
Além da tristeza frequente, pesquisa destaca outros sinais de vulnerabilidade emocional entre jovens
Por Murilo Tognette
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgados na última quarta-feira (25), mostram que 28,9% dos estudantes de 13 a 17 anos relataram tristeza “na maioria das vezes” ou “sempre” nos 30 dias anteriores. O índice apresenta leve queda em relação a 2019, quando era de 31,4%.
Realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde e apoio do MEC, a pesquisa alcança mais de 12,3 milhões de jovens. O levantamento inclui respostas de alunos e diretores sobre percepções individuais e o contexto escolar.
Quem se sente mais triste?
Os dados da pesquisa indicam uma diferença relevante entre os grupos analisados. Entre as meninas, 41% relataram sentir tristeza com frequência. Em contrapartida, entre os meninos, esse percentual foi de 16,7%, menos da metade do observado no outro grupo.

Nas escolas públicas, 29,2% dos estudantes relataram sentir tristeza com frequência, enquanto nas instituições privadas esse percentual é de 27,2%. A proximidade entre os índices sugere que o fenômeno ocorre em ambos os contextos de forma semelhante.

Por região, as variações também são discretas entre os percentuais registrados. A região Norte apresenta o maior índice, com 30,1% dos estudantes relatando tristeza frequente. Enquanto o Sudeste tem o menor percentual, com 28,2%. As demais regiões se mantêm próximas da média nacional.

Outros indicadores de saúde mental
Além da tristeza, a pesquisa apresenta mais dados sobre a percepção emocional dos estudantes:
- 4,5% afirmaram não ter amigos próximos
- 26,1% disseram sentir que ninguém se preocupava com eles
- 18,5% relataram que a vida não vale a pena ser vivida
- 14,9% fizeram avaliação negativa da própria saúde mental
O que dizem os professores?
Em conversa com Gabriela Angelucci, pedagoga com experiência no ensino privado e estadual e atualmente professora do ensino fundamental público de Porto Ferreira/SP, relata sinais de sofrimento psicológico observados nos alunos.
“Em minha experiência como professora, observo sinais como desinteresse pelas atividades, dificuldades de concentração, agressividade, isolamento, baixa autoestima e mudanças bruscas de humor”, destaca.

“Esses sinais estão frequentemente associados a fatores externos ao ambiente escolar, especialmente ao contexto familiar. Muitos alunos vivenciam ausência de acompanhamento por parte da família em relação à vida escolar e emocional. Essa falta de suporte impacta o desenvolvimento, a segurança emocional e o engajamento na aprendizagem”, afirma.
Gabriela também comenta sobre como as instituições lidam com possíveis problemas de saúde mental apresentados pelos estudantes. “A escola acaba assumindo um papel de acolhimento, orientação e apoio que ultrapassa o âmbito pedagógico, buscando suprir, dentro de suas possibilidades, necessidades que deveriam ser compartilhadas com a família”, relata.
A professora ainda salienta sobre quais ações considera mais relevantes para melhorar a saúde mental dos estudantes.
“Ações eficazes envolvem um ambiente acolhedor, rodas de conversa e momentos de escuta. A parceria entre escola e família é essencial para o bem-estar dos alunos. O olhar atento do professor ajuda a identificar sinais de sofrimento. A família é importante, mas se houver transferência total de responsabilidades, isso dificulta o trabalho pedagógico”, ressalta.
Cenário e desafios da saúde emocional juvenil
Apesar da redução em relação a 2019, os dados indicam que a tristeza frequente ainda atinge uma parcela significativa dos adolescentes brasileiros. O fenômeno aparece de forma consistente entre diferentes regiões, redes de ensino e grupos sociais.
A presença de outros indicadores, como solidão e percepção de falta de apoio, está associada a esse quadro. Esse cenário evidencia a importância do acompanhamento contínuo desses dados.





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