrando que iniciativas como a feira ultrapassam o caráter simbólico.

Para além do evento

O retrato que emerge do evento é o de uma cidade em que a política cultural existe, mas convive com dois movimentos simultâneos: de um lado, iniciativas recentes e afirmativas, como o próprio Circuito Feira Afro, nascidas da articulação regional e da atuação de coordenadorias; de outro, uma estrutura de financiamento que não é atualizada há anos e segue dependente, em boa parte, do fôlego dado por políticas federais, como a Aldir Blanc.

O que fica deste domingo na Praça Orlando Lamônica é que a política cultural, quando funciona, aparece nos detalhes mais simples: um palco cedido, um convite feito, uma primeira vez em uma feira pública. E, quando falha, também é nos detalhes simples que isso se sente: na fila de quem espera um espaço, na cadeira de conselho que falta, no evento que ainda depende de boa vontade para acontecer novamente no ano que vem.

Entre a ação afirmativa que já existe e a estrutura que ainda precisa se firmar, o Circuito Feira Afro deixa claro que fazer cultura em Bauru é, antes de tudo, um exercício de ocupar espaço e lutar para que ele continue existindo.

Deixe uma resposta

Trending

Descubra mais sobre AGÊNCIA TRILHOS

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo