Letícia Cerqueira

Tronco de eucalipto plantado na Fazenda Experimental Lageado no campus Unesp Botucatu
(Foto: Letícia Cerqueira)

A Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS) 2025 (IBGE) mostrou um recorde no país com um aumento de 8,6% em relação ao ano anterior. A silvicultura atingiu 41 bilhões de reais e 10,4 milhões de hectares. Deste número, o eucalipto  está em mais de 8 milhões de hectares. Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e São Paulo são os estados com protagonismo na cultura do eucalipto, sendo MG o líder.

Plantação de eucalipto na Fazenda Experimental Lageado no campus Unesp Botucatu
(Foto: Letícia Cerqueira)

O eucalipto é a principal árvore plantada no país e representa 78,6% da silvicultura brasileira. A versatilidade é o fator que chama atenção para a espécie que pode ser utilizada tanto para indústria, como produção de celulose, energia ou carvão, até na preparação de essências de eucalipto para óleos ou produtos de limpeza.

Segundo o relatório anual da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), o Brasil possui cerca de 8,3 milhões de hectares de florestas de eucalipto. A maior concentração está em São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais que representam, respectivamente, 1,2, 1,7 e 2,2 milhões de hectares. Segundo o engenheiro florestal, Saulo Guerra, são os estados onde o ciclo do eucalipto varia entre 5 a 7 anos.

História

Apesar da importância do Eucalyptus para o Brasil, a espécie não é natural do território. A introdução dessa árvore foi feita entre os séculos XVIII e XIX por Edmundo Navarro de Andrade, que ficou conhecido como o pai do eucalipto no Brasil.

“Na época, todos os trens funcionavam a vapor e a principal matéria-prima era a madeira. Então, a Mata Atlântica e o Cerrado começaram a ser cortados. [Isso] para ampliar áreas agrícolas e parte dessa madeira era usada para lenha, para as locomotivas”, conta Carlos Wilcken, engenheiro agrônomo.

Nesse contexto, surgiu uma preocupação com o futuro da força motriz da ferrovia, já que as árvores estavam sendo cortadas e, na área desmatada, ampliava-se a agricultura. “A Companhia Paulista de Estrada de Ferro, que tocava as estradas de ferro aqui do Estado de São Paulo, se preocupou e contratou um engenheiro agrônomo, chamado Edmundo Navarro de Andrade”, afirma o especialista.

Então, depois de intensos processos de estudos e análise, o botânico optou por importar uma espécie de árvore natural da região da Austrália, o eucalipto. Essa foi uma estratégia científica porque, uma planta natural do território tem pragas e insetos que podem prejudicar seu crescimento, principalmente em uma monocultura.

“Essas pragas ou doenças [podem] dizimar a plantação e, naquele momento, não tinha inseticidas ou fungicidas químicos, agrotóxicos para ser usado. Já quando se traz uma espécie [de outro lugar] desde que faça de maneira correta, não trazendo as doenças e as pragas junto [ela se desenvolve melhor porque] nós não temos uma fauna de insetos e uma flora, uma microflora, e de fungos associados”, afirma.

A escolha da espécie estrangeira não foi aleatória, a questão da latitude foi importante nesse processo. “Ele buscou justamente as espécies que estavam na mesma latitude de São Paulo, que é próximo da região de Brisbane, lá na Austrália”, diz Wilcken.

As primeiras plantações foram no horto florestal da cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo, onde hoje é conhecido como Floresta Estadual Edmundo Navarro de Andrade. Assim, iniciou-se a eucaliptocultura no Brasil.

Mas foi a partir de 1960 que o gênero Eucalyptus recebeu fins industriais na produção de celulose. Hoje, o Brasil é o maior exportador e o segundo maior produtor de celulose no mundo, com 20,7 milhões e 29,4 milhões de toneladas exportadas e produzidas em 2025, respectivamente. Os dados são do Ibá.

Elaborado Letícia Cerqueira

Processo de cultivo

A plantação das espécies florestais é feita por meio de mudas que, segundo a CropLife, são o primeiro estágio de uma planta, quando ela ainda está se desenvolvendo. Carlos Vilken explica que, no caso das árvores, a semente é pequena e que, como seu crescimento é mais lento comparado com as espécies agrícolas, é mais seguro que a introdução da planta no solo seja na fase de muda.

O processo produção de uma muda é feito através de clonagens. “Pega um pedacinho do ponteiro das plantas e põe no tubete, no substrato, e ele enraíza. Chamamos de propagação vegetativa. E, assim, faz o melhoramento, seleciona as melhores árvores e depois multiplica por clonagem”, explica.

A muda leva entre 100 a 120 dias para atingir em torno de 25 centímetros e estar pronta para ser introduzida no solo. Este, precisa ser preparado com um corte de 50 centímetros de profundidade e adubado.

