Cidade amplia o debate com campanhas, programação especial e novo Centro TEA
Letícia Reis

Abril é o mês da conscientização e visibilidade do autismo | Créditos da Imagem: Divulgação – Governo Federal
No mês de abril, tudo fica mais azul! E o motivo é a chegada do Abril Azul: campanha de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). E Bauru celebra, com novidades e campanhas, o mês da sensibilização.
A celebração foi estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007, junto do dia 2 de abril, o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, e foi comemorada oficialmente pela primeira vez em 2008.
O objetivo é envolver a população e promover conhecimento sobre o autismo, ampliar a visibilidade e inclusão e fortalecer a conquista de direitos, ainda insuficientes devido aos tabus associados ao espectro.
O que é o autismo?
O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento que dificilmente apresenta características físicas e é considerada uma “deficiência invisível”. Ela afeta a comunicação, a interação social e provoca comportamentos repetitivos e restritos. Os primeiros sinais aparecem na primeira infância.
Entre as características, destacam-se:
- Hiperfoco em assuntos específicos;
- Conforto em rotinas;
- Dificuldades sensoriais (do toque aos sons);
- Desafios de interação.
O TEA possui “espectro” em seu nome devido à manifestação única em cada indivíduo, exigindo um entendimento e intervenções personalizadas.
Segundo a Clínica Formare, especializada em autismo e Terapia de Análise do Comportamento Aplicada (ABA), em seu blog informativo, o TEA apresenta diferentes níveis de suporte, identificáveis pelas seguintes características:
- Autismo leve: dificuldade em iniciar interações, impacto nas atividades cotidianas devido à inflexibilidade e pouco ou nenhum prejuízo na linguagem funcional.
- Autismo moderado: comunicação acentuadamente limitada (verbal ou não verbal), habilidades sociais restritas, inflexibilidade e possível deficiência intelectual ou ausência de linguagem funcional.
- Autismo severo: graves dificuldades de comunicação, possibilidade de deficiência intelectual ou ausência de linguagem funcional.
Historicamente, o TEA já foi descrito de muitas maneiras. Em 1952, na primeira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM-1), foi identificado como um subgrupo da esquizofrenia infantil. Nos anos 1950, a causa do autismo foi atribuída a pais emocionalmente distantes, e, nos anos 1960, passou a ser entendido como um transtorno cerebral.
Somente em 1978, o psiquiatra Michael Rutter classificou o autismo como um distúrbio do desenvolvimento cognitivo, reconhecido oficialmente no DSM-3, em 1980. Desde então, vários estudos foram realizados, e o conhecimento sobre o TEA se aprofunda e atualiza a cada nova edição do DSM.
O diagnóstico de TEA em meninas é também uma questão ainda em avanço. Por muito tempo, grande parte dos estudos, imagens e exemplos clínicos se concentravam no sexo masculino, dessa forma, criou-se padrões diagnósticos não integralmente aplicáveis às meninas. Além disso, fatores sociais também dificultam a percepção, visto que as expectativas de gênero costumam limitar e moldar as formas de expressão feminina, o que pode encobrir a manifestação dos traços autistas. Dessa forma, o diagnóstico feminino é comum na adolescência ou na vida adulta, por percebimento próprio e acesso à informação.

Panorama do TEA no Brasil – Informações do Censo de 2022 | Créditos da imagem: Letícia Reis
O ativismo autista
O ativismo autista surgiu no fim dos anos 1970 e início dos 1980, com a luta das famílias das pessoas diagnosticadas por direitos e por uma melhor compreensão do autismo. Até então, incluir os próprios autistas nas discussões não era cogitado.
No Brasil, em 1983, foi criada a Associação de Amigos do Autista (AMA), em São Paulo, e, em 1988, foi fundada a Associação Brasileira de Autismo (ABRA). Essas instituições movimentaram o início da jornada de inclusão, conscientização e busca por atendimento especializado.
Em 2005, nasceu o Movimento Orgulho Autista Brasil (MOAB) e, em 2008, a Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas Autistas (Abraça). As iniciativas foram fundamentais para o avanço na criação de legislações. Essas organizações passaram a trabalhar diretamente com autistas ativistas. Em 2016, a Abraça realizou o 1º Encontro Brasileiro de Pessoas Autistas (EBA).Além disso, essas entidades abriram espaço para a criação de organizações regionais. Em Bauru, uma das associações atuantes na causa autista é a Lions Clube Bauru Autismo, que age há cinco anos no desenvolvimento de projetos, divulgação de informações, promoção de conscientização e diminuição de barreiras.

O Lions Clube Bauru Autismo é uma instituição ativista do TEA | Créditos da imagem: Lions Clube Bauru Autismo via Instagram
A sócia-fundadora e atual presidente do clube, Taise Pimenta, afirma que, ao longo de seus anos de ação, percebeu o aumento do interesse de empresas e famílias na busca por ajuda, a fim de entender como agir diante de necessidades especiais. Segundo ela, isso é um reflexo do avanço social, no qual pessoas autistas passaram a ocupar novos espaços, como o mercado de trabalho e as universidades, e da redução da visão que as restringia à infância.
Para a presidente, o trabalho do grupo é diminuir as barreiras. “O foco do nosso clube é mostrar que a inclusão é um caminho, ela não é um lugar. Não tem um lugar para falar ‘opa, aqui tá perfeito’ “, esclarece a fundadora.
Especialista em educação especial, Taise atua como professora há 12 anos. Quando lidava com a educação infantil, trabalhou pela primeira vez com uma criança autista – a única não apenas na escola, mas também de toda a rede. Na época, ela não conhecia os procedimentos e cuidados necessários, e tudo feito para o aluno, como compreender seu hiperfoco e os motivos pelos quais saía da sala constantemente, foi intuitivo.
Ao ver sua família lidar com uma deficiência intelectual e enfrentar as dificuldades de inclusão escolar, acesso a serviços de saúde e até mesmo com questões capacitistas, surgiu seu espírito ativista. Esse engajamento ganhou voz com a entrada no grupo fundador do movimento. A educadora também é tia de um menino autista, nascido após sua entrada na associação.
Sua luta também se estende às mães atípicas. Elas enfrentam horas em salas de espera de terapias e hospitais e têm sua vida financeira, profissional e pessoal afetada por essa realidade.
O ativismo digital também criou espaço para os autistas representarem a causa por si mesmos, e ampliarem debates e a visibilidade.
Representações e símbolos do autismo
Desde 1963, o autismo é representado por um quebra-cabeça colorido, símbolo criado pela National Autistic Society (NAS), no Reino Unido, para refletir a complexidade e os mistérios do TEA. No entanto, esse conceito gerou discussões na comunidade, por recearem o reforço da ideia de pessoas autistas como incompletas, estigmas e a criação de barreiras sociais.
Outra associação comum é o azul, que, inclusive, nomeia a campanha, e também entrou em questionamento pelos coletivos por perpetuar o estereótipo do autista como menino. Eles apontam que campanhas de conscientização se apoiaram na imagem do “Anjo Azul” e fomentaram a exclusão das necessidades e características femininas dentro do espectro.
Diversos ativistas discutem o estereótipo do homem branco, cisgênero, heteronormativo, infantilizado e considerado “puro”, na busca do acolhimento de diferentes raças, identidades de gênero e sexualidades.
Sendo assim, novos, mais abrangentes e inclusivos símbolos são frequentemente discutidos e alguns até implementados, mesmo sem consenso, como:
- Cordão ou fita girassol: representa positividade, crescimento e apoio às pessoas com autismo e outras deficiências ocultas;
- Símbolo do infinito colorido: reforça a diversidade e a individualidade do espectro;
- Fitas ou cordões em cores específicas: azul, arco-íris ou combinações variadas são usados por diferentes campanhas ou instituições e permite abordagens personalizadas.

Identificações utilizadas por autistas | Créditos da imagem: Divulgação – Clínica Formare
Legislação e políticas públicas
Com o avanço do ativismo autista, diversas conquistas legais foram alcançadas no Brasil. Um marco importante ocorreu com a Lei nº 12.764/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Essa legislação passou a reconhecer a pessoa com TEA como pessoa com deficiência, assim, os direitos já assegurados às PCDs foram garantidos aos autistas, como acesso à educação, ao trabalho, à moradia, à assistência social e à previdência.
Posteriormente, em 2015, a criação do Estatuto da Pessoa com Deficiência, por meio da Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.145/2015), ampliou ainda mais a proteção e a inclusão das pessoas com TEA na sociedade.
Mais recentemente, em 2020, foi sancionada a Lei nº 13.977/2020, conhecida como Lei Romeo Mion, responsável por instituir a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea), emitida gratuitamente, com o objetivo de facilitar o acesso a direitos e serviços.

A carteirinha é fundamental para a garantia dos direitos das pessoas com TEA | Créditos da imagem: Divulgação – Ciptea
Dentro dessas conquistas, destacam-se os espaços destinados ao atendimento e aos cuidados especializados de pessoas com TEA, como o Centro de Apoio para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (Centro TEA Paulista), um ambiente completo voltado ao acolhimento, à assistência e à inclusão de autistas e seus familiares.
No estado de São Paulo, o primeiro centro foi inaugurado em 2025, na capital. Já a segunda unidade, a primeira no interior, será instalada em Bauru. A inauguração está prevista para o primeiro semestre de 2026, e a unidade funcionará na Rua Severino Lins, nº 7-10 (Vila Aviação), e oferecerá terapias individuais, atividades coletivas, teleatendimento e capacitação para profissionais da rede de saúde. O espaço funcionará por meio de convênio: a estrutura será fornecida pelo governo, enquanto a gestão ficará a cargo de outra organização.

