97% das brasileiras que utilizam transporte por aplicativo sentem medo de sofrer alguma violência; medida prevê mais segurança para passageiras e motoristas

Lana Novais

No início do ano, a empresa Uber implementou em 13 estados brasileiros um recurso que permite que, ao selecionar uma corrida, a passageira opte por uma motorista mulher. A nova funcionalidade tem como objetivo tornar o ambiente das corridas mais seguro para as mulheres, sejam elas passageiras ou motoristas. Além da Uber, outros aplicativos, como o 99, iniciaram em 2026 os testes para modos dedicados ao público feminino. 


A nova ferramenta do aplicativo sugere  uma mudança no Modo Mulher disponibilizado pela plataforma, agora, além de passageiras mulheres, as motoristas do aplicativo poderão optar por filtrar quais passageiros homens irão atender e poderão selecionar somente aqueles com nota superior a 4.8 e ao menos 50 viagens concluídas.

Transporte por aplicativo pela plataforma Uber. (Foto: Domínio Público).

O recurso ainda conta com outros filtros que podem ser utilizados de acordo com a preferência da motorista.  A implementação da ferramenta está ocorrendo de forma gradual em diversas capitais brasileiras

As novas funcionalidades são, de acordo com a Uber, uma forma de mostrar o compromisso em garantir uma experiência segura e confortável para as usuárias mulheres e pessoas não binárias. Segundo a própria empresa, essa nova modalidade faz parte de uma iniciativa que começou em 2018 e que segue desde então promovendo ações para combater a violência contra as mulheres.

Mulheres motoristas como desenvolvimento econômico

Além da preocupação com a violência de gênero, oferecer mais segurança no transporte também é benéfico para aquelas que trabalham com transporte de pessoas, permitindo que se sintam seguras ao utilizar a plataforma como prestadores de serviços.

No Brasil, cerca de 11% dos motoristas por aplicativo se identificam com o gênero feminino, mesmo assim a Uber relatou que obteve um crescimento de 160% no número de  motoristas mulheres nos últimos anos. O que demonstra que apesar do crescimento a taxa de mulheres que atuam em aplicativos ainda é baixa no Brasil.

Beatriz de Almeida tem 21 anos, acumula 309 viagens no aplicativo somente no último ano e afirma utilizar o recurso toda semana:

“Sendo uma estudante universitária, constantemente utilizo o aplicativo de viagens tanto em horários de pico, quanto em horários considerados perigosos, voltando da faculdade à noite ou de algum evento ou festa, sempre sozinha ou acompanhada de poucas pessoas”.

Assim como Beatriz, o uso de transporte por aplicativo é majoritariamente feito por mulheres. No Brasil, a porcentagem de usuárias chega a ultrapassar a faixa dos 60%. Além das mulheres serem as principais usuárias dessas plataformas, elas também são maioria quando o assunto se trata de assédio ou importunação sexual por motoristas de aplicativos. 


Índice de assédio em aplicativos de transporte, insegurança em se locomover e a dificuldade de acesso

Esses aplicativos auxiliam nas demandas do dia-a-dia facilitando o deslocamento das pessoas para locais distintos da cidade a qualquer momento, mas ainda estão se adaptando quando o foco é oferecer conforto e segurança para as passageiras.

Um estudo realizado em conjunto  pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva com apoio da Uber, ouviu cerca de 4.000 usuárias buscando entender vivências e demandas de mulheres por segurança no deslocamento tanto em transportes públicos quanto privados.
Como resultado, a pesquisa demonstrou que 97% das brasileiras que utilizam essas plataformas dizem sentir medo de sofrer alguma violência enquanto se deslocam pela cidade, e 80% afirmam sentir “muito medo” nessas situações.

Dados acerca do medo sentido por mulheres durante deslocamentos. Fonte: Fonte: Instituto Patrícia Galvão/ Instituto Locomotiva / Uber.

Chegada lenta de um recurso fundamental 

Questionada sobre o novo recurso, Beatriz afirma que ainda não teve acesso a essa funcionalidade em nenhuma das cidades em que vive no interior de São Paulo e afirma considerar a implementação do novo mecanismo, algo tardio:

“Acho a implantação de viagens exclusivas com mulheres um avanço, mas infelizmente tardio. É um recurso que poderia ter sido implementado a muito tempo, e assim ter evitado muitos constrangimentos, não só a mulheres cis, mas todas as minorias que ficam com um sentimento de insegurança ao entrar em um carro com um homem”. 

Ela complementa dizendo que usaria o recurso e daria preferência à funcionalidade para se sentir mais segura: “Nesses casos, principalmente nas viagens que vou ou volto sozinha, o impacto do recurso de motoristas exclusivas para mulheres seria um alívio, visto que você não consegue saber as intenções do motorista, saber se ele vai puxar um assunto constrangedor ou não… Então para mim, o impacto seria de priorizar o recurso sobre as outras alternativas que o aplicativo dá, em qualquer horário do dia!”.

Beatriz também afirma que entende essa ação dos aplicativos como uma forma das empresas se posicionarem no apoio ao combate a violência contra a mulher: “Acredito que a necessidade desse recurso está atrelada ao número de casos de feminicídio e de todas as formas de violência de gênero contra as mulheres”.

Confira o infográfico a seguir com dicas para se sentir mais segura ao utilizar o transporte por aplicativo:

Fonte: autoral.

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