A técnica de plantio é chamada de semimecanizada porque é necessário a atuação de pessoas. “Um trator ou um caminhão vai levando água e as mudas, mas os operadores têm uma plantadeira e [vão posicionando a planta no solo]”.

A quantidade de plantas por hectares depende do espaçamento entre elas que, por sua vez, é adaptado de acordo com o objetivo da colheita. Entre uma árvore e outra, acontece a reciclagem de nutrientes com o acúmulo da queda das folhas. Esse processo auxilia na manutenção do solo.

A árvore atinge em torno de 25 metros em 6 a 7 anos de cultivo. Quando chega no momento da colheita, é deixado um pequeno pedaço da árvore, chamado de toco. Nele, há o brotamento de novos eucaliptos.

Plantação de eucalipto na Fazenda Experimental Lageado no campus Unesp Botucatu
(Foto: Letícia Cerqueira)

A maior vantagem do eucalipto, de acordo com os especialistas, é o ciclo rápido e produtivo. Guerra diz que a capacidade de rebrota da árvore torna a espécie mais interessante economicamente. “Se cortar uma árvore de eucalipto e não destruir o toco na hora do corte, vai nascer um monte de brotos e vai aparecer um monte de eucaliptos naquele toco. Se você manejar, por exemplo, cortar alguns deles, deixar um ou dois mais fortes, você volta a ter uma floresta”, explica.

Broto de eucalipto na Fazenda Experimental Lageado no campus Unesp Botucatu
(Foto: Letícia Cerqueira)

Versatilidade e uso

O principal composto derivado do eucalipto é a celulose, feita nas grandes indústrias, como Suzano e Bracell. Cada empresa tem suas especificidades no processo de fabricação da celulose que é gerada a partir  do tronco da árvore.

Saulo Guerra diz que, a partir da celulose, é possível gerar diferentes materiais. “A aba que segura o óculos no nariz é [de] celulose, a capinha que envolve alguns comprimidos, é celulose. Quando escova os dentes, tem celulose. Quando masca o chiclete, tem celulose”.

Além disso, nessas indústrias, também é comum utilizar a madeira do eucalipto para geração de energia com o etanol. Segundo Guerra, o processo é feito com as partes da madeira que não servem para a produção da celulose, como a casca e o toco da árvore. Entretanto, como é um processo caro, é usado para gerar energia para a fabricação da celulose.

“A indústria tem um produto e, para isso, tem uma matéria-prima. Os resíduos dela podem ser queimados para gerar energia e ajudar na manutenção daquela empresa, então você pode parar de comprar energia elétrica que vem da rede nacional, porque você tem uma geração de energia elétrica própria com a biomassa que você produz”, explica Saulo.

Outra funcionalidade do eucalipto é a produção de carvão vegetal que é usado tanto para a geração de energia, quanto para churrasco. De acordo com o IBGE, Minas Gerais é o estado brasileiro com maior produção do carvão, responsável por 84,6% da produção nacional.

Manuel Spadim, engenheiro eletricista,  explica que, nos campos de produção de carvão, há fornos que precisam ser vedados de oxigênio para que as toras de eucalipto se tornem carvão. “O princípio de se fazer carvão queimar sem oxigênio. Então fica tudo fechadinho. Você coloca fogo, depois você fecha no barro”.

Forno de carvão na Fazenda Experimental Lageado no campus Unesp Botucatu
(Foto: Letícia Cerqueira)

O aroma de eucalipto também está presente no cotidiano das pessoas através de óleos essenciais ou até mesmo produtos de limpeza. A essência é usada de forma medicinal, já que a planta possui propriedades terapêuticas.

Segundo Renata Carvalho, consultora de bem-estar doTERRA e líder Diamante, o óleo de eucalipto tem o potencial de alívio na respiração durante congestionamento nasal ou resfriados. “O eucalipto também é tradicionalmente utilizado em algumas preparações destinadas ao alívio da tosse associada ao resfriado e de dores musculares localizadas”, diz.

Preservação ambiental

Carlos Wilker, especialista em agronomia, explica que o eucalipto é importante, inclusive, para preservação de biomas no Brasil, como o Cerrado. Além disso, o cultivo de eucalipto é mais econômico do que a exploração dos biomas.

“O cerrado tem que ser preservado, porque ele é de árvores pequenas, todas tortas, nem todas têm a mesma qualidade e aí você precisa destruir, desmatar uma área muito grande para produzir a mesma coisa”. Ou seja, um hectare de eucalipto pode gerar uma quantidade de material que precisaria de mais de 20 hectares de cerrado para produzir.

Plantação de eucalipto na Fazenda Experimental Lageado no campus Unesp Botucatu
(Foto: Letícia Cerqueira)

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