Cenário evidencia desafio de transformar visibilidade em participação, em meio a excesso de conteúdo, desinformação e baixa confiança nas instituições
Sinara Martins

À medida que o Brasil se aproxima das eleições 2026, a disputa política se intensifica também no ambiente digital, onde jovens concentram cada vez mais seu consumo de informação. A recente mobilização eleitoral dessa faixa etária, impulsionada por campanhas nas redes sociais e pelo engajamento de influenciadores, indica uma retomada de interesse político, mas ainda instável.
O avanço do populismo digital já não é uma tendência restrita. A eleição de Zohran Mamdani, prefeito eleito de Nova Iorque em 2025, evidenciou como campanhas estruturadas nas redes sociais podem mobilizar eleitores, especialmente jovens, e transformar engajamento online em votos. No Brasil, esse movimento aponta que a disputa eleitoral tende a acontecer também nos feeds, algoritmos e na linguagem das plataformas.
O cenário brasileiro, porém, parte de um desafio estrutural. O distanciamento da juventude na política ainda é significativo, embora recuperação recente. Em 2022, o país registrou um salto no alistamento eleitoral de adolescentes, com mais de 2,1 milhões de jovens de 16 e 17 anos aptos a votar, após uma mobilização que reverteu anos de queda no interesse. Desse total, cerca de 1,7 milhão compareceram às urnas, o que indica que, quando mobilizada, essa faixa etária responde ao processo eleitoral.
Ainda assim, o engajamento é desigual. Entre jovens de 18 a 24 anos, cuja participação é obrigatória, persistem níveis de abstenção, e a inserção mais profunda na política segue baixa. Um exemplo é a baixa filiação partidária: apenas cerca de 1% dos eleitores dessa faixa etária está vinculado a partidos no país. Os dados indicam que o interesse pode crescer em momentos específicos, mas não se traduz, necessariamente, em participação contínua ou institucionalizada.
Nesse contexto, o populismo digital se apresenta como estratégia. Lideranças como Erika Hilton, Guilherme Boulos e Jones Manoel já operam dentro dessa lógica, assim como nomes da direita como Gustavo Gayer e Nikolas Ferreira. Vídeos curtos, linguagem direta e construção de comunidade orientam a comunicação política nas plataformas.
A Agência Trilhos entrevistou Guilherme Cortez, deputado estadual filiado pelo PSOL, que aponta que essa adaptação passa menos por estética e mais por consistência no diálogo. “Quem quer falar de verdade com a geração Z precisa pensar bem na sua comunicação. Muita gente acha que a linguagem ‘jovem’ se resume a postar memes e trends, mas é muito mais do que isso.” Segundo ele, o ponto central está na conexão genuína. “O que a geração Z busca em suas referências […] é a autenticidade, a sensação de que a pessoa que está conversando com ela está sendo sincera.”

Como funciona o populismo digital?
O modelo se estrutura a partir de três movimentos principais. O primeiro é a simplificação da mensagem, com conteúdos curtos, diretos e pensados para fácil consumo e compartilhamento. O segundo é a construção de proximidade, com o uso de bastidores, interações e linguagem informal que aproximam lideranças do cotidiano do público. O terceiro é a formação de comunidade, que incentiva seguidores a participarem ativamente, através de comentários, compartilhamentos e defesas de posicionamentAs vantagens ajudam a explicar sua expansão. As redes permitem comunicação direta e imediata, sem intermediação tradicional, fortalecendo o vínculo entre lideranças e público. A lógica algorítmica amplia o alcance de conteúdos e favorece mensagens que geram identificação e engajamento. Além disso, a estética informal e a linguagem acessível tornam temas complexos mais compreensíveis, que ampliam o acesso ao debate político.

Na prática, essa lógica se traduz em conteúdos pensados para circulação rápida e alto engajamento. O deputado federal Nikolas Ferreira, por exemplo, construiu forte presença digital com vídeos curtos e diretos, muitas vezes baseados em posicionamentos firmes e linguagem acessível. Seus conteúdos costumam explorar cortes objetivos, legenda e frases de impacto, além de temas que geram reação imediata e favorecem o alcance nas plataformas e capacidade de mobilização, especialmente entre jovens que já consomem esse formato no dia a dia.
Já a deputada federal Erika Hilton aposta em uma comunicação que combina informação política com proximidade. Em suas redes, além de posicionamentos sobre pautas públicas, há espaço para bastidores, rotina e interação com seguidores. O uso de linguagem direta, referências culturais e respostas a comentários cria um ambiente de diálogo constante, fortalece a identificação com o público e incentiva a participação mais ativa no debate.
Desafios
A política disputa espaço com entretenimento em um fluxo de conteúdo, e se torna difícil de sustentar. O excesso de informação fragmenta a atenção e favorece interações rápidas, muitas vezes superficiais. Nesse cenário, transformar visibilidade em participação se torna um dos principais desafios.
Para Guilherme Cortez, esse é um ponto central do debate atual. Ele afirma que “o engajamento digital não é uma coisa a mais dentre as tantas ferramentas que a gente tem pra se comunicar”, mas sim parte da própria participação política para muitos jovens. Ainda assim, ressalta que a conversão depende do conteúdo. “É possível transformar esse engajamento em outras formas de ação, mas para isso é preciso falar dos temas concretos que mais preocupam a juventude, como emprego, corrupção e segurança.”
Ao mesmo tempo, a circulação de desinformação e a baixa confiança nas instituições dificultam ainda mais esse processo. Jovens acompanham o debate, mas não se sentem representados ou não enxergam impacto direto da política em suas vidas. Sobre esse cenário, Cortez defende uma abordagem que reforce o protagonismo juvenil. “Tenho apostado em mostrar para essas pessoas mais jovens que elas mesmas podem e devem fazer política”, diz. Segundo ele, iniciativas fora das estruturas tradicionais também ajudam a reconstruir esse vínculo. “Recentemente, realizei a caravana Nossa Chance que passou por mais de 20 universidades, buscando dialogar com quem já não confia mais nas instituições”, completa.
O deputado também aponta falhas na forma como partidos ainda se comunicam. “O grande erro […] ainda é de quem menospreza a comunicação digital.” Para ele, a disputa por atenção nas redes já é central e exige preparação. “A esquerda precisa se organizar e se capacitar para disputar as redes sociais, sabendo que os algoritmos favorecem a extrema-direita”, afirma.
Mais do que uma estratégia de campanha, o populismo digital se consolida como uma mudança estrutural na política contemporânea. Ele não apenas informa, mas mobiliza, cria comunidade e transforma seguidores em participantes ativos. Em um cenário de baixa conexão com a política tradicional, essa lógica pode ser decisiva para reaproximar jovens do processo eleitoral. Em 2026, no Brasil, não basta disputar votos. Será necessário disputar atenção, linguagem e pertencimento.





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