Novas regras para navegação online levantam debate entre especialistas

Vitor Cocito Bergamini

banco de imagens: Stocksy

           

O ECA Digital, conhecido como ‘Lei Felca’, voltou a repercutir nas redes sociais. A lei entrou em vigor no dia 17 de março de 2026 e causou discussões na internet. Na semana em que entrou em vigor, a ‘Lei Felca’ esteve no centro de debates sobre as novas regras no uso da internet por menores de 18 anos. 

A lei foi apelidada como Lei Felca devido a Felipe Bressanim, influenciador paranaense conhecido como Felca. O youtuber postou um vídeo sobre a adultização de menores na internet em 6 de agosto de 2025, gerando pressão popular para a implementação da lei. Atualmente o vídeo da denúncia conta com mais de 52 milhões de visualizações no Youtube.

     Reprodução/Youtube

  

O influenciador também publicou um vídeo recente em que esclarece informações incorretas que vinham sendo divulgadas sobre a lei.

As diretrizes previstas no Estatuto Digital da Criança e do Adolescente buscam proteger menores de idade que, ao navegar sem regras pela internet, estão expostos a riscos que vão desde gastos não autorizados em jogos online até crimes graves, como exploração sexual. 

Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 indicam que 92% dos jovens brasileiros entre 9 e 17 anos utilizam a internet, com acesso frequente ao longo do dia. O estudo também aponta o telefone celular como principal dispositivo de acesso.

O relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, lançado pelo UNICEF, alerta que uma a cada cinco crianças e adolescentes no Brasil já foi vítima de violência sexual on-line. Segundo a pesquisa, 19% das crianças e adolescentes de 12 a 17 anos no Brasil foram submetidas a pelo menos um caso de exploração sexual facilitada pela tecnologia.

Considerando a população brasileira de 12 a 17 anos que utiliza a internet, isso representa cerca de 3 milhões de jovens vítimas de violência sexual em um único ano.

Quais são os objetivos da Lei?

A nova lei impõe mudanças diretas no uso de plataformas digitais. Entre elas, está a exigência de mecanismos mais confiáveis de verificação de idade, de acordo com o tipo de conteúdo acessado, além do reforço da supervisão parental, com ferramentas que permitem aos responsáveis acompanhar e limitar o uso por menores.

A legislação também restringe a publicidade direcionada ao público infantojuvenil e estabelece limites para práticas comuns em jogos eletrônicos, como compras dentro de aplicativos. 

Além disso, as plataformas passam a ter maior responsabilidade sobre os conteúdos recomendados por algoritmos e na prevenção de crimes no ambiente digital.

Impacto psicológico

A psicóloga Bruna Michalowski atua na área clínica com adolescentes e jovens, e destaca que acompanha de perto os impactos da relação entre o uso de tecnologias e o comportamento humano, especialmente entre os mais jovens.

Ela reflete sobre a transformação de uma infância baseada no brincar e a infância baseada no celular, questionando os estímulos oferecidos pelas telas. “A gente pode encontrar privação de sono, visto que essa luz emitida pelos dispositivos afeta a percepção da luz solar no organismo, sem perceber quando é dia, quando é noite”, explica. 

A psicóloga também destaca a chamada atenção fragmentada entre os jovens. “Já existem pesquisas que mostram como o limiar de prazer está reduzido entre crianças e adolescentes. Então, para satisfazer uma criança hoje, são necessários muitos estímulos”, relata.

Além disso, Bruna aponta os impactos do uso excessivo das telas. Efeitos como isolamento social e crises de abstinência quando uma tela é retirada são cada vez mais comuns. “Tem crianças entrando em surto de raiva, crises de pânico. Esse tipo de impacto não era observado anteriormente”.

A relação entre o ambiente digital e sintomas de ansiedade e depressão também é motivo de atenção entre os psicólogos. De acordo com Bruna, o vício aparece como reflexo dessa relação. Ela também atenta sobre a diferença que o ambiente digital tem sobre meninas e meninos. “As meninas têm o interesse muito mais voltado às redes sociais, enquanto os meninos, aos jogos virtuais”.


Avaliação das novas medidas

A especialista acredita que a Lei Felca pode contribuir para a proteção dos menores, mas ressalta a importância da participação dos pais na aplicação das medidas previstas no ECA Digital, como a participação ativa na supervisão. “Se o pai precisa destinar um tempo, ler um termo de autorização, isso já é incrível. Pelo menos pra saber qual jogo o filho tá, qual rede ele quer entrar”, explica.

Do ponto de vista psicológico, ela afirma que essas medidas têm potencial de reduzir os riscos presentes na internet, mas ainda destaca o papel dos pais junto com essas medidas. “Enxergo que essas medidas são um ponto de partida, mas elas não devem se encerrar em si, precisam ter continuidade”, diz. 

Para a psicóloga, é preciso encarar os meios digitais como uma realidade em expansão. “A gente precisa andar com esse fenômeno e não ir contra ele. Talvez seja mais interessante a gente lutar junto com esses aspectos.”, conclui. 

One response to ““Lei Felca” impacta uso da internet por menores de idade”

  1. As redes sociais são um fato. Hoje em especial. Cada época temos um fato novo de preocupações…Tudo está nas mãos dos pais e responsáveis pelas crianças e aos jovens adolescentes. O controle e as orientações é função da família em primeiro lugar. Em seguida, escolas, orientadores e assim por diante… Estarmos atentos com os movimentos das crianças e dos nossos jovens amados adolescentes, constantemente… Independentemente das leis. Penso… fraterno abraço.

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