Próximo ao Dia da Conscientização do Autismo, município ainda luta para garantir acesso à educação de qualidade para todos

Rodrigo Matias

Foto: Karol Abílio

O Dia Mundial da Conscientização do Autismo, celebrado na próxima quinta-feira, dia 2 de abril, é um momento no qual se intensifica o debate sobre a inclusão de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no país. Segundo o Censo Escolar 2025, do Ministério da Educação (MEC), o número de estudantes nessa condição matriculados na educação especial no país passou de 294,4 mil para 1,3 milhão entre 2021 e 2025.

Apesar dos avanços, como a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva (Pneei), instituída em outubro de 2025, ainda há muitos desafios a serem superados. Em Bauru, por exemplo, instituições e famílias apontam obstáculos no ensino de qualidade.

No município, a inclusão escolar é garantida por legislações, como a lei municipal nº 5.321/2005, que estabelece diretrizes para o atendimento de alunos com deficiência na rede pública. Essas políticas inclusivas orientam a atuação das escolas, com adaptações pedagógicas individuais e suporte especializado. Apesar disso, a diferença entre o que está previsto nas leis e a realidade vivida nas escolas ainda apresenta controvérsia.

Inclusão na prática

A costureira Aline da Silva é mãe de três filhos com TEA matriculados na rede pública de Bauru e relata que a inclusão, muitas vezes, não se concretiza na prática. Segundo ela, os filhos, que estão no sétimo ano e possuem diagnóstico de nível 1 do espectro, não recebem o suporte necessário. 

“Muitas escolas, apesar de falarem de inclusão, não estão verdadeiramente preparadas para lidar com seus alunos. Meus filhos não recebem os devidos cuidados, porque muitos acreditam que o nível 1 não precisa de tanto suporte”, afirma.

De acordo com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Bauru (APAE), a cidade de Bauru já caminha para um desenvolvimento no direito à educação inclusiva, mas enfrenta entraves estruturais que impactam o aprendizado dos alunos com TEA. Na avaliação da instituição, o principal desafio hoje é garantir uma rede de auxílio eficaz que assegure não apenas o acesso à escola, mas que ajude no desenvolvimento integral do aluno.

Acessibilidade além da escola

Para além do ambiente escolar, os desafios da inclusão também se manifestam em outros espaços da cidade. Aline relata que, embora existam locais acessíveis em Bauru, ainda há barreiras relacionadas à falta de compreensão da sociedade sobre as necessidades de crianças com TEA, especialmente em locais com muito estímulo sensorial, como barulho e aglomerações.

“É possível encontrar ambientes acessíveis em Bauru, mas mesmo esses espaços apresentam limitações e obstáculos. Muitas vezes as pessoas não entendem as questões de uma criança especial e isso compromete ainda mais a acessibilidade”, diz.

Em Bauru, a inclusão escolar também é apoiada por outras instituições como a SORRI Bauru e a AFAPAB (Associação dos Familiares e Amigos dos Pais de Autistas de Bauru), além dos serviços de apoio pedagógico especializado da rede municipal e estadual de ensino. No entanto, segundo a APAE, essas iniciativas ainda funcionam de forma fragmentada, o que dificulta a continuidade do acompanhamento.

Fonte: Censo Escolar 2025 INEP/MEC
Gráfico por: Rodrigo Matias

Desafios 

A coordenadora técnica da APAE, Luci Regina de Paula, avalia que, apesar dos avanços, Bauru ainda precisa superar desafios importantes para garantir a efetividade da inclusão.

“ O município de Bauru apresenta avanços significativos na implementação da política de inclusão escolar. No entanto, ainda enfrenta desafios estruturais importantes para ser efetivo nessa inclusão. É necessária uma atuação intersetorial entre educação, saúde e assistência social, além de uma ampliação de profissionais de apoio dentro da sala de aula com estratégias pedagógicas individualizadas”, explica. 

Para a coordenadora, é fundamental avançar na qualificação do suporte oferecido dentro do ambiente escolar, para que a inclusão faça jus ao art. 51 da Lei Orgânica do Município de Bauru, que atesta que as escolas devem oferecer respostas pedagógicas diferenciadas aos alunos com deficiência e necessidades educacionais especiais. 

Comemoração do dia da conscientização do autismo

Como parte das ações do mês de conscientização, a APAE Bauru promoverá atividades ao longo de abril, incluindo capacitações, apresentações culturais e iniciativas em parceria com a rede de apoio. 

Para Aline de Silva, o pedido é que a conscientização vá além da data simbólica de 02/04.

“A inclusão é muito linda na tevê, muito linda quando está chegando o dia internacional da conscientização, mas no dia a dia é muito difícil, mas a gente corre atrás. E pedimos que as escolas e as pessoas tenham paciência e nos ajudem nessa luta”. 

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