O estado de São Paulo caminha para sua segunda unidade de um Centro TEA | Créditos da imagem: divulgação
No momento, o edital se encontra no processo de chamamento público para Organizações da Sociedade Civil (OSCs) se credenciarem para gerir o espaço. O governo estadual prevê um investimento anual fixo de R$6 milhões.
Para Taise, entidades bauruenses, como o Lions Clube Bauru Autismo, tiveram grande importância nessa conquista. A ausência de um Centro TEA é sentida pela população há anos e, além de muitas cobranças entregues diretamente a deputados, motivou uma tentativa frustrada de construção independente por meio de doações.
A escolha de Bauru se deve ao seu título de referência em saúde e suporte para municípios vizinhos. Ao todo, 39 cidades da região administrativa de Bauru, com uma somatória aproximada de 68 mil pessoas com deficiência, poderão se beneficiar com a nova instituição. Segundo Taise, a demanda segue aumentando, justamente porque, apesar da posição de destaque, o município ainda não possui a infraestrutura necessária.
A presidente do Lions afirma que a expectativa do público a ser atendido é a redução das filas, além da ampliação do acesso aos atendimentos e aos diagnósticos.
Apesar de uma conquista como essa, Taise ressalta a carência de dados básicos em Bauru, como a ausência de um censo detalhado e preciso capaz de identificar o público atendido. Questões como “quantos são”, “quem são”, “quem tem acesso” e “onde estão” ainda permanecem sem respostas. Os dados atualmente utilizados têm como base a Ciptea, mas nem todas as famílias solicitam a carteirinha ou conhecem seus benefícios.
Eventos comemorativos
Tendo em vista a ampliação das conquistas e da visibilidade, a comunidade autista bauruense estará presente em diversos eventos ao longo do mês de abril.
A programação, promovida pela Coordenadoria de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e realizada no auditório do Centro Administrativo da Prefeitura de Bauru, localizado na Rua Wenceslau Braz, 8-8, teve início no dia 1º de abril, às 13h, com a participação de diversos nomes relevantes da causa, e seguirá com as seguintes atividades:
- 09/04
9h – Capacitação: Enfoque no serviço de acolhimento (Assistência Social)
- 14/04
14h – Capacitação: Enfoque no serviço de acolhimento (Assistência Social)

Primeiro dia de evento contou com a entrega de certificados | Créditos da imagem: Divulgação – Prefeitura de Bauru
Iniciativas como o Lions Clube Bauru Autismo também terão suas próprias ações de promoção da causa, como a tradicional Caminhada pela Conscientização do Autismo, que reúne famílias, profissionais, instituições e apoiadores. O evento chega à sua sexta edição com o tema “Entender, Respeitar e Amar”. Além de atividades voltadas para crianças e momentos de integração, neste ano o evento contará com uma praça de alimentação.

A caminhada visa angariar fundos para projetos voltados ao TEA | Créditos: divulgação – Lions Clube Bauru Autismo
A ação será realizada no dia 26 de abril, das 8h às 12h, na Avenida Getúlio Vargas, quadra 19. As inscrições ainda estão abertas.
A caminhada arrecada recursos por meio da venda de camisetas, no valor de R$ 55,00. O total será destinado à construção de uma sala de integração sensorial em um projeto de centro da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE – Bauru).
A iniciativa cresce e apresenta resultados positivos a cada edição. A primeira ocorreu de forma virtual, no contexto da pandemia. Na quinta edição, a estimativa é de 800 participantes, com meta de ampliação neste ano. Com a arrecadação anterior, foi possível doar uma sala sensorial a uma escola pública e levar o debate sobre o tema até a Câmara de Bauru.
A líder do clube destaca: “A caminhada é algo que exige muito trabalho e o apoio de voluntários, mas, ao mesmo tempo, é um momento de grande satisfação. É quando percebemos que cada vez mais pessoas querem conhecer e entender o tema.” Ela também ressalta como ponto positivo o encontro entre pessoas com os mesmos interesses e preocupações, o que fortalece o sentimento de união.
Neste ano, a caminhada foi transferida para o final do mês com o objetivo de estender e manter o debate ao longo de abril.
Para Taise, a atenção ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) não deve se limitar ao mês de abril, mas a existência desse período contribui para ampliar a visibilidade da causa. “É o mês que a gente tem para intensificar, que temos maior visibilidade e mais espaço. Então, é o nosso momento de falar, de movimentar para fazer acontecer”, completa a ativista.





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