João Vitor Soares Fidelis, João Victor Neves Gonçalves, Murilo Tognette e Vitor Cocito Bergamini

A Copa do Mundo é apresentada historicamente pelas entidades organizadoras como uma celebração global entre nações. Durante sete semanas, torcedores compartilham espaços públicos, bandeiras ocupam as arquibancadas e a prática esportiva cria a percepção de integração internacional.

Entretanto, o torneio envolve dinâmicas que ultrapassam as quatro linhas do gramado. Desde a definição do país-sede até a execução logística, a competição abrange disputas governamentais, interesses financeiros e acordos diplomáticos entre estados soberanos.

A edição de 2026 evidenciou essa dimensão geopolítica. Sediado simultaneamente por Estados Unidos, México e Canadá, entre 11 de junho e 19 de julho de 2026, o campeonato reuniu 48 seleções em meio a diretrizes migratórias rígidas da administração norte-americana e tensões internacionais.

Jogadores do México em protocolo em estreia na Copa do Mundo 2026 (Foto:  Kai Pfaffenbach)

Apesar do discurso oficial de integração territorial, o desenvolvimento do torneio registrou restrições de visto, deportações de torcedores e questionamentos de organizações não governamentais sobre os critérios adotados pela FIFA.

Entidades globais como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch publicaram relatórios apontando a omissão da entidade diante de violações de direitos humanos em solo norte-americano. As ONGs criticaram a aplicação de vetos de viagem a torcedores de países qualificados. 

Uma história de Copas politizadas

O alinhamento entre diretorias políticas e o futebol não começou em 2026. Na Segunda Copa do Mundo, realizada na Itália em 1934, o regime fascista de Benito Mussolini utilizou o evento como ferramenta de propaganda estatal e projeção internacional.

Em 1978, a ditadura militar argentina instrumentalizou o título mundial para atenuar denúncias de violações de direitos humanos. Quatro anos depois, na Espanha em 1982, o confronto entre Argentina e Inglaterra ocorreu sob o impacto diplomático da Guerra das Malvinas.

No século XXI, a realização do torneio no Brasil em 2014 foi acompanhada por intensas manifestações populares referentes aos custos públicos dos estádios. Em 2018 na Rússia e em 2022 no Catar, denúncias sobre liberdade de imprensa e direitos trabalhistas dominaram o debate público.

Linha do tempo: João Vitor Soares Fidelis/Agência Trilhos – Genially

O poder institucional da FIFA na definição das sedes

A escolha das sedes das Copas do Mundo envolve negociações diretas entre o Congresso da FIFA e chefes de Estado. As federações candidatas precisam assegurar garantias governamentais de isenção fiscal, flexibilização de leis trabalhistas e protocolos especiais de segurança.

A estrutura diretiva da entidade, composta por conselheiros indicados pelas seis confederações continentais, CONMEBOL (América do Sul), UEFA (Europa), CAF (África), AFC (Ásia), CONCACAF (América do Norte, Central e Caribe) e OFC (Oceania), detém capacidade de barganha perante governos locais. Em troca do direito de sediar o evento, países concedem autonomia jurídica temporária à organização.

Assim aconteceu durante o processo de preparação para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, quando a tramitação do Caderno de Encargos, documento técnico e legal que guia o campeonato,  exigiu a aprovação da chamada Lei Geral da Copa no Congresso Nacional

Na ocasião, o então presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador Local (COL), Ricardo Teixeira, reforçou a obrigatoriedade de cumprimento irrestrito das metas impositivas, em matéria registrada pelo Jornal Estadão

“O cumprimento dos prazos e das exigências estabelecidas é fatal. A cidade que não cumprir o cronograma e o caderno de encargos aprovado pela FIFA será sumariamente substituída por outra”, disse.

Ricardo Teixeira ex-presidente da CBF (Foto: Domínio Público)

A aplicação dessas regras visa proteger contratos de patrocínio e direitos de transmissão, refletindo-se no aumento progressivo do faturamento da entidade a cada ciclo da competição.

Gráfico: João Vitor Soares Fidelis/Agência Trilhos – Flourish

Vistos, barreiras migratórias e deportações

Na edição de 2026, a aplicação do pacote de restrições migratórias do governo dos Estados Unidos gerou entraves diplomáticos para delegações e torcedores. Cidadãos de países sob sanções ou restrições de viagem enfrentaram negativas sistemáticas de visto.

Membros da delegação técnica do Irã precisaram concentrar sua logística em território mexicano, deslocando-se para os Estados Unidos apenas nas datas das partidas. A situação exigiu intermediação direta do Comitê Olímpico Internacional e da Confederação Asiática de Futebol. 

Torcida iraniana protesta nas arquibancadas após ataque dos EUA em escola no dia 28/02/2026, deixando 168 mortos (Foto: Sebastian Frej)

Diante do aumento de queixas e das barreiras na concessão de vistos para torcedores e profissionais de nações sob restrição, a posição oficial da entidade organizadora reiterou a soberania das leis locais. Assim confirmou Gianni Infantino em pronunciamento oficial sobre os desafios de integração nas sedes, em cobertura realizada pelo Jornal JPost

“Nós tentamos sempre encontrar soluções, sempre. Mas precisamos respeitar que não somos os reis do mundo para governar sobre governos ou forças policiais. Somos uma organização esportiva e fazemos o melhor com os meios que temos”, relata. 

Além dos agentes esportivos, torcedores também foram barrados na entrada do país. O cidadão congolês Michel Kuka Mboladinga, conhecido como Lumumba, teve sua viagem interrompida em solo norte-americano devido a inconsistências burocráticas no sistema de triagem migratória. 

Torcedor congolês Michel Kuka Mboladinga em destaque na arquibancada como figura de resistência (Foto: Reprodução/sofoot)

Bastidores Geopolíticos 

O jornalista esportivo João Vitor Segura, do portal OGol, cobriu a competição e vivenciou o ambiente criado ao redor das partidas. Em relato sobre as disparidades nas regras de imigração entre os países anfitriões, destaca a diferença de critérios observada durante a cobertura do torneio no continente norte-americano. 

“Comigo confesso que não tive nenhum problema, mas vendo as notícias, existe uma diferença do rigor nos Estados Unidos. Vi que eles acabam sendo um pouco incongruentes nesse sentido, conforme as questões políticas “, explica.

Jornalista João Vitor Segura na cobertura da Final da Copa do Mundo de 2026
(Foto: Instagram – João Vitor Segura)

Ao tratar da repercussão dos casos de restrição diplomática que afetaram delegações e profissionais barrados na imigração, o jornalista relatou o impacto dessas decisões nos bastidores da cobertura. 

“A gente vê o que acontece com o Irã, então era uma insatisfação geral, digo não só dos brasileiros, mas de todas as nações. Todo mundo via o quanto era ridículo e inadmissível o que estava acontecendo, tanto que matou bastante as chances que o Irã tinha de avançar para próximas fases, porque a logística fica realmente complicada “, ressalta. 

O correspondente ainda projeta os desdobramentos desse modelo de gestão da FIFA para a Copa do Mundo Feminina de 2027

“Eu, honestamente, acho que pouquíssimo pode influenciar, porque o Brasil é um país muito diferente, temos experiência com esse tipo de evento, então torcermos para que dê tudo certo” anseia. 

O futuro dos megaeventos: de 2026 à Copa do Mundo Feminina no Brasil em 2027

As lições logísticas e as contradições diplomáticas da Copa de 2026 surgem como ponto de reflexão para os próximos ciclos esportivos globais. O debate sobre até que ponto megaeventos conseguem isolar-se das crises geopolíticas do mundo real alcança agora a preparação para a Copa do Mundo Feminina de 2027, sediada no Brasil.

O evento de 2027 marca a primeira vez que o continente sul-americano recebe a versão feminina do Mundial. A competição ocorre em um contexto de reivindicação por equidade orçamentária, visibilidade de gênero e contestação dos modelos tradicionais de gestão esportiva mantidos pelas confederações locais (CONMEBOL e CBF) e pela FIFA.

Enquanto a edição masculina de 2026 reforçou o isolamento de nações por barreiras migratórias e atritos diplomáticos na América do Norte, o torneio no Brasil em 2027 é projetado sobre o discurso da inclusão. A estratégia visa transformar a realização do torneio no país em uma referência de integração e desenvolvimento para a América do Sul e o mundo. 

De acordo com a coordenadora de Seleções Femininas da CBF, Cris Gambaré, em apuração realizada pela CNN Brasil, a preparação envolve a expansão do impacto do esporte para além das sedes principais. 

“E que essa Copa seja realmente uma marca, um marco importante para essa virada de chave dentro do nosso país e na América do Sul, porque eu acho que vai ajudar muito outros países que têm ligação direta com o Brasil. Eu acredito que, não só onde a Seleção Brasileira esteja, mas outras seleções estejam jogando, que vai dar muito público ” disse a dirigente.

Coordenadora de Seleções Femininas Cris Gambaré (Foto: Samara Moumei/CBF)

Para conferir mais bastidores e dados exclusivos dessa análise, confira nosso conteúdo especial no Instagram da Agência Trilhos

INDICAÇÕES DE LEITURA E MÍDIA

  • Como o Futebol Explica o MundoLeitura jornalística, por Franklin Foer, mostra, através de histórias reais, como a política e os interesses econômicos moldam o esporte global. 
  • Nas Linhas do Esporte — Podcast em formato narrativo descreve a situação política dos EUA na Copa do Mundo de 2026. 
  • Brasil 70 — Série retrata o contexto dos “anos de chumbo” do governo Médici, a queda de João Saldanha e a apropriação política do tricampeonato mundial